quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Breve biografia de um inadequado


Nick Drake só gravou três discos. Morreu cedo, aos 27 anos. Como ele, outros também morreram nessa idade: Hendrix, Jim Morrison, Janis. Ao contrário desses, Nick Drake não conheceu a fama, nem o aplauso das grandes platéias. Não viu sua obra ser comentada, não chegou a ver a influência dos seus discos, nada. Viveu no lado B do estrelato, trilhando o outro caminho possível na trajetória de qualquer gênio: a ausência do reconhecimento de público, o completo fracasso, e no fim, a mágoa.

Enquanto Hendrix, Morrison e Janis inauguravam uma nova era, com novos sons e novas abordagens, Nick Drake gravava o seu primeiro disco, Five Leaves Left (1969). Era quase que estritamente folk, violão e voz, numa época em que as guitarras cada vez mais estridentes viravam protagonistas dos espetáculos (até Dylan se rendera a ela). Avesso a entrevistas e a plateias, tímido, de uma introspecção quase patológica, Nick Drake raramente aparecia, nem se apresentava, no momento em que turnês e shows em arenas já eram coisa corriqueira para qualquer aspirante a ídolo.

Esse primeiro disco até que teve uma boa aceitação, o que o fez partir com tudo o segundo trabalho. Arregimentou uma banda, incorporou elementos do jazz, coros, solos de sax, contou com ajudas de peso como Joe Boyd (Fairport Convention) e John Cale (Velvet Underground), mas o disco não emplacou. Era Bryter Later (1970), sua obra-prima, e ele sabia disso. Mas às portas dos anos 70, com Led Zepelin, Yes e Bowie fazendo da grandiloquência e da afetação escadas para o sucesso, ninguém deu a mínima ao disco daquele tímido trovador do interior da Inglaterra.

Aí Hendrix, Morrison e Janis se foram, talvez sufocados por uma brutal sede de viver tudo ao mesmo tempo agora. Nick, lá no polo oposto, após juntar os cacos de sua autoestima, partiu para um autoexílio de onde só sairia para o cemitério. Retirou-se de um convívio do qual nunca fez parte de fato e apagou-se distante das páginas das revistas e sem homenagens. Antes, gravou Pink Moon (1972), sozinho, quase de uma tacada só, num último jorro de criatividade. É a sua carta de despedida, talvez um dos discos mais contundentes da história.

Hoje Nick Drake é aclamado. De Billy Corgan a Renato Russo, passando por Belle and Sebastian, não falta quem exalte a sua genialidade. Uma vez Bráulio Tavares escreveu: “o gênio, em geral, é aquele cara cuja obra gostaríamos de ter escrito, mas cuja vida não ousaríamos jamais viver.” Não sei se Bráulio conhece Nick Drake, mas o trabalho e a trajetória daquele inglês de 1.91 de altura só confirmam sua teoria.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O lado escuro do hype


QUAL NÃO FOI a minha surpresa ao dar de cara com o Tame Impala na trilha da novela da Globo? Na verdade, nem era tanto de se espantar ver uma banda dessa em “O Rebu”, que tem buscado uma trilha mais moderninha, quase indie. Mas o fato acabou me lembrando de que, ultimamente, em meio a um pop cada vez mais coreográfico e um rock cada dia mais robótico, bandas com um viés mais psicodélico tem despontado com certa frequência e qualidade.

A cada dia eu venho tendo a impressão de que este segmento tem se fortalecido como um reduto e um meio por onde expressar um lado mais orgânico do rock’n’roll que tem sumido das paradas e das rádios. O Tame Impala talvez seja o grande exemplo disso. Com dois discos gravados, os moleques acabaram chamando atenção com um som que remetia tanto aos vocais de Lennon quanto aos riffs do Led Zeppelin, tudo isso embebido numa atmosfera etérea que vai bem tanto no disco como ao vivo. Mas não fica neles. O Foxygen, que é mais ou menos da mesma safra, trás um apelo menos viajoso e mais calcado no pop sessentista, a exemplo do que o Apples In Stereo, e outras bandas da Elephant Six faziam no começo dos anos 2000. Com eles, a experimentação, a ausência de linearidade, convive muito bem com o brilho e o senso pop dos mais aguçados.

Outro, mais recente, que tem chamado atenção inclusive de gente como Noel Gallagher e Johnny Mar é o Temples. Há quem diga que são seguidores do Tame Impala, mas pelo visual e pela sujeirinha no som, dá pra ver que eles estão procurando algo bem próprio. O terreno até que coincide em alguns momentos, mas o Temples traz um tom mais obscuro e mais roqueiro dentro dessa veia psicodélica, e claro, tudo disposto na estrutura de canção pop para não cansar a paciência do ouvinte. Syd Barret e Marc Bollan curtiriam.

Há também, entre as novidades, uma daquelas com um nome bem à moda da Costa Oeste americana, dos anos sessenta: The Ghost of a Saber Tooth Tiger, que é capitaneado por ninguém menos do que Sean Lennon, o filho do homem. Não é de hoje que o rapaz lida com essas instâncias psicodélicas, tanto que é fã declarado de Arnaldo Batista, dos Mutantes, e ainda considera os Beach Boys maiores do que os Beatles. Preferências à parte, o certo é que o rapaz sempre teve jeito para a coisa e esse novo trabalho (Midnight Sun) mostrou uma consistência comparável a dos trabalhos mais loucos dos Flaming Lips, por exemplo. No Brasil, a coisa parece também se desenvolver bem. Por muito tempo o Júpiter Maçã foi o único representante da lisergia a ter algum destaque, mas de tempos para cá, fomos apresentados a nomes competentes e inspirados como o Super Cordas, o Bonifrate e um que tem crescido bastante e tem muito potencial para impressionar: os Boogarins.

Enfim, se você, como eu, anda bem cansado com o indie rock de meia tigela, esse sonzinho plástico de boate, comedido, domesticado, está na hora de se aventurar pelo lado escuro do hype. Mas cuidado: uma vez lá, pode não ter volta.

domingo, 1 de junho de 2014

Masterplan


Oasis
Definitely Maybe
(1994)

Muito tem se falado sobre o primeiro disco do Oasis (Definetely Maybe, de 1994) nesses seus 20 anos recém-completados. E de fato há realmente muito do que se falar: das vendagens absurdas, do vácuo que ele aproveitou após o declínio do Grunge, do retorno do guitar rock com força às paradas, da atitude, da autoestima elevada (até demais) nos anos do Britpop, o que faz todo sentido. Mas anterior a tudo isso, está a mola motriz, a figura central e força criativa do grupo. Seu nome é Noel Gallagher.

Além do talento indiscutível, do gosto e do bom senso, Noel tinha uma sensibilidade e uma perspicácia que quase não era notada em meio àquela atmosfera de álcool e outras cositas. Com uma atenção sutil, Noel pôde ver de perto ali em Manchester a escalada do Post-Punk com Joy Division, New Order, Smiths, A Certain Ratio e da gravadora Factory. No início da década seguinte, acompanhou o Madchester dos também conterrâneos do Happy Mondays e os Stones Roses.

Mas Noel, após ter visto e vivido tudo isso, sabia que aquele ainda não era o caminho, faltava algo. Olhava para a sua discoteca cheia de Slade, Bowie, Mott The Hoople, Neil Young, Beatles, e percebia um descompasso enorme entre o rock que comovera milhões décadas antes e o que via rolando na época. Faltava guitarra, faltava virulência, faltava rock no rock. Além disso, trabalhando como roadie de outra banda local, os Inspiral Carpets, Noel pôde ir à festas, ensaios, viu brigas, mixagens, falou com produtores, assistiu shows, conheceu plateias, viu o madchester perdendo relevância e o shoegaze londrino patinar numa melancolia contida. Era preciso mais, e Noel viu na banda do irmão a chance de levar a público músicas que vinha escrevendo havia tempos.

Daí foi uma questão de tempo. Da sua entrada no The Rain e o rebatismo para Oasis, e depois com demos gravadas, ao show na Escócia, onde assinaram um contrato com a célebre Creation Records, foi coisa de 3, 4 anos. Vieram as badalações, as brigas, fofocas, e todos aqueles excessos que rondam uma banda que bate recordes de vendagens no Reino Unido. O que fica, por mais autoajuda que pareça, é a marca do triunfo de um cara que sofreu com um pai violento, foi mal na escola, promoveu badernas na vizinhança, cresceu próximo a traficantes e hoolingans, e se revelou um dos maiores gênios da música britânica, cuja banda comandou a cena na segunda metade dos anos 90.

Rock'n'roll Star

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Um pequeno clássico perdido



The Heavy Blinkers
The Night and I Are Still So Young
2004

Vou começar uma série que se chama Grandes discos recentes que passaram batidos. Um título bem auto-explicativo. É até compreensível que muita coisa boa se perca na enxurrada de lançamentos que se sucedem todos os meses e mal você descobre um já surgem mais uns dez que muitas vezes nem valem a atenção. O problema é que no meio desses pode ter um daqueles discos que você vai ouvir pelo resto da vida, que vai sobressair no meio de tanta coisa derivativa e sem personalidade. Foi o caso de The Night and I Are Still So Young, dos Heavy Blinkers.

O disco é do já longínquo 2004 e eu devo ter ouvido pela primeira vez lá em 2008, 2009. O primeiro pensamento é “como é que eu só vim ouvir isso agora?”, tamanha a surpresa. Na época eu pesquisava sobre Indie Pop e acabava de descobrir um tal Chamber Pop, no que pelo jeito esse disco se encaixava. Chamber Pop, como o nome já diz, é “pop de câmara”, numa referência à música de câmara, cuja a característica principal é a utilização de orquestras menores, tocando peças mais curtas, em ambientes que forneçam uma reverberação natural.

Mas o que o disco tem a ver com isso? Muita coisa. De cara surgem os arranjos orquestrais e vocais dispostos numa atmosfera que consegue ser pop e luxuosa ao mesmo tempo. Por aí já se vê nitidamente que as grandes influências do Heavy Blinkers são o Sunshine Pop do fim dos anos 60, Burt Baccharach (um dos maiores compositores de sempre) e os Beach Boys da fase Pet Sounds, que foi o disco onde a banda deixou a Surf-Music de lado e embarcou numa onda mais orquestral e sofisticada que impressionou até os Beatles, em 66.

Alguém que vai na linha desses aí, no mínimo merece alguma atenção. E no caso desse disco, os Heavy Blinkers não decepcionam. Fui com a cara de pouca coisa nesse século XXI, mas The Night and I Are Still So Young bateu forte, já desarma nos primeiros minutos e tudo o que você tem a fazer é se render àquele disco que só pode ter sido feito com muito carinho e esmero. É um disco lindo, não há muito o que dizer além disso. É um daqueles trabalhos feitos pra a gente acreditar, nem que seja por uns minutos, que o mundo pode ser um lugar melhor. O que é muita coisa.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A maior banda do mundo hoje é...


"...Like a Clockwork"
Queens of the Stone Age
2013

Dia desses eu vi uma frase de Dinho Ouro Preto que falava assim: “Falta uma banda que una todas as tribos. Como foi o Nirvana”

Não que Dinho Ouro Preto seja lá um pensador, uma referência, mas o cara vem de uma geração bem anterior, viu o Punk e veio acompanhando as coisas de um ponto de vista bastante privilegiado: de dentro da “máquina”. Vá lá que não valha pela reflexão, mas experiência também conta, e o que ele disse até que fez algum sentido, sim. O Nirvana conseguiu unir pólos muito distantes, congregou fatias generosas da juventude num nível global, atraiu desde o pessoal do underground até os públicos do mainstream mais superficial. Mulheres, rapazes, garotas, tiozinhos, todo mundo pirou no que o Nirvana trazia para um cenário mortificado que era aquele do início dos anos 90.

Olhando para hoje, quem é que tem essa capacidade de juntar gente de gerações diferentes, de “tribos” diferentes, de regiões e orientações distintas? Os Strokes conseguiram, mas por pouco tempo. Era preciso mais continuidade, mais pujança, mais identificação com o chamado público de rock. Trazendo pra hoje, uma das poucas, se não a única banda, capaz de atrair um número maior de adeptos das mais variadas vertentes roqueiras é o Queens of the Stone Age. E vou além: o Queens é a grande banda de rock da atualidade. Digo isso porque boa parte das bandas indie (Arcade Fire, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand, Strokes) estão acabando por se afundar mais e mais nesse nicho indie, abraçando o som de boate, os beats eletrônicos, como se este fosse o melhor dos caminhos criativos.

Já o Queens consegue se manter dentro do espectro do rock sem descambar para a plasticidade dos citados acima. Enquanto boa parte das bandas parece convergir para uma sonoridade meio Daft Punk, o Queens se coloca como um contraponto a isso, um refúgio para quem não tá tão interessado em danças nem em FMs. Donos de uma personalidade indiscutível, de timbres bastante particulares, o Queens segue conquistando desde o moleque que está aprendendo a tocar agora, até o pessoal que cresceu com o Grunge, e gente do metal. O último disco (...Like a Clockwork, 2013) foi a prova disso. No passado a banda chegou a ter grandes êxitos comerciais, aí mudou formação, andaram baleiando, mas em 2013 eles se aprumaram e o retorno foi magistral. Deram uma puxada no freio, mas não na criatividade. Abriram mais espaço para as vozes, investiram mais em ambiências, e fizeram um disco quase irretocável, que vai direto no ponto, sem rodeios, sem frescura. É um trabalho sombrio e ao mesmo tempo sexy, e mais denso do que pesado. Por essas e outras é que eu não tenho nenhum medo de afirmar: a maior banda do mundo hoje é o Queens of the Stone Age.