sábado, 18 de dezembro de 2010

"O dia em que faremos contato será o primeiro do resto das nossas vidas"

Mary é uma menina tímida e solitária que mora na Austrália e vive negligenciada pelos pais. Pais, aliás, que passam longe de serem exemplos edificantes. Max é um solteirão de 40 e poucos anos que mora num apartamento no subúrbio de Nova York e tem muita dificuldade de se relacionar com quem quer que seja.

É a partir do encontro desses dois personagens que a animação Mary & Max (2009) se desenrola. Após pegar o nome dele numa lista telefônica, Mary decide escrever para o dono daquele nome engraçado (Max Horowitz), com quem passaria a se corresponder num ritmo cada vez mais intenso. Apesar de viverem a mesma solidão, de carregarem uma certa fragilidade diante do mundo, e de não serem exatamente exemplos de pessoas fortes, vencedoras e bem resolvidas, aos poucos um vai encorajando outro a confrontar os próprios traumas e medos de uma forma inédita. De repente, Mary e Max vêem suas rotinas sendo alteradas para sempre por aquela coisa que eles nunca haviam conhecido: a amizade.

Naquelas trocas de cartas, um vai percebendo que tinha muito a aprender com o dia a dia do outro, fascinados à princípio com suas realidades tão diferentes mas que aos poucos se revelam dolorosamente semelhantes. E é na revelação da intimidade que está a grande sacada do filme: espertamente ambientado em meados dos anos 70, numa época bem anterior a ICQ, mIRC, e MSN, o seu tom de “Era uma vez” o torna quase um conto de fadas moderno, sobre contatos virtuais. Assim como alguém que entra num bate-papo e se depara com uma pessoa com interesses semelhantes, e daí passa a trocar confidências num Messenger, Mary e Max atingem um nível de cumplicidade que jamais tinham alcançado com pessoas com quem conviviam. É a crônica de uma idiossincrasia do ser humano que a Internet só amplificou: muitas vezes é mais fácil se abrir com alguém que está a quilômetros de distância do que com aqueles que dormem sob o mesmo teto que você.

Virtual ou não, é sobre o contato, sobre empatia e a falta dela que Mary e Max está apoiado. Ao contrário de outras animações, o grande atrativo do filme está na história, na narração - comovente do início ao fim -, e nem tanto nas cores nem no visual, embora eles sejam elementos fundamentais para entender a falta de graça da vida dos protagonistas. Mas ao mesmo tempo em que o mundo se mostra hostil para ambos, o filme faz questão de lembrar que para quebrar a casca do isolamento é só questão de dar primeiro passo. Ou, no caso, de mandar a primeira carta.


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Nem tudo passa

Cantor: George Harrison
Disco: All Things Must Pass
Lançamento: 1970

Nesta semana foram lembrados os nove anos da morte de George Harrison, “the quiet beatle” (o beatle quieto), também conhecido como “o beatle místico”. Por mais que essas alcunhas tivessem algum fundamento, ele sabia que poderia ir muito além delas. E foi, em All Things Must Pass (1970).

O disco alterna momentos pesados (Wah-Wah, Art Of Dying, What Is Life), com baladas (I'd Have You Anytime, Isn't It a Pity, All Things Must Pass), peças acústicas (Apple Scruffs) e, claro, hinos cheios da aura místico-religiosa que virou uma característica sua (Hear Me Lord, My Sweet Lord). O disco mal chegara às lojas e logo se tornou número 1 das paradas (o primeiro de um beatle solo a atingir este posto), num sinal claro do potencial que ele sempre soube que tinha.

Sua capacidade ficara evidente no último disco da banda, - Abbey Road (1969) - que teve praticamente suas vendas puxadas pelas suas duas músicas lá presentes (Something e Here Comes The Sun). E era esse espaço reduzido nos discos (no máximo 2, 3 músicas, e às vezes um lado b num compacto) que vinha lhe deixando cada vez mais insatisfeito. Mesmo emplacando hits nos últimos discos da banda, George não via por onde quebrar a hegemonia da dupla que liderava o grupo. Quando se separaram, George tinha tanto material guardado que tudo acabou rendendo um LP triplo, que a despeito do tamanho, foi aclamado pela crítica e público. Hoje em dia é quase consenso entre os fãs que All Things Must Pass é o melhor trabalho solo de um beatle.

Este grande disco (não só no tamanho), com grandes músicas, contou também com grandes participações: Klaus Voorman (artista plástico que vez a capa do Revolver (1966), e também tocava baixo), Billy Preston (organista que participou do Let It Be (1970)), Ringo Starr, Phill Spector na produção, além de Bob Dylan como parceiro em algumas músicas. Apesar de dizer na música título “Tudo deve passar/ Nada na vida pode durar pra sempre/ Então, devo seguir meu caminho/ E encarar um novo dia” (numa referência ao fim dos Beatles, toda a histeria causada por eles, e a sua carreira solo), George fez um disco que dificilmente ficaria no passado – sua beleza, perene, é o registro do melhor período de um dos maiores músicos que a música pop já viu.

- I'd have you anytime

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

De silêncio e som

Se você se considera um fissurado em música, que cultua músicos favoritos como santinhos num altar, que acompanha lançamentos, gosta de discutir sobre o estilo de uma banda, que desbrava a internet em busca de um link impossível, coleciona álbuns (Mp3, CD, LP), gasta boa parte dos seus dias lendo, pensando ou escrevendo sobre música, então você certamente vai gostar muito de Juliet, Nua e Crua (2009), de Nick Horrnby.

Mas se não faz nada disso, a chance de gostar desse livro também é grande. Digo isto porque o livro não trata exatamente de música, não é voltado apenas para aficionados, seria até um erro achar isso. O seu ponto de partida é a adoração de Duncan por Tucker Crowe, um músico relativamente famoso nos anos 80 que decide abandonar a carreira de uma hora para outra, justo quando alcançava o seu melhor momento com um disco que acabara de lançar – Juliet.

A partir daí vamos conhecendo pouco a pouco o caráter tanto de Tucker, de Duncan, e de sua esposa Annie (quase obrigada pelo marido a embarcar no culto ao cantor), até chegarmos ao ponto em que esses três personagens acabam se envolvendo num conflito que vai além do gosto pela música. Porque a grande matéria-prima de Juliet, Nua e Crua não são os discos de Tucker nem as bobagens que um fã é capaz de fazer: é a própria vida, as decisões que se toma (e as que não se toma), e a forma como lidamos com as suas conseqüências. Como pano de fundo, está a música, a arte, e uma breve discussão sobre o que é maior: a vida, a arte ou artista. Assim como em Alta Fidelidade (romance que deu projeção a Hornby, até virou filme) essas questões surgem em meio à cisões de relacionamentos e descobertas, tudo isto carregado de referências pop e de um fino humor auto-depreciativo (bem inglês, por sinal).

Imprevisível sem ser forçado, econômico sem ser simplório, Juliet, Nua e Crua atinge em alguns momentos uma emoção intensa justamente por aquilo que não é dito, e é aí que Nick Hornby se revela um escritor altamente sagaz: por ser tão sensível à música, ele sabe que às vezes são esses silêncios que dão todo sentindo àquilo que ouvimos.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Pedras, catedrais: coração

Às vezes nem parecia, mas ela tinha defeitos. Nada muito censurável: impaciências que eram resquícios da criança mimada que fora, e que, por outro lado, denunciavam um senso prático quase sobre-humano. No meio de sua essência indômita, de força da natureza, essa era uma das coisas mais misteriosas. Enquanto ele se debruçava sobre laboriosos exames mentais em busca de alguma solução que já lhe parecia impossível, ela chegava como que num condão e com três palavras simples resumia tudo, mostrava o caminho sem tirar os olhos da novela. Era ela, com sua alegria descompromissada, com sua extrema transparência, com seu jeito de permanente bonança, e o cuidado em estar sempre entre os seus, que funcionava como um antídoto contra o amargor do seu pedantismo intelectual, dos seus questionamentos difusos que só ganhavam foco com o olhar dela – sempre radiante, encorajador.

Com o tempo, sem nem perceber, ele começou a se divertir com certas frivolidades dela, e assim se via obrigado a olhar o mundo com menos rigor e mais leveza, respirando de pulmão cheio, livre dos próprios pesos, sentindo a vida como uma brisa de mar no rosto. Olhava pra ela e via coisas que nem lembrava mais que existia: doação, generosidade, alegria com a alegria alheia. Por baixo de toda aquela sua indiferença mal fingida, daquele seu orgulho inútil, ele sabia que era alguém melhor perto dela, e que ter convivido com aquela menina que falava com cachorros talvez fosse a única coisa de que se orgulhava na vida.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Em defesa da tropa, ma non troppo

Praticamente todas as críticas de Tropa de Elite 2 que eu vi por aí fizeram questão de destacar o conteúdo do filme, a denúncia do estado de coisas, a podridão do sistema, etc, etc. Não sei se por pressa, displicência ou falta de conhecimento mesmo, o pessoal tem se prendido a tudo o que o filme tem de mais óbvio, que é o que qualquer pessoa com o mínimo senso crítico pelo menos já suspeita. Dá impressão que a maioria não entendeu que Tropa de Elite 2 não se trata de um panfleto (à moda dos que os russos faziam, com maestria). Não nego que o tema de Tropa é pungente, atual, faz pensar, mas não há pretensões heróicas ali (como na maioria dos filmes do Cinema Novo). Se o diretor José Padilha tivesse em vista qualquer motivação política, se quisesse usar o filme para dar uma sacudida na audiência, ele o teria lançado antes do primeiro turno das eleições, no calor da campanha. A projeção e a polêmica estariam garantidas.

A escolha desse momento para a sua estréia trás um recado claro: Tropa de Elite 2 é acima de tudo um filme de ficção e deve que ser visto como tal. O que faz dele imperdível não é tanto o assunto, a reflexão que ele trás (e seus produtores sabem disso). Mais do que dizer coisas, ele soube dizer as coisas, e se pegar somente às tais coisas é desprezar o filme muito bem realizado e maduro que ele é. E isso dá pra perceber no fato de ele ser um filme mais “parado” em relação a primeiro, e mesmo assim não perder ritmo, nem se tornar enfadonho. Sem uma história inteligente e uma equipe afiada, não dá pra conseguir isso nunca.

Mas nada disso implica em preciosismo técnico. Da mesma forma que o anterior, não há tentativa de reinvenção, de subversão, como também ele não cai no comodismo da fórmula das novelas transpostas pro cinema. É um filme absolutamente limpo, em relação a efeitos ou apelos mais cosméticos (trilhas emotivas, explosões, ângulos estranhos). É cinema sem frescura.

Um dos grandes méritos da franquia Tropa de Elite, reforçado agora no segundo filme, é a idéia de se procurar um formato brasileiro para filmes de ação, policiais, de conspiração. Já está constatado que o modelo de filme de ação americano muda de tempos em tempos, e ir na onda dele hoje pode dar num filme datado amanhã (lembra de “American Ninja”?). E mesmo que o Brasil mude um dia, Tropa de Elite 2 não corre esse risco.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Além dos detalhes

Cantor: Roberto Carlos
CD: S/T
Lançamento: 1971

Em 1971, a Jovem Guarda já era algo tão distante que parecia nem ter existido. A chegada dos tropicalistas havia instaurado uma verdadeira crise naquele que tinha sido o maior fenômeno musical (e jovem) que o país tinha visto. No olho do furacão, todo mundo teve que rever a própria carreira e, se preciso, corrigir a rota se não quisesse cair num implacável anacronismo. Nem Roberto Carlos, já proclamado rei da Jovem Guarda, seria poupado.

Mas Roberto estava acostumado a se reinventar. De roqueiro a bossanovista e depois novamente roqueiro, ele se tornaria o maior expoente da Jovem Guarda, quase um líder do movimento. A vitória no Festival de San Remo, em 1968, marcaria a nova transformação de Roberto Carlos, que agora investiria cada vez menos nas guitarras, dando espaço a um romantismo mais sofisticado e a uma intensa melancolia. Esse “novo” Roberto Carlos conheceria o ápice criativo e de popularidade com o disco de 1971, o que traz o seu hit-supremo: “Detalhes”.

A presença do baladão semi-brega acaba ofuscando um dos discos mais inspirados e versáteis do Rei. O blues “Como dois e dois” de Caetano Veloso (que tratava do estado de coisas pós-AI-5) e “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” (homenagem ao próprio Caetano, já exilado) foram mostras de que a Jovem Guarda, na pessoa do seu ídolo maior, não era tão alienada quanto julgava a “MPB de protesto”. O disco também traria algumas de suas bem sucedidas incursões na Black Music (“Eu só tenho um caminho” e “Todos estão surdos”). Outros destaques ficam por conta de um vaudeville irônico sobre o romantismo na sua face mais atávica (“I Love You”), e da sombria “Traumas”, na qual ele relata o acidente que lhe decepou uma das pernas, ainda na infância.

Desprezando tudo que ele fez nos últimos 30 anos e os seus primeiros discos na Jovem Guarda, dá pra acreditar que o verdadeiro Roberto Carlos é aquele que gravou os discos entre 1969 e 1973. Nesse momento, ele teve que se mexer pra procurar um novo caminho criativo quando a Jovem Guarda caducou e assim pôde dar vazão ao que sempre teve dentro de si, sua visão crítica, seu lirismo, e principalmente os seus tormentos. Obviamente nada disso tinha como aparecer em meio à histeria da Jovem Guarda, ficando bem aparente não só nas músicas, mas também nas capas dos discos do período em questão.

- De tanto amor

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Literalmente uma inserção

A Origem (Inception, 2010) é pseudo-cult? Talvez. É um filme de nerd? Pode ser. Mas nada disso lhe tira o mérito de já ser um dos grandes filmes desse ano e um dos melhores da década (no ritmo que vamos duvido que apareça coisa muito melhor do que ele, mas enfim...). O diretor Christopher Nolan parece que encontrou o filme que há anos procurava: denso, mas ágil (diferente dos seus Batmans), aliando experimentalismo e senso comercial (ao contrário de Amnésia). Mas o experimentalismo de Nolan não rima com hermetismo. A Origem não é de forma nenhuma um filme cabeçudo, onde você tem que ficar procurando significados e saídas onde muitas vezes nem existem. O filme tem seus labirintos, mas o que interessa não é como se sai deles, mas sim o que há lá dentro.

Andaram comparando A Origem com Matrix, e eu também acho que tem a ver. Ambos falam de projeções, representação, realidades. Mas A Origem leva um pouco de vantagem por não se preocupar em fundamentar a própria fantasia com conceitos filosóficos nem referências à cibercultura, o que já lhe livra de maiores pretensões além da do puro entretenimento. A principal matéria-prima de A Origem são sonhos, e neles não há regras nem leis 100% aplicáveis, H2O pode muito bem ser ácido sulfúrico, e dois mais dois pode ser cinco. Em Matrix também poderia, mas havia uma fronteira bem clara entre a realidade e a ilusão, enquanto que A Origem está sempre transitando entre o real e o imaginário, entre o aparente e o oculto, e nós logo de cara compramos a idéia de que tudo que vemos pode não ser o que parece.

Nolan brinca a todo instante de nos ludibriar, mas isso faz parte da essência do seu filme.
Nele, o engano não serve de artimanha pra desviar o foco de um roteiro fraco e de um argumento furado: ele faz parte do caráter do filme, e se manifesta de forma natural, atingindo os personagens lá na realidade deles e nós, espectadores. Longe de qualquer papo de revolução no cinema, de mudança de paradigmas, A Origem consegue ser exatamente aquilo que quer: um filme inteligente, bem feito, que vai se instalar nas cabeças de quem assistiu e lá ficar por um bom tempo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Aquela velha história

Banda: Oasis
CD: (What’s The Story) Morning Glory?
Lançamento: 1995

Em 1995, o Oasis acabava de entrar naquela roda viva que leva a todos os que ousam fazer sucesso dos dois lados do Atlântico. O vácuo que ficara com o sumiço do Grunge (simbolizado pela morte do seu principal herói) alavancou aquela banda do interior da Inglaterra ao posto de maior fenômeno da ilha da Rainha, e foi preciso apenas um disco feito em intervalos de shows para que ela se transformasse na maior banda do mundo.

(What’s The Story) Morning Glory? (1995) foi um dos pontos-chave dos anos 90. Ao mesmo tempo em que abriu as portas para uma nova invasão britânica aos EUA, o Oasis recolocava a Inglaterra no centro do mundo após anos de apatia shoegazer. Mas isso não se deu apenas pela carência de um protagonista de peso no cenário da música. Aquela foi a volta do guitar rock capaz de mover multidões como torcidas de futebol, coisa que não se via desde os Smiths. A retomada da atitude genuinamente rocker mais o senso pop do Noel Gallagher eram as principais virtudes de um grupo que não tinha vergonha de vender muitos discos, que funcionava tanto num estádio lotado como num estúdio, e que era tão bom distorcido quanto acústico.

Ao passar em revista toda a tradição do rock inglês (dos Beatles a Bowie, de Slade a Paul Weller), o Oasis abandona a sujeira dos primeiros anos para criar um universo novo e familar, que não tinha nada de dançante, nem vanguardista e também nenhum limite. Essa liberdade toda culminou com alguns dos maiores clássicos do seu tempo, que transitavam entre a doçura mais pop (Wonderwall, Don’t Look Back In Anger, Cast No Shadow) e os timbres mais estridentes (Morning Glory, Roll With it). Como todo hit singles pack, ao mesmo tempo em que nasceu destinado ao sucesso, (What’s The Story) Morning Glory? se tornaria o parâmetro insistente para tudo o que fariam depois.

- Hello

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Os quatro elementos primordiais

Banda: Novos Baianos
Album: Acabou Chorare
Lançamento: 1972

"Lá vem esses baianos de novo". Foi o que muita gente deve ter pensado quando todo mundo cantava "Preta Pretinha" como se tivesse nascido sabendo a letra. Nas décadas anteriores, a partir dos anos 40, sempre um representante da Bahia estaria na linha de frente da música brasileira: primeiro Dorival Caymmi passando todas as dicas pra Carmem Miranda, depois João Gilberto subvertendo o samba e ganhando o mundo, e a Geração Tropicalista inaugurando o mundo moderno em 68. Era a chamada “Máfia do dendê” já com status de instituição. Na virada para os anos 70, a escrita era mais uma vez mantida, só que agora através de um grupo batizado com o sintomático nome de Novos Baianos.

A proposta dos Novos Baianos, ao mesmo tempo que tinha um enorme sabor de novidade, parecia condensar tudo o que os seus predecessores lançaram. No seu segundo disco, - Acabou Chorare (1971) - estão presentes o canto seminal de Caymmi e o apuro de João Gilberto, sem deixar de lado a inventividade, a ousadia e os timbres do rock que os tropicalistas haviam posto na roda. Em “Mistério do Planeta”, Paulinho Boca de Cantor confirma isso: “Pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto e passo aos olhos nus, ou vestidos de lunetas, passado, presente: participo sendo o mistério do planeta”. Era o testemunho de uma banda atemporal que fazia a ponte entre o presente elétrico e o ideal bossanovista, citando um dos versos clássicos do poetinha de Ipanema (“a vida é a arte do encontro”).

E o encontro daquele grupo (além de Paulinho, Morais Moreira, Pepeu Gomes e a carioca Baby Consuelo) redundaria numa música ao mesmo tempo popular, forte e sofisticada (como toda obra grandiosa é). De posse de um repertório tão múltiplo quanto influente, aquele misto de colônia hippie, time de futebol e trupe mambembe, reunia os heróis ideais de uma época cujos heróis corriam o risco de serem extirpados do convívio, onde a felicidade servia de antídoto para a amargura de um mundo pós-AI 5. (“A menina dança”, “Besta é tu”)

Acabou Chorare é até hoje o cartão de visita desse grupo que foi um dos mais criativos que o Brasil já viu. Sua música permanece viva, atual e inqualificável, gravitando entre o samba de roda, a MPB e o rock. Quase 40 anos depois, ele se tornou tudo o que os "cantores de barzinho" da música brasileira queriam ser e não conseguem.

- Eu ia lhe chamar

::: Mais Novos Baianos e Acabou Chorare aqui.