domingo, 2 de dezembro de 2012

Fazendo a corte


King Crimson
"In The Court Of The Crimson King"
1969

Os anos 60 chegavam ao fim e a grande massa amorfa de possibilidades que se abrira no rock'n'roll ia se acentando em dois flancos bem definidos. Um deles era o Blues Rock, que tinha no Cream, Blue Cheer, Deep Purple e no novato Led Zeppelin as forças motrizes que originariam o Hard Rock e o Heavy Metal pouco depois. No outro polo, o psicodélico, Robert Fripp emergiria, e com a sua nova banda, o King Crimson, daria o passo adiante rumo a uma das tendências mais fortes da década seguinte: o Rock Progressivo.

Fazendo uma comparação, a Psicodelia havia levantado a bola - era só colocar pra dentro. Foi o que o King Crimson fez, acertando cheio, no ângulo. De posse do que já estava no ar (influências jazzísticas, estruturas extensas, orquestrações), Fripp e Cia. juntaram as pontas soltas desse circuito e criaram uma configuração que seria levada ao limite anos depois. Tamanha a maestria, ironicamente o Crimson nunca mais atingiria o equilibrio formal que tornou In The Court Of the Crimson King (1969) um clássico. Desde os timbres rascantes da guitarra de Fripp, os arpegios da bateria de Giles, a sessão de sopros, até o vocal de Greg Lake, nada se sobressai, nada joga apenas ao próprio favor: é um conjunto em seu sentido pleno.

Em meio a todo o rigor instrumental que já se insinuava, fica evidente a riqueza melódica do grupo em músicas mais calmas como "Epitaph" e "I Talk to the Wind", que sozinhas já pagariam o disco. É certo que In The Court Of the Crimson King ainda possui ecos de psicodelismo, mas estes são apenas resquícios de uma pele já trocada. Como fora com outras bandas da mesma lavra (Jethro Tull, Yes), as cores, os insights e as experimentações saíam de cena em favor da razão, da performance e da extravagância. Começava assim a era dos excessos, também conhecida como anos 70. (aqui)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A invenção dos anos 80


Joy Division
"Unknown Pleasures" 
1979

Em 1974, o Tangerine Dream lançava “Phaedra”, um dos maiores “clássicos obscuros” da história. O disco consistia basicamente numa grande experimentação com sintetizadores, e na época, dado o estranhamento geral, o líder da banda, Edgar Froese, chegou a declarar que em dez anos todo mundo estaria usando sintetizadores. Em 1977, com “Low”, David Bowie dava início a sua “Fase Berlim”, trazendo para o universo pop sonoridades da cena Kraut Alemã. Uma cena que revelara o Can, Faust, Kraftwerk e o próprio Tangerine Dream. Em 1979, o Clash lançava o seu “London Calling”, a prova final de que o “do-it-yourself” do punk poderia ir além dos três acordes.

É nesse ambiente de fim de anos 70 que surge o Joy Division. Na fria e fumacenta Manchester, uma loja de discos decide investir naquela banda que tinha a urgência punk do The Clash, os climas dos sintetizadores do Kraftwerk, e as temáticas obscuras em contraposição a outra facção emergente da New Wave, o New Romatic. Daí nasceu “Unknown Pleasures”, disco que de cara obteve respeito do público e da crítica. A personalidade perturbada do líder da banda, Ian Curtis, não só foi determinante para a formação da identidade da banda como para outros que ajudaram a criar o som dos anos 80, como The Smiths, The Cure e New Order. 

Além de praticamente inaugurar o Post-Punk, uma espécie de Segunda Geração Romântica dentro do Punk, o Joy Division ajudou a fundar toda uma tradição e uma cena que mais tarde revelaria nomes como Stone Roses, Happy Mondays, Inspiral Carpets e Oasis. Isto sem contar a influência no rock alternativo no outro lado do Atlântico, no qual o REM seria um dos que logo despontaria. Mais de 30 anos depois, “Unknown Pleasures” ocupa merecidamente um lugar entre os melhores álbuns de todos os tempos, influenciando e sendo copiado até hoje. (aqui)

(O primeiro nome do Joy Division foi Warsaw, inspirado na música “Warszawa”, de David Bowie, presente no disco “Low”. Já o nome Joy Division foi inspirado nas divisões militares - divisão de cavalaria, divisão de resgate, etc. A “Divisão de divertimento” – Joy Division era composta por prostitutas encarregadas de “alegrar” as noites dos fronts. Só isso já diz muito do caráter da banda. Um som enérgico, capaz de divertir, mas que traz em si uma carga gigantesca de traumas e tormentos.)

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Os anos 80 que (quase) ninguém conhece

Frequentemente chamada de “a década perdida”, os anos 80 parecem ser aquela década que todo mundo faz questão de esquecer, e claro que na música não seria diferente. Se de um lado o pop atingia o seu ápice industrial fazendo ídolos como carros numa linha de montagem, do outro o “roque pauleira” com cheiro de laquê chafurdava na breguice do hard metal machão. Pelo meio, ainda se ouvia o New Romantic com suas ombreiras, e mais um monte de vertentes que se apoiavam no som de tecladeiras para evocar uma pseudo-modernidade dançante (era o Synth Pop). Correndo por fora (mas bem por fora meeesmo, e por baixo), o Rock Inglês lá do seu gueto escuro já influenciava o rock alternativo americano com o Pos-Punk, e lançava as bases do que se chamaria de Indie, nos anos 90.

Não era um cenário muito animador, de fato. Muita artificialidade, muita cosmética, muita tecnologia e pouca criatividade. Mas apesar de tudo, de todo o aparente vazio criativo (vencido na década seguinte), os anos 80 ainda escondem no íntimo de suas mais recônditas sombras alguns discos que são verdadeiras pepitas perdidas sob toneladas de escombros de preconceitos. Reconsiderar é sempre um exercício que pode ter resultados surpreendentes, e isso vale também para aquela década tão desprestigiada. Sem mais conversa, abaixo cinco discos dos anos 80 que merecem atenção:


Dexys Midnight Runners - Searching For The Young Soul Rebels (1980)

Talvez um dos discos mais bem gravados da época (ao lado de outros como Ocean Rain, do Echo & The Bunnymen). Partindo por um caminho totalmente diverso do da maioria, longe do senso comum das paradas, os Dexys Midnight Runners fizeram um disco traziam para o ambiente da New Wave os metais do Soul e do Ska, tudo com toques do pop setentista. Um grande disco, pra se ouvir em alto volume. (aqui)


Violent Femmes – Violent Femmes (1983)

O Violent Femmes com sua pegada acústica parece antecipar o que depois se chamaria Twee Pop, uma vertente mais crua e acústica dentro do indie. E é essa crueza que vai dando tom ao disco inteiro, que transcorre quase como um misto do minimalismo do Velvet Underground e da raiva do The Clash. É um trabalho sem paralelo, considerando-se que os ingleses do The La's e os americanos do Beat Happening só apareceriam bem depois. (aqui)



Aztec Camera - High Land, Hard Rain (1983)

Algo como “E se os Smiths fossem escoceses?”. Sem tanto apelo roqueiro, com muitos violões, e um instrumental firme, a banda investia num certo groove, mas sem perder o alvo do pop, que era bastante envolvente. Era uma banda "do bem" para pessoas idem. (aqui)


Lloyd Cole and The Commotions - Rattlesnakes (1984)

A exemplo dos próprios Smiths e do Aztec Camera, a banda de Lloyd Cole era uma das raras que rejeitavam os aparatos eletrônicos e resgatavam a importância do violão, que aquelas alturas parecia esquecido. Mas “Rattlesnakes” passa longe de ser minimalista, tem orquestras, e um band leader com ares de um Bob Dylan new wave. (aqui)


Glorious Din - Closely Watched Trains (1987)

A década já corria para o final quando aparece esse disco que o que tem de raro, tem de pungente. Extremamente cru, ele parece ser um elo perdido entre Ian Curtis (o conturbado líder do Joy Division) e de Michel Stipe (do REM). Post-Punk do bom, obscuro. Um achado. (aqui)

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O luto no Oriente é branco


The Beatles
"The Beatles" (a.k.a The White Album)
1968

1968. Pela definição de Zuenir Ventura, o ano que não terminou. Em maio, uma onda de protestos varria a França com uma violência sem precedentes. Àquelas alturas, Che e Luther King estavam mortos, as atrocidades da Guerra do Vietnã vinham à tona, as ditaduras na América Latina recrudesciam, a repressão à juventude ganhava ares de guerra civil, e o mundo entrava numa convulsão que não se via desde que Hitler avançara sobre a Polônia. Depois de uma década tomada por um sentimento de otimismo, a geração do pós-guerra se viu imersa num mar de confusão e incerteza, e nenhum outro disco conseguiu fotografar tão bem esse momento quanto The Beatles (1968).

Mas The Beatles, também conhecido como “White Album”, não chega a ser um disco de protesto, de fato. As mensagens estão lá, só que num subtexto quase subliminar, sutil. Críticas ao capitalismo, referências à corrida armamentista e ao clima de revolução permeiam o disco de uma forma que não chega a ser panfletária, mas que mostra que eles não estavam omissos. A capa toda branca era um sinal de que alegria das cores lisérgicas já não fazia mais sentido. Após marcarem a Psicodelia com o Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967), onde encarnaram uma banda de fanfarra fictícia, os Beatles não só abandonam as personas como também retornam ao rock mais cru que podiam fazer, numa mostra de que a realidade triunfava sobre o idealismo hippie.

Se havia tensões influenciando a banda de fora pra dentro, internamente o grupo não ia bem das pernas. Depois da desilusão com um guru de araque, da morte do empresário, da saída do produtor George Martin, e da quase saída de Ringo, os Beatles entram num ritmo de gravações onde o individualismo se tornara evidente. Cada vez mais distantes uns dos outros, trabalhando em estúdios separados, ninguém mais compunha junto, e ao final de uma briga de egos, decidem lançar 33 músicas naquele que se tornaria o único disco duplo da banda. 

Reggae, blues, folk, ragtime, baladas, concretismo, rock, teve espaço para tudo no disco. Mas ao contrário de Revolver (1966), os Beatles aqui não procuraram uma direção enquanto grupo, tateando entre a tradição e o futurismo. Em The Beatles, eles experimentavam a liberdade criativa que nunca tiveram, longe de qualquer modismo ou imposição de mercado, e ao buscarem caminhos individuais, fizeram da diversidade o conceito do álbum. Foi um disco regado à angústias e choques vindos de todos os lados, e como todos os grandes feitos artísticos, conseguiu se sintonizar às verdades do seu tempo. (aqui)



quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Raul Seixas: um arquiteto de hits

Nesses 23 anos da morte de Raul Seixas, eu lembro que meses atrás, depois de ver aquele que talvez seja o documentário definitivo sobre o cara, finalmente pude confirmar uma antiga constatação: ele era um compositor. Parece óbvio, em se tratando de alguém que vivia da música e ficou reconhecido por isso. Mas ao mesmo tempo, a impressão que dá é que para o grande público Raul ficou como sendo um produto da resultante de um monte de rótulos que lhe foram imputados. Foi tão grande a carga e a dimensão que tomaram, que até o próprio achava difícil se libertar deles. Aí que entra aquele papo de “maluco beleza”, de “sociedade alternativa”, ocultismo, “profeta”, que, vá lá que tivessem algum fundamento no real, no fim eram apenas traços que não respondiam pelo todo - ele era e tinha muito mais a ser mostrado. Simplesmente, o foco que deveria estar na música era jogado no discurso e nas suas excentricidades. No mais, como ficou bem claro no filme, quem lhe impulsionava mesmo, a sua grande preocupação desde o início não era a exposição, nem a celebridade, muito menos o messianismo: Raul era um cara que vivia voltado para composição, a criação musical. Não por acaso, seu talento raro logo seria percebido por outros músicos e empresários do ramo assim que ele pôs os pés no Sul.

Foi lá que por um tempo ele trabalhou sob a alcunha de Raulzito, produzindo discos e compondo músicas que ajudaram a promover a carreira de muita gente. Nelas fica nítido o seu esmero e a sua capacidade enquanto verdadeiro artífice de canções, ora românticas, ora roqueiras, ora os dois juntos, mas sempre com comunicação direta com o popular e sem ser banal. Abaixo, canções que são de Raul e que pouca gente sabe:

"Doce doce amor"


"Playboy"


"Foi você"


"Objeto voador"


"Se ainda existe amor"


sábado, 4 de agosto de 2012

A praça de todos nós


Odair José
Praça Tiradentes
2012

Odair José está vivo. Odair José não amansou. Chamado de “Bob Dylan da Central do Brasil” nos anos 70, hoje Odair em cima do palco está mais para um Neil Young. Como Neil, o show é alto, a bola fica lá em cima a toda hora, o som não tem nada de “domesticado”. Muito bom ver que Odair não caiu na tendência geral que é, a partir de uma certa idade, assumir uma sonoridade mais “adulta”, tendendo ao easy-listening bossa-nova, focada nas mamães e nas avós da platéia. Sua matriz é a mesma – algo entre o country-rock e o pop sessentista – e seu discurso também não mudou. Não que ele tenha parado no tempo. É que ele sempre foi atemporal.

Também não é revivalista, não virou um cover de si mesmo, como Roger Waters. Nesse quesito Odair agora parece mais com Paul McCartney. Ao invés de apenas relembrar com nostalgia “antigos sucessos de um tempo que não volta mais”, de quando “estava em forma”, Odair José toca músicas que nunca morreram. E essas mesmas músicas, partes permanentes do inconsciente coletivo, servem de parâmetro não no nível da comparação negativa (“ele nunca mais vai fazer algo assim”), mas sim mostrando que as coisas atuais são tão fortes e pungentes quanto as anteriores. Pela forma como tudo se sintoniza, não dá pra saber se ele era maduro antes ou se é jovial hoje. No fim tudo é uma coisa só, o antes e o agora.

E Odair José tem música nova? Tem sim. Depois de um tempo longe das paradas, farto dos descaminhos e da picaretagem que assola a indústria da música no Brasil, Odair cedeu ao clamor popular e reapareceu, reabilitado após o veredicto do tempo. Passada a era dos preconceitos, em que uma elite cultural intelectualóide e invejosa apregoou o rótulo de “bregas” nos maiores vendedores de discos do Brasil, Odair emerge sendo o que ele sempre foi: um melodista de mão cheia. (Detalhe: pouca gente sabe que Odair José gravou um disco conceitual nos anos 70, uma opera-rock, qualquer dia eu falo disso).

O que Odair faz não é pra qualquer um. Criar uma estrutura simétrica, coesa, e fazer uma história caber ali dentro. E mais: ser perfeitamente cantarolável, isso sem apelar pros monossílabos infantis da temporada. Nele não há nada industrial, tem uma verdade ali. E tudo continua assim em “Praça Tiradentes” (2012). Talvez seja a mesma praça de "Eu, você e a Praça", de 1973, mas agora o ponto de vista transcende o do narrador: Odair José passa em revista todo o seu universo, simbolizado aqui por uma praça, com todos os seus personagens e seus encontros marcados, transitórios e fugazes. Mais do que romantismo, mais do que o “simples” falar de amor, Odair continua trazendo crônicas íntimas, relatos reflexivos sobre emoções e vivências universais, sem exageros, nem frivolidades. Ao invés de enfeitar o que já existe, Odair José parte de situações reais e do meio delas mostra o que nos move, o que nos torna humanos. O que será que será?


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Os 40 anos de Ziggy

 

Cantor: David Bowie
Disco: The Rise and Fall of Ziggy Stardust 
and the Spiders from Mars
Lançamento: 1972

“Sempre estar lá, e ver ele (sic) voltar, não era mais o mesmo, mas estava em seu lugar”. Muita gente lá nos anos 80 deve ter comprado o disco do Nenhum de Nós só por causa dessa música. “Astronauta de mármore” era boa mesmo, melodia forte, cativante ao extremo e sem apelar pros atuais monossílabos. Lembro que passava muito no rádio, a empregada daqui de casa curtia. Ela só não sabia que estava curtindo uma das imortais criações de David Bowie.

Enquanto boa parte do rock nacional se alinhava à MPB, o Nenhum de Nós ia lá nos anos 70 resgatar “Starman”, uma das melhores músicas de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, que está completando 40 anos agora em 2012. Lá naquele 1972, Bowie já não era mais o psicodélico tardio que se arrastava pelo submundo do mainstream: ele se tornara o maior representante de uma das vertentes mais prósperas que despontaram após a virada da década, e este disco não foi só um dos pontos altos de sua carreira, mas de cara se tornou um marco histórico, uma referência.

Fala-se muito das personas que Bowie deu vida durante os anos 70 (a sua melhor década, indiscutivelmente), mas o que deve ser louvado mesmo, no fim das contas, é a sua capacidade criadora. Muito inspirado na poética de Lou Reed e naquele contexto libertário que ficara após Woodstock, Bowie foi desenvolvendo um som praticamente sem fronteiras, indo de um minimalismo acústico à densas baladas ao piano e rocks dos mais ácidos. Juntou peso, dramatismo, tensão, tesão, melancolia, escapismo, ficção científica, decadência e algo de glamuroso, palavra que acabou dando origem a um rótulo –  Glam Rock –, do qual ele mesmo foi o principal representante.

Ao lado do guitarrista Mick Ronson e dos Spiders From Mars, Bowie entraria de vez para o seleto grupo de artistas cujo trabalho continua influente por décadas, e The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars só confirma disso. O disco que conta a saga suicida do roqueiro alienígena trouxe hits que ao longo do tempo teria regravações de Bauhaus, nos anos 80, dos próprios Nenhum de Nós, e depois ainda se tornaria influência básica para o Suede, banda pioneira do Britpop dos anos 90. Apesar da fase não muito inspirada a partir dos anos 80, o relançamento de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars é uma ótima chance de saber por que a obra de Bowie continua viva e celebrada.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A fuga de Paul


Banda: Paul McCarntey & Wings
Disco: Band On The Run
Lançamento: 1973

Band On The Run, como o título já sugere, era o Paul fazendo parte de uma banda, novamente. Após integrar a maior banda de todos os tempos, e praticamente criar o lo-fi gravando discos sozinho, o próximo passo do eterno beatle foi não ser acompanhado por uma banda, de uma forma quase impessoal, mas sim em ser parte de um grupo coeso, o mais homogêneo possível. Isso não o livrou de dar de cara com um horizonte árido nos anos 70, onde as pressões eram imensas: se de um lado havia a expectativa por sucessos pelo menos tão grandes como o que os Beatles lograram, McCartney agora tinha que lutar para se firmar como um artista de rock, ao invés de um cantor pop juvenil.

Por mais que não fosse visto da mesma forma que um Marc Bolan ou um Iggy Pop, a predestinação de Paul para o sucesso acabaria levando seus discos pro topo, e com Band On The Run não deu outra. Contando com a mão pesada dos caras do Wings, o disco mostra já na música título que Paul não estava para brincadeira. Os refrões estão lá, mas não havia a repetição de fórmulas nem a busca pelo caminho mais fácil: era quase uma desconstrução do que se esperava de um artista que havia praticamente criado o dogma da música pop, anos antes, mas que, paradoxalmente, continuava sendo pop. Mudanças de andamento, sintetizadores, vinhetas, peças acústicas e uma sonoridade bem particular marcam este disco que é um dos maiores momentos não só da carreira solo de Paul, mas de todos os anos 70.

Band On The Run faz referência à prisões e perseguições que certos artistas, como os Stones, Byrds, vinham sofrendo já havia algum tempo, e a capa retrata o flagrante de uma fuga de uma penitenciária. Assim como os outros beatles fizeram na época, Band On The Run é também o Paul fugindo de si mesmo, do que tinha sido, e da imagem que havia (se) criado. De fato, não se tratava mesmo de um disco dos Beatles: era um novo capítulo de uma trajetória de um personagem que conhecemos muito bem.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Revendo Norah

Cantora: Norah Jones 
Disco: Little Broken Hearts
Lançamento: 2012 

Numa entrevista recente, o baterista Matt Helders do Arctic Monkeys soltou essa: "Para nós, parece ser óbvio fazer algo diferente quando fazemos um novo álbum. Sei que muitas bandas podem continuar fazendo o mesmo som para sempre, podem ter uma carreira só fazendo isso". E disse mais: "Obviamente muitos fazem isso e funciona. Só que não acho que iríamos querer fazer isso. Não poderíamos fazer um disco como o nosso primeiro novamente, soaria um pouco falso".

De fato, isso tudo parece bem óbvio. Pena que é algo tão pouco compartilhado por aqueles que fazem arte hoje em dia, especialmente aqueles músicos que conseguem atingir o chamado “mainstream”. Talvez por falta de talento, de personalidade, por incompetência mesmo, ou influências mercadológicas, ultimamente tem sido cada vez mais raro vermos alguém se arriscar. Aí surge o bordão: “mas time que tá ganhando não se mexe”. Compreende-se. Mas é também por essa lógica (até um tanto tacanha), de investir na “segurança dos negócios” que vemos um cenário tão desinteressante, estagnado, enfadonho. E até o rock parece ter entrado nessa. Logo ele, que era vanguarda por excelência, que atraia as principais atenções, que era a locomotiva do pop, o "motor das revoluções", o gerador de polêmicas, virou hoje um gueto, um vagãozinho tímido lá atrás, numa época em que Adele, Beyoncé, Bieber e Lady Gaga conduzem o espetáculo.

Mas neste mesmo mundo em que falta testosterona, e quase não se vê coragem para segurar a onda de uma mudança de rumos (com tudo de bom e de ruim que ela possa ter), coube a uma garota de voz docinha mostrar como ainda é possível se reinventar se respeitando, respeitando o ofício e o público. O que Norah Jones fez em seu disco mais recente (Litte Broken Hearts, 2012) é pouco se comparado ao que David Bowie passou os anos 70 fazendo, ou ao que os Beatles fizeram ao trocar o trono do pop pelo experimentalismo que pipocava no underground. Mesmo assim, Norah mostrou que não estava tão acomodada assim naquele nicho pop-jazzistico que lhe deu alguma notoriedade.

Jovem demais para concorrer com Diana Krall, e cult demais pra ficar no mesmo saco de Adele, Norah pra mim sempre pareceu meio deslocada fazendo papel de diva. Agora, a moça parte para um ambiente mais arejado, mais solto, sem a preocupação em seguir cânones sofisticados nem em exibir sua perícia vocal. Isso não significa que a voz não esteja impecável, como sempre, a diferença é que a embalagem, o “clima”, as texturas, fogem dos timbres banais do “piano bar” e ganham uma cara própria, bem particular (a parceria com o produtor Danger Mouse pode ter sido decisiva pra isso). Enfim, se vai tocar na novela ou na Mix é difícil saber, mas me arrisco a dizer - sem nenhum medo - que já é uma das melhores coisas que aconteceram nesse 2012.


segunda-feira, 23 de abril de 2012

A descoberta de Mimito

Era Mimito, a faca e a cidade vazia. Sua esquina era o front. Àquela hora, cada estalo era um estrondo, cada sibilo era um aviso. Qualquer latido era um sinal para cuidar de sua espreita insone. Não era apenas o sono que não lhe atacava, também o medo havia tempos que ele não experimentava. Isso desde quando fora picado por uma cascavel aos 11 anos e fora salvo após engolir um pouco da saliva de Antônio Beato, um senhor que havia sido curado do mesmo jeito, de uma picada do mesmo tipo, havia mais de setenta anos. Desde então, Mimito ficara conhecido pelas suas extravagâncias, pelo seu destemor diante da vida e de quem fosse. E foi só ouvir que pela cidade andava uma burra-de-padre para que, ele mesmo, se animasse em encontrar a aberração que deixava a todos com o sono intranqüilo, atentos a ferrolhos e traves nas portas. Porque uma coisa é saber que ela existe, que pode existir, outra é saber que tem uma correndo pelas ruas logo depois que o motor da luz é desligado.

Além de todo o medo generalizado, a maledicência corria solta: quem era a mulher que provara do amor proibido do padre e que agora, amaldiçoada, corria ensandecida por dentro das noites empoeiradas transmutada numa besta daquele tipo? Só o padre era que não dava ouvidos para a perfídia, não porquê não quisesse, mas pela surdez já quase totalmente instalada em seus ouvidos de mais de 90 anos. Sem forças nem para sair da cama sozinho, com uma fragilidade latente, como teria vigor para andar metido com aventuras clandestinas com moças despudoradas? Viviam intrigados sob os véus e mantilhas, mas Mimito não queria nem saber disso: entre a suspeita e o medo, a crença e a intriga, o rapaz botou na cabeça que queria ficar frente a frente com a criatura incógnita, e sabe-se lá o que aconteceria depois.

Mimito esperou chegar a madrugada da sexta-feira da Paixão que para enfim por em prática o seu plano. Contava com a sorte que o dia poderia lhe brindar. Os amigos troçavam, a mãe lamentava, a avó alarmada só dizia que há coisas com que não se pode mexer, mas lá foi ele, armado apenas com seu desaforo usual e com a faca do seu pai. Ficou lá, postado na esquina que ficava para a rua central da cidade. Não tinha relógios, mas tinha tempo o suficiente. Quando o motor da luz fora desligado, a cidade toda ganhou um tom brilhante e azulado, como se ela própria fosse a superfície da lua, que estava ali bem baixa e luminosa. Mas foi no meio daquela bruma translúcida, por entre o silêncio oco do sereno, que Mimito começou a escutar um chiado nas pedras mal-encaixadas do calçamento, e o chiado longínquo foi crescendo, e aumentando, virando um ribombar retumbante dentro da cabeça de Mimito, e pelo jeito alguma coisa vinha correndo, e Mimito teve certeza de que aquela só poderia ser a aparição que ainda não tinha aparecido de fato mas de que todos falavam como verdade verdadeira. E na tremedeira pelo sucesso do intento, ofegante com a certeza, Mimito com a faca colada ao peito esperava o momento certo para se lançar diante do que quer que fosse para pelo menos atestar, ele próprio, a natureza do bicho sobrenatural.

Fazendo uma contagem apressada, esperou pela a pisada da coisa que fosse quase que imediatamente anterior àquela esquina, e num salto desbaratado, caiu com os calcanhares duros no meio da rua, com a ponta da faca mirada pro vazio, na direção da burra. Mas, por entre a brancura de camadas de lençóis, ao invés de um ser mitológico, o que Mimito encontrou foram dois olhos grandes e aterrorizados de uma moça morena que se revelou com um pedido trêmulo: “Não diga nada a meu marido, ele mataria o prefeito”. Assim Mimito baixou o braço, e abriu espaço para que mulher do delegado pudesse continuar sua corrida incauta até a sua casa, temendo que alguém lhe visse e que a sua ausência não fosse notada. Mimito nunca contou a ninguém o que realmente andava a trotar pela cidade naquelas noites sufocantes. Foi assim que ele compreendeu que a vida, e os amores, são como móveis com mais gavetas do que se pode imaginar.

domingo, 18 de março de 2012

Tardio



Depois de 67 anos, imaginando que já esgotara seu quinhão de emoções possíveis numa vida de parcimônia, Amadeu se viu sozinho dentro da casa, batendo cabeça com um tipo de saudade que nunca experimentara. Foi numa tarde, logo depois que Netinho fora embora com sua mãe Eunice. Num fato inédito em sua vida adulta, Amadeu ficara dois meses na companhia de alguém, o garoto Netinho, enquanto a mãe dele fazia uma viagem que de tão demorada se tornaria penosa para o menino. Quando voltou, Eunice era só gratidão para Amadeu, ainda mais porquê, ao que lhe parecia, o menino vinha sendo muito bem tratado ali. Amadeu, sem saber onde pôr as mãos, entre feliz e emocionado, dizia com uma sofreguidão que parecia timidez que Eunice poderia deixar o seu filho com ele sempre que precisasse, pois seria um favor de amigos e vizinhos, um bem pela harmonia da vizinhança.

Mas quando a porta bateu às suas costas, Amadeu deu de cara com aqueles cômodos imensos de tão vazios, de paredes altíssimas, e um silêncio sibilante, agora sem a presença de Netinho. Foi então que sentiu seu interior como se minguasse e minguasse, murchando e repuxando seus tecidos e provocando um dor que quase lhe deixava sem forças para respirar. "Que vida era aquela que eu vivia até semanas atrás?", perguntava-se em seu abandono. Como não se incomodava com uma rotina tão mesquinha e despropositada, sem compartilhar nada com ninguém? Sem viver para cuidar de ninguém? Só bastou um breve convívio com o garoto para que sentisse o sabor incomparável da humanidade.

Foi tudo tão e tão pouco, tantas refeições preparadas com todo o cuidado, tantas conversas, tantos sorrisos, tantos olhares, tantas noites, tantos abraços, e beijos, e carícias, e carinho, e o toque de mãozinhas tão frágeis, e o hálito doce e quente, e a respiração apressada de pássaro acuado, que Amadeu chegou a esquecer que um dia a mãe de Netinho retornaria para levá-lo e então não seriam mais assim inseparáveis. Mas o dia veio, e como se saísse de uma embriaguês, lembrou-se de que Netinho partiria para a sua vida de menino, enquanto ele ficaria com o horror de ter tudo, a casa e a vida, só para si, novamente. Na cama gelada, Amadeu tentava não pensar em quantas noites se passariam até que o peso da falta se dissipasse, e enfim tivesse de volta a sua velhice livre de pensamentos intranqüilos. Antes de pegar no sono, jurou para si mesmo que se aquilo fosse amor era algo que não queria sentir nunca mais.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

De Minas, gerais

Cantor: Milton Nascimento & Lô Borges
Disco: Clube da Esquina
Lançamento: 1972

Qual o contrário de guinada? Talvez essa palavra nem exista. Certo mesmo é que o que Milton Nascimento fez no começo dos anos 70 pode ser chamado de uma guinada ao contrário. Compositor reconhecido, destaque em grandes festivais, Milton retornaria ao seu reduto, pra longe da mídia, e se juntaria a um bando de moleques desconhecidos para gravarem um disco duplo.

Atente para a quantidade de absurdos numa mesma frase: longe da mídia, moleques desconhecidos, disco duplo. É loucura, se medirmos com a régua de hoje, tão pragmática, tão mesquinha. Para artistas de verdade, do naipe de Milton, trata-se apenas de mais um capítulo numa trajetória vitoriosa. No caso em questão, um dos capítulos mais grandiosos da música brasileira moderna, e que atende pelo nome de Milton Nascimento e Lô Borges – Clube da Esquina (1972).

Nem clube nem movimento: o título faz referência ao grupo de amigos que se reunia numa esquina de Belo Horizonte para tocar violão, aprender novos acordes e novas músicas. Além de Lô e Milton, Beto Guedes, Wagner Tiso e Fernando Brant integravam a turma. Após tomarem rumos distintos, todos se reuniriam naquele 1972 para um projeto que teria o melhor de cada um: o canto de Milton, a influência beatlemaníaca de Lô, as letras de Brant, a tradição mineira em Beto Guedes e o virtuosismo de Wagner Tiso. Só assim, de posse do melhor de cada um e no meio de uma enorme sintonia é que seria possível criar algumas das músicas mais emblemáticas daquela década, como “Trem Azul”, “Nada será como antes”, e “Tudo o que você podia ser”. Não por acaso, algumas dessas músicas acabariam sendo regravadas exaustivamente, inclusive por nomes de peso da MPB clássica, como Elis Regina e Quarteto em Cy. Virou um clássico instantâneo.

Como Raul Seixas, que propunha o encontro de Elvis com Gonzagão, do baião com o Mississipi, Milton e companhia fizeram uma celebração do olhar interiorano, seja do interior da América Latina, do interior de Minas com seus trenzinhos e sua religiosidade, ou do interior da Inglaterra na música de Lennon e McCartney. Como diria o também mineiro Guimarães Rosa, “o sertão é em toda parte”, e o pessoal do Clube sabia disso.

- Vento solar, estrelas do mar

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Discos conceituais dos anos 60

Por mais cabeçuda e pedante que a denominação pareça, os chamados discos conceituais foram uma das propostas mais interessantes que já surgiram dentro do rock. Claro que a noção de uma palavra ou sentimento norteando todo o álbum já existia desde quando os discos começaram a ser feitos. Mas é nos anos 60 que essa ideia é ampliada, com alguns discos trazendo verdadeiras narrativas ou reflexões sobre um tema, com as músicas claramente conectadas entre si. Na maioria das vezes, as músicas acabavam funcionando sozinhas, mas em geral elas deveriam ser tomadas como parte de um contexto maior. Abaixo, cinco dos principais discos que iniciaram esta tendência que existe até hoje:

“Days of Future Passed”, Moody Blues – 1967

Os Moody Blues são considerados pioneiros de muitas coisas: da utilização de orquestra como base das composições, e do Rock Progressivo, que ganharia força a partir dos anos 70. O Moody Blues também é considerada uma das primeiras bandas a lançar mão do artifício do disco conceitual. Em “Days Of Future Passed”, a banda reconstrói o percurso de um dia, do amanhecer à noite, com músicas que evocam cada período (Dawn is a feeling, Tuesday Afternoon, Nights in White Satin, etc). (aqui)

“Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, The Beatles – 1967

Logo que saiu o disco dos Moody Blues, os Beatles lançam aquele que é um dos discos mais aclamados de todos os tempos, tanto pelas técnicas inovadoras de gravação, as sonoridades e pelo fato de eles encarnarem uma banda fictícia (uma atitude que inspiraria Bowie anos depois). Quanto ao fato de ser um disco conceitual, até hoje não há consenso. Para alguns, Peppers não chega a ser conceitual porque apenas 3 das suas 11 músicas é que tem alguma relação clara. Outros defendem que o disco é conceitual porquê retrata uma apresentação da tal Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta, que logo no início do disco se apresenta a platéia. Controvérsias à parte, o certo é que este álbum (o primeiro a vir com as letras encartadas) foi um dos que mudaram a forma como se encaravam os discos (onde todas as músicas eram importantes) além de ter influenciado toda a cultura hippie e o Flower Power. (aqui)

“SF Sorrow”, Pretty Things – 1968

A Psicodelia, que os Beatles haviam ajudado a tirar do Underground e virara Mainstream, já estava passando quando os Pretty Things lançaram o seu melhor disco. A banda que vinha habitando o segundo escalão do rock inglês, seguindo uma linha semelhante a dos Stones, deu com “SF Sorrow” o salto estético que lhe firmou entre os maiores nomes da ilha, na época. Agora sim: o disco contava do início ao fim as desventuras SF Sorrow, do seu nascimento até a sua velhice desiludida, passando por guerras, amores e loucuras. Aproveitando a tecnologia utilizada em Sgt. Peppers e em The Piper at the Gates to the Dawn, do Pink Floyd, os Pretty Things fizeram um disco que não está entre os mais lembrados pelo público, mas certamente foi muito influente entre músicos de todas as épocas. (aqui)

“Village Green Preservation Society”, The Kinks – 1968

Os Kinks eram tidos como a quarta força dentro da British Invasion, tocando um misto de Mod (um R’n’B de branco, com mais guitarras) e Merseybeat. Mas a partir de 67, a banda começou a testar novas sonoridades próximas ao vaudeville, e a investir em letras de cunho mais crítico, numa espécie de desencanto permanente com o estilo de vida da sociedade da época. Esse desencanto chegaria ao auge com “Village Green Preservation Society”, um disco que ia na contramão de tudo o que se fazia na época. Enquanto boa parte do rock estava investindo em futurismos e no peso instrumental, os Kinks se voltam para o passado e fazem um disco sem firulas de estúdio, exaltando a vida no interior, num lugar arquetípico (a Vila Verde) que reunia todo o bucolismo de um mundo distante da selvageria das metrópoles. Depois desse, a banda ainda lançaria vários outros discos conceituais, mas este ficaria marcado entre os melhores de sua carreira, sendo considerado por Pete Towshend do The Who o “Sgt. Peppers” dos Kinks. (aqui)

“Tommy”, The Who – 1969

O The Who era a principal banda Mod dos anos 60, na Inglaterra, quando em 67 eles lançam “A Quick One, While He’s Away”, uma das primeiras músicas a romper com o formato radiofônico (tinha quase 8 minutos). Ela contava história de uma moça que era abandonada pelo marido, e tinha várias passagens e momentos distintos, trabalhados de acordo com o andamento da história. Em 68, quando o Pretty Things lançou "SF Sorrow", Pete Towshend (principal compositor do The Who), percebeu que era possível estender uma história ao logo de todo um disco e foi daí que surgiu seu “Tommy”. O disco contava a história de Tommy, um menino que ficara cego, surdo e mudo após sofrer um trauma e que depois se tornaria um campeão mundial de pinball. Uma vez curado, Tommy se tornaria algo como um guru, falando de liberdade e auto-conhecimento, o que foi uma grande sensação entre os públicos dos festivais onde The Who chegou a tocar o disco completo. (aqui)