sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Sou mais elas

2013 vai acabando e a sensação é a de que quem mais fez pelo rock, pelo indie rock, foram as garotas. Depois de um ano cheio de derrapadas, com grandes bandas aderindo ao som plástico das boates e passarelas, foram as bandas capitaneadas pelas moças que ajudaram a manter as coisas um pouco nos trilhos, tocando como se deve tocar, com vigor, e sem inventar muito, sem frescura. E não tem nada de panfletário nisso, não estamos falando de riot grrrrls, punk feminista, mas sim de uma postura natural, onde cada uma vai na sua praia, com a sua sinceridade, sem essa de se "afirmar" ou "we can do it". Até porquê nem precisa, pois as músicas já falam por si. Abaixo, uma mostra do que elas aprontaram em 2013:
Best Coast - "This Lonely Morning"



Cobalt Cranes - "Head In The Clouds"



Speedy Ortiz - "Tiger Tank"



Tennis - "My better self"



Far From Alaska - "Thievery"


sábado, 9 de novembro de 2013

Cinco discos pra entender o Indie Pop

Muitos anos atrás, quando a finada MTV ainda servia de referência musical, conheci o Belle & Sebastian e a paulada foi forte. Era o Lado B, com o Kid Vinil, apresentando um especial com vários clipes da banda que acabava de ter os discos lançados no Brasil. Pra mim, aquilo era algo inteiramente novo, e familiar ao mesmo tempo. Era belo, melancólico, e irretocável do ponto de vista instrumental e melódico. Pouco depois, desatando um novelo de influências e antecedentes, fui descobrindo que a banda fazia parte de uma tradição que vinha já desde anos 80, nascida no meio do cenário alternativo, num estilo que se chamaria Indie Pop. Se o Indie Rock (que depois viraria um estilo à parte do rock alternativo, ambos nascidos do Pós-Punk) se tornara um vertente marcada por guitarras mais sujas e pela ausência de pretensões populares, o Indie Pop chegaria como um lado mais doce e ganchudo desse universo, focado principalmente nas melodias, com mais ou menos guitarras, como a banda preferisse.

Do meio desse mesmo cenário alternativo do começo dos anos 80 surgiram outras vertentes primas-irmãs do Indie Pop (Jangle Pop, Chamber Pop. Twee Pop), ambientes pelos quais muitas bandas transitariam com liberdade ao longo de suas carreiras, e na maior parte do tempo sem se fixar a nenhum deles. É por isso que rótulo é um negócio difícil de se lidar, muita gente não cabe em um só, quem se mete a fazer classificações geralmente acaba sendo reducionista. Mas falando em termos bastante gerais, vejamos cinco discos que podem dar uma visão do que seria esse negócio chamado Indie Pop:


The Smiths - The Queen Is Dead

Os Smiths não seriam apenas a banda indie definitiva dos anos 80: eles lançariam as bases do que se tornaria o Indie Pop no fim daquela década, início da próxima. Ainda que trouxessem muito da ideologia do Punk (a crueza do som) e do Post Punk (a ênfase no sentimento), os Smiths se aprofundaram na questão da timidez e do imaginário do “loser”, ao contrário do espírito vencedor, másculo toda vida, e agressivo que o rock vinha consagrando desde os anos 70. “The Queen Is Dead” foi o ponto alto da carreira da banda, a consagração para além do público alternativo, com um disco cheio de hits que mesclavam a urgência herdada do Joy Division com a presença de violões de Johnny Marr. “Bigmouth Strikes Again”, “The Boy With The Thorn With This Side” e a balada trágica “There’s a light that never goes out”, falam por si. (aqui)



NME - C86

A New Musical Express já tinha uma certa tradição de lançar coletâneas em fitas desde o começo da década até que em 1986 a revista lança aquela que se torna quase um manifesto indie. Mais do que uma coletânea de bandas desconhecidas e sem gravadora, a NME86 provocou um impacto tão grande que C86 passaria a designar um estilo dentro do indie (com uma sonoridade ainda mais crua mas com estruturas que não remetiam mais ao punk). A NME86 não só daria destaque àquelas bandas como também abriria espaço para uma série de bifurcações que o Indie Pop teria já a partir de meados dos anos 80 (do twee pop, passando por um lado mais noise pop, até o shoegaze). Entre os nomes que compunham a fitinha estavam The Wedding Present, Shop Assistants, além do Primal Scream e do Soup Dragons, que se tornariam estrelas da geração seguinte, já no Britpop. (aqui)



Belle & Sebastian – Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant

Se nos Smiths o ponto de partida foi o Post Punk obscuro do Joy Division, os escoceses do Belle & Sebastian recorreriam primeiramente aos recursos mínimos do Folk Rock, dos anos 60. Dessa década, a banda também se inspiraria no canto de Simon & Garfunkel e no cuidado instrumental de Burt Bacharach. Pronto. Estava assim montado o arsenal de melodias com aquela timidez contida, outonal, que por vezes remete às trilhas sonoras do Snoopy e ao intimismo de Nick Drake. “Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant” trás tudo isso e aquele que seria o maior hit da banda (“Wrong Girl”), ainda hoje presença obrigatória nos set lists dos shows. (aqui)


Camera Obscura - Let's Get Out of This Country

No momento em que o Belle & Sebastian partiria para uma incursão pelo lado mais solar dos anos 60 (materializado na música dos Beach Boys), os também escoceses do Camera Obscura se manteriam fiéis aos mandamentos trazidos pela banda de Stuart Murdoch. Mas mais do que meros seguidores do Belle, o Camera Obscura tinha diferenciais interessantes como o predomínio do vocal feminino de Tracyanne Campbell, um tanto frágil, sincero, em contraste com uma sonoridade vibrante muito inspirada na ambiência de Phil Spector e suas Girls Groups lá dos anos 60. O último disco (“Desert Lines”, 2012) parece apontar para direções mais distintas e mais sóbrias em relação àquelas que celebrizaram a banda, mas “Let's Get Out of This Country” (2004) ainda é o cartão de visitas dessa que, pelo menos pra mim, é uma das maiores descobertas desta década. (aqui)



Very Truly Yours - Things You Used to Say

Essa banda pegou todo mundo de surpresa. Parecia um apanhado geral de quase 20 anos de Indie Pop, do C86, passando pelos já citados Belle & Sebastian, Camera Obscura, os suecos do Club 8 e outros nomes mais respeitados no circuito underground (como The Softies, Heavenly, School). Mesmo com tantas referências, ninguém teve do que se queixar do som dessa banda de Illinois. Sua personalidade está lá, os vocais delicadíssimos e os refrões extremamente ganchudos desmontam qualquer argumento de que a banda seja apenas um papel carbono de expoentes anteriores do estilo. (ouça aqui)

sábado, 31 de agosto de 2013

40 anos e além


Pink Floyd
"Dark Side of the Moon"
1973

Começo com um clichê: o que falar de Dark Side of The Moon, do Pink Floyd? “Dark Side” enquanto evento, enquanto artefato mítico, enquanto amuleto da cultura de massa, o disco do prisma que é ele próprio um prisma por onde se pode se lançar os mais variados olhares, e se chegar a mais uma gama de conclusões. Um disco que é um ponto a parte até da trajetória da própria banda. Sempre vai ter algo pra se falar de Dark Side of The Moon, é como o Poderoso Chefão de Coppola, como Ulysses de James Joyce, Blade Runner, Sgt. Peppers, é um assunto que não se esgota nunca. Dark Side é um daqueles marcos da história onde a arte toca na cultura e alcança uma amplidão atemporal, que desconhece idiomas ou limites territoriais.

Conceitualmente, este disco já vinha se engendrando antes mesmo de começar a ser feito. O ponto de partida foi no disco anterior, Meddle, quando o Pink Floyd ao mesmo tempo em que experimentava uma sonoridade mais pé no chão, passava a olhar mais para o homem, seus dilemas e contradições, ao contrário dos seus contemporâneos progressivos que enfeitavam ainda mais o som e cantavam sobre universos paralelos e lendas antigas. Da janela do seu apartamento, Roger Waters observava a rua cheia de gente apressada, levando suas solidões por aí enquanto ele mesmo provava da sua, no momento em que o seu ex-parceiro e ex-companheiro de quarto, Syd Barret, se tornara um lunático afogado pelo LSD.

Empatia, loucuras modernas tidas como normalidade, pressões da urbanidade. Tentar enxergar a si mesmo no outro. Foi disso tudo que se formou o substrato de onde nasceria o disco que transcenderia não só o reduto underground como também o rótulo rock progressivo. De um hora para outra os esquisitões psicodélicos viraram estrelas mundiais tocando em estádios e atingindo vendagens impensáveis, tanto que na Alemanha tiveram que construir uma fábrica só para prensar mais e mais cópias daquele disco que se comunicou com um monte de gente de uma forma que poucos conseguem.

Da combinação perfeita do talento dos quatro integrantes saiu um trabalho sem excessos, sem adornos, sem rebuscamentos. Tecnicamente, é um feito quase sem paralelo, e mesmo 40 anos depois ele continua sendo um trabalho único por toda a sua natureza sônica e o seu equilíbrio formal, ainda mais se considerarmos que ele vem de uma época em que as gravações envolviam trucagens e cortes de fitas. É um disco bem cru, como Roger queria, mas sem abandonar a ambiência envolvente que Gilmour gostava. Com o teclado preciso de Rick Wright e as batidas no ritmo do coração que Nick Manson impunha, esse disco, que começa e termina com batimentos cardíacos reais, vai estar sempre nos lembrando o que somos por baixo de toda a loucura cotidiana, e enquanto o homem tiver capacidade de ser humano, Dark Side sempre vai fazer sentido.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Banquete de signos


 Zé Ramalho
1978

Eu gosto da expressão inglesa hit singles pack. Traduzindo grosseiramente, seria algo como pacote de hits. Geralmente é usada pra descrever discos dos quais a maioria das músicas caíram no gosto popular, massificaram naquele nível estrondoso. O primeiro de Zé Ramalho da Paraíba (era assim que ele assinava em 1978) é assim. É praticamente um best of, mas não é só isso: é um inventário geral de suas influências. Nele estão todos aqueles hits que definiriam os rumos da sua carreira, e deixa claro o caminho por onde ele transitaria nos anos seguintes.

Desprezando o fato de que algumas dessas músicas são quase que obrigatórias entre os cantores de barzinho, o certo é que seria inevitável um disco que começa com Avohai, passa por Vila do Sossego e chega em Chão de Giz passar despercebido (isso sem falar na versão instrumental de Bicho de Sete Cabeças). Pois nem o disco e nem ele passaram, e olhe que eram os anos da tal “Invasão Nordestina”, fim dos anos 70, os últimos festivais rolando, e um monte de gente do Nordeste despontando para o Brasil ao mesmo tempo.

Mas diferente do romantismo desencantado de Fagner, da placidez bucólica de Geraldo Azevedo, da adolescência tardia de Belchior, e da urgência primitiva de Alceu Valença, o universo de Zé Ramalho era bem particular. Depois de ter assimilado as influências do pop anglófono nos anos 60, e atingido as distâncias estelares com a psicodelia de Paebirú (o disco mais raro do Brasil, feito em parceria com Lula Cortes), Zé chegaria ao seu primeiro disco solo não como um novato na música, ele sabia bem onde estava pisando. Do meio de sua poética afiada, brotava uma mitologia própria, que unia o cordel ao fantástico, numa filosofia meio apocalíptica, carregada de imagens indecifráveis e épicas. Em geral, são paisagens desoladoras, sem tempo definido, misteriosas, habitadas por seres desconhecidos e por um narrador que fala como se estivesse tendo epifanias a cada instante.

Tudo isso vinha embalado numa musicalidade que tinha ao mesmo tempo ecos dos cantadores, antigos e modernos, violas, uma instrumentação bem crua, e texturas típicas do rock progressivo. O link com o rock progressivo se dava justamente com as presenças luxuosas de Patrick Moraz (ex-tecladista do Yes e ex-Vímana, banda de Ritche, Lobão e Lulu Santos) e de Sérgio Dias, um dos mitos brasileiros da guitarra, apenas um dos fundadores dos Mutantes. Não tinha como dar errado.

Ao mesmo tempo em que trazia tudo isso, Zé Ramalho manteria-se habilmente próximo às massas, unindo o popular e o sofisticado, como um Augusto dos Anjos que ainda hoje tem seus poemas recitados por muitos que sequer sabem ler. Era nordestino, brasileiro e cosmopolita. Era MPB, mas sem se render ao ideal bossanovista e sem fazer reverência aos baianos. Seja na voz de Amelinha, de Elba, ou em parceria com Alceu Valença, a cada ano que passa fica mais evidente que Zé é um dos maiores nomes da música brasileira de todos os tempos, e não só do Nordeste. Ave Zé.  


sábado, 22 de junho de 2013

“O que está acontecendo parte 3 ou 4” ou ch-ch-ch-ch-ch-changes



2013 começou louco de lançamentos e até agora o ritmo continua. É tanta coisa ao mesmo tempo que fica difícil acompanhar, a não ser que você tenha 17 anos e muito otimismo na nova música (o que não é bem o caso). Pra delimitar melhor as coisas, vamos pinçar três lançamentos recentes que acabaram coincidindo numa mesma condição, talvez uma das mais interessantes para quem se mete a fazer qualquer tipo de arte: a mudança. Mudar, mudar por mudar, mudar por necessidade, mudar naturalmente, tanto faz, raramente dá pra saber pra onde essa mudança leva. Alguns passam a vida fugindo da mudança, outros a transformam isso exatamente no mote da própria vida (tipo Bowie, citado no título).

● Pra começar, um caso recente de mudança meio mal fadada foi o do Camera Obscura. É com certo desconforto que reconheço isso porquê é uma das minhas favoritas de um tal de indie pop (ainda vou postar sobre) e lançou um disco que, se por um lado denota uma mudança saudável, por outro parece ter abdicado de tudo de bom que sempre fizeram. Por opção ou caminho natural? Difícil saber. O certo é que pra quem é afeito à ternura, aos violões, um lance mais Twee, Girl Groups, um pop mais escancarado, “Desire Lines” e suas ambiências espaçadas talvez não seja a melhor das companhias. Mas ainda assim vale a tentativa.

 ● Saindo lá da Escócia e caindo aqui na nossa vizinha Natal, quem apareceu também com um disco cheio das mudanças foi o Talma & Gadelha. A diferença é que no caso deles funcionou demais. Em “Maiô” o pessoal aumentou as guitarras, a tensão, o peso, e até as letras partiram para temas mais abrangentes do que o do universo “a dois” de “Matando o amor”, o primeiro disco. De uma tacada, ampliaram o repertório, o leque de sonoridades, deram uma sujadinha, sem abandonar o universo que já é tão próprio deles, que é o do cantar junto, do pop com vitalidade e paixão. Direto no alvo.
          
● Mas quem chocou mesmo o Queens Of The Stone Age, e de um jeito positivo. Não que a banda estivesse acabada, eles não tem mais o que provar, mas a bem da verdade fazia um tempinho que eles não lançavam um disco daqueles, digamos, embasbacantes. Mudança de formação sempre é um negócio difícil de digerir, e eles passaram por muitas desde a consagração com “Songs for the Deaf” de 2002. Agora em 2013, depois de dois discos meio incertos, a banda de Josh Homme reaparece com “...Like a Clockwork” e de cara entra pra lista dos melhores do ano. Privilegiando os vocais, os climas, tudo bem dosado com os timbres bem próprios deles, o Queens acertou a mão com um álbum com um fôlego raro nos dias de hoje. Quem veio acompanhando os clipes lançados antes do disco foi vendo uma sucessão de canções brilhantes que reforçam o nome da banda entre os grandes da atualidade. Nem precisa dizer que é recomendabilissimo.

domingo, 12 de maio de 2013

O lado escuro do Rei


Quem vê este senhor cantando, todo seguro, sobre suas artimanhas no jogo do amor, obviamente pode pensar que se trata apenas de um cantor romântico (o maior deles) e só. Essa é uma meia-verdade. Isto porquê se nos voltarmos um pouco para o seu período mais notável, fim dos 60's-começo dos 70's, vamos perceber que em boa parte das suas músicas o eu-lírico está sempre se ferrando. Não se vê tanto aquele romantismo férreo, inabalável, escancarado, feito só de beleza e maravilhas. Com Roberto é (era) melaconlia pesada, sempre tem um choro, uma despedida, uma história que teve fim, e fracasso, fracasso, fracasso afinal, como diria Núbia Lafayette. Isso sem contar músicas onde ele aborda a rotina do cotidiano, a incapacidade de comunicação, a ausência de perspectivas, até, de forma corajosa, o acidente que lhe amputou uma das pernas na infância. Até nas capas dos discos fica nítido esse tom sombrio, que nada mais tinha da postura heróica e luminosa dos tempos da Jovem Guarda. O melhor é que, apesar de envolver esses temas que beiram o melodrama rasgado, as músicas desse período são ótimas e estão entre aquilo que ele fez de melhor na carreira. Abaixo, dez exemplos desse lado corta-pulsos do Rei: 

"As flores do jardim da nossa casa"

 

"De tanto amor"



"A cigana"


"O show já terminou"


"Você me pediu"


"Sonho lindo"




"Custe o que custar"




"E eu não vou deixar mais você tão só"



"Eu daria a minha vida"


"As canções que você fez pra mim"



terça-feira, 9 de abril de 2013

Ednéia e as maçãs

Ednéia tinha vinte e sete anos, cinco meses e nenhum namorado. Chegara assim àquela idade por culpa de excessos, de cuidados de um pai melindroso, e de uma timidez doentia, da sua parte. Mas não era por ser envergonhada que Ednéia não tinha lá suas vontades. Levava seus ímpetos imaginativos a base de um truque colegial ensinado por uma amiga: abocanhar uma maçã, sorve-la firmemente, era quase como beijar o homem. Com o pudor que lhe era tão natural, testou o fruto com certo acanhamento, mas com o tempo foi tomando gosto e àquelas alturas era o que chegara mais perto de realizar os seus desejos mais lúbricos. Um dia, D. Marluce, sua mãe, conversava com uma vizinha sobre casamentos, quando percebeu que a filha estava quase beirando os trinta e nada de nenhum rapaz aparecer para visitá-la. Aterrorizada, tratou de pensar no que poderia fazer para arrumar as coisas para a filha e se lembrou que o filho mais novo de sua tia-avó, o Natércio, estava na cidade. Deu um jeito de chamá-lo e no dia seguinte o homem já estava almoçando com eles, sentado à mesa num lugar cuidadosamente arrumado para que ficasse de frente para Ednéia, e quem sabe cruzasse com ela um olhar ou outro, durante a refeição. Dali para frente, Natércio passsou a ir sempre à casa de suas primas distantes, e conversava mais com Marluce do que com Ednéia, embora sua mãe lhe obrigasse ficar ali enquanto ela só pensava no saco de maçãs novinhas que lhe esperava na cozinha.

Foi tão grande a insistência, os empurrões e a força das combinações às escondidas que Ednéia mal percebeu quando noivara com Natércio. Ou melhor, foi noivada, já que foi a mãe que intermediou tudo, das frases rituais até a entrega do anel, que Ednéia imaginava que fosse um presente dela até que se deu conta do dedo da mão em que a jóia estava. E foi assim, meio a contra-gosto, meio sem saber de nada, que Ednéia foi levando um noivado sem conversas que terminou num casamento com um homem que ainda era praticamente um estranho.

Na nova casa, Natércio só pensava em finalmente consumar o seu casamento, já que em seis meses de namoro e noivado mal tocara na moça. Mas Ednéia não queria saber de nada, lhe tratava a base de repelões e recusas, dia e noite. Numa madrugada, Natércio fora no banheiro e flagrou Ednéia sentada no vaso sanitário, só de hobby, chupando uma maçã enquanto um líquido que era uma mistura de suco e saliva descia pela sua boca e escorria por entre os seus seios. Tão extasiada, tão fora de si ela estava, que mal notou que Natércio estava parado na porta, boquiaberto. O homem até achou que aquilo se tratava de algum tipo de sonambulismo, mas descartou a idéia quando começou a flagrar Ednéia, em horas diferentes do dia, agarrada à uma maçã como um bezerro faminto no úbere na mãe.

Numa noite, depois de mais uma sessão de beijos com a maçã, Ednéia foi se deitar e nem percebeu que Natércio ainda estava acordado, com os olhos vidrados no teto. Ela mal havia se arrumado nas cobertas quando o homem virou-se de repente, arrancou seu lençol de um golpe e se colocou entre as suas pernas, enfim, pronto para o ato esperado. Mas Ednéia era forte, tentava se desvencilhar, retorcia-se indócil, não queria aquilo de jeito nenhum, e no meio daquela luta silenciosa, em pleno leito conjugal, Ednéia se viu sufocada, não pela mão de Natércio, mas por uma maçã que seu marido comprimia sobre sua boca, até que ao sentir o cheiro e o gosto tão familiares, seu corpo foi relaxando, e em meio àquele desfalecimento, diante da investida fugaz, Ednéia foi sendo perpassada por frêmitos que nunca sentira, atinando para partes suas que parecia que nem possuía. E então, depois tudo, dos uivos, da semi-inconsciência, da vista turva e do suor exasperado, Ednéia chegou ao ouvido de Natércio e soltou um sussurro doce, e ao mesmo tempo, imperioso: “Da próxima vez, deixe as maçãs para o café da manhã”.

domingo, 3 de março de 2013

Fragmento (1)

Nas frontes ardia o calor de quarenta sóis incandescentes, e pelas pernas, a dormência começava a apossar-se do corpo. Caído ali, despencava no profundo esquecimento, deixando o corpo alquebrado para trás. Ia soltando-se de si mesmo, resignado, e já quase nem percebia o gosto do sangue na boca, o cheiro do sangue nas narinas, o zumbido do vento ralo nos ouvidos, e a areia áspera onde afundava. Via na escuridão em que estava metido que o seu destino perdia as forças junto com a respiração. Mas ao longe, na distância das amplidões, o chocalho retiniu, incerto, quase como um suspiro, suficiente para lhe devolver a vida e lhe pôr de pé novamente. Os passos eram incertos, mas o caminho era a busca. Foi tateando, seguindo os arpejos longínquos que ele nem sabia se de fato ouvia ou lembrava.

A morte do pai foi a primeira. Depois da mãe, foram as cabras, as vacas e enfim estava ele, o coche, o cavalo e a rês bezerrinha. A magreza dela era a própria magreza das perspectivas, da esperança, de futuro para a sua linhagem. Ainda assim cuidava dela com todo zelo. Espevitada, rês bezerrinha deu um tranco na porteira da cerca e entrou no labirinto da catingueira. Era só um cochilo rápido, não era pra dar nisso tudo, a fuga da garrota, o resto do legado e memória do seu pai, que agora ia longe, longe. Jogou-se em cima do cavalo, chapéu, gibão, e foi-se prendendo o choro. Numa virada mal feita, topou com um cacho de chique-chique e foi a última coisa que viu. O cavalo continuou correndo, e ele ali, caído, deitado, tremendo, com a cara espetada, os olhos cegados, e o pensamento só na rês bezerrinha, onde estaria. Passou dias, ou horas, até que se levantou num repente quando o fiapo do chocalho clareou a ardência dos espinhos e da sua esperança.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O rito da Rita



Rita Lee & Tutti-Frutti
"Fruto Proibido"
1975
 
Certa vez, Rita Lee disse que ter saído dos Mutantes foi a melhor coisa que podia ter lhe acontecido. Apesar de ter passado algum tempo para se dar conta disso, na época tudo foi bastante doloroso, como é em todo rito de passagem. No caso da Rita, esse rito só se completaria alguns anos mais tarde, com o lançamento de Fruto Proibido (1975)

A passagem da escola pra universidade, daí para o emprego, casamento, tudo isso acaba implicando em desligamentos, readaptações, e alguma dose de sofrimento. Com Rita, deixar o seu grupo original foi o seu passaporte para a maturidade, da adolescência psicodélica com os Mutantes para a vida adulta ao lado do Tutti-Frutti. Foi ainda às voltas com esse clima de separação, mudança e partida, e a aceitação plena desse novo momento, que Rita Lee compôs algumas de suas melhores músicas de sempre: “Agora só falta você”, “Esse tal de Roque Enrow” (com Paulo Coelho) e “Ovelha Negra” (seu maior hit).

Mas pra chegar nesse ponto não foi assim de repente. Ainda na época dos Mutantes, vieram alguns discos solo, pra pegar confiança. Depois, com o Cilibrinas do Éden e Atrás do porto tem uma cidade, afinou o discurso, a embocadura, e chegou pronta em Fruto Proibido. Sucesso total. A pegada stoneana da banda de Luis Carlini foi a embalagem ideal para a poética de Rita Lee, que aquelas alturas andava fascinada pelo Glam Rock de Bowie e Marc Bolan. Mas ao contrário deles, Rita não propunha fantasias pop decadentes e escapismo: ela concentrava sua narrativa em torno de fortes figuras femininas (como em “Luz Del Fuego”), que parecem ser metáforas de uma mulher que ela procurou em si mesma, após o baque da sua demissão dos Mutantes.

Entre o instrumental forte do Tutti-Frutti, Rita encaixava marotamente o seu piano com o charme que era também uma das marcas do seu humor, bem feminino, desde os tempos tropicalistas. Mas nada disso parecia demandar muito esforço. Fruto Proibido não nasceria de exaustivos exercícios mentais, como o rock progressivo cabeçudo que seus ex-parceiros haviam adotado. O disco era a expressão pura e espontânea da criatividade de uma artista que não teve medo de exorcizar velhos demônios publicamente. O que acabou dando certo. De cantora promissora, Rita se tornaria uma estrela nacional, catapultada pelo êxito de Fruto Proibido, que é um dos grandes discos brasileiros de todos os tempos. (aqui)

domingo, 13 de janeiro de 2013

Destino crônico

“Parece um boneco”, disse a menina ao passar com a mãe ao lado do caixão do ditador. Ainda que imperceptíveis para a maioria dos chorosos, essas palavras, ditas sem malícia, sem leviandade, quase como um muxoxo, conseguiram sair altas o suficiente para chegarem aos ouvidos de um dos Chefes do Estado Maior que estava ali velando o seu comandante de uma vida inteira. Políbio Suarez, vencendo o aperto dos botões do seu fardão e o peso das suas dezenas de insígnias, abandonou o seu posto entre os convidados de honra para aproximar a vista do ditador morto, para constatar, com curiosidade, de onde a menina tirara tal disparate. Ainda naquela noite, após o épico enterro do general, com praticamente todo o país debruçado sobre a cova de mármore, - talvez mais pra se certificar de que ele tinha ido de uma vez do que para exatamente guardar uma última imagem - , Políbio reunira às pressas os seus companheiros de armas e, com um murro na mesa, iniciou a reunião extraordinária. “Chega de farsa. Onde o General está escondido?”, bradou para o prédio todo escutar.

A pergunta de Políbio foi o estopim para a maior crise de poder jamais enfrentada por aquele pequeno país em seus confusos 500 anos de história. Após inúmeras discussões, missões diplomáticas, reuniões, e bate-bocas, os nobres homens não souberam chegar a um consenso sobre o paradeiro do General, já que para alguns ele saíra em sigilo do país, enquanto que outros ainda carregavam no braço a fita preta em sinal de luto. O certo é que depois que o General, já com a cabeça raspada, comunicou a nação que estava com uma doença muito grave, suas aparições públicas nos últimos dez anos foram ficando cada vez mais raras, ao passo que os seus decretos, muitas vezes estapafúrdios, nebulosos, saíam cada vez mais freqüentemente e cada vez com menos rejeição da maioria. Isto porquê, apesar de todas as ameaças de golpe e da popularidade quase subterrânea, para aquele país de brutos tão amáveis não convinha contrariar o General, pois, ao que se sabia, ele já estava às portas da morte.

Cerca de sete meses após o enterro do general, com a nação à deriva e com o governo nas mãos de um conselho onde um membro mal lembrava dos nomes dos outros, a população fora convocada quase que em tom de ameaça para ir às urnas escolher o novo mandatário do país, numa lista de candidatos que ninguém conhecia. A maioria dos votantes sequer sabia ler o bastante para escolher uma das 17 opções na cédula, algo que nem imaginavam para que serviria. Depois de mais oito meses de apuração, o novo comandante daquele país, a quem deveriam chamar de presidente, desfilava em carro aberto pelas ruas da capital, diante de uma população que comemorava sem saber ao certo porquê. E o cerimonial nem se preocupou em manter a massa muito distante do carro presidencial, pois àquela distância, dificilmente achariam alguma semelhança entre aquele que acenava sorridente e o antigo general, de quem ninguém nunca havia chegado perto e que todos achavam que tivesse morrido.