sábado, 31 de agosto de 2013

40 anos e além


Pink Floyd
"Dark Side of the Moon"
1973

Começo com um clichê: o que falar de Dark Side of The Moon, do Pink Floyd? “Dark Side” enquanto evento, enquanto artefato mítico, enquanto amuleto da cultura de massa, o disco do prisma que é ele próprio um prisma por onde se pode se lançar os mais variados olhares, e se chegar a mais uma gama de conclusões. Um disco que é um ponto a parte até da trajetória da própria banda. Sempre vai ter algo pra se falar de Dark Side of The Moon, é como o Poderoso Chefão de Coppola, como Ulysses de James Joyce, Blade Runner, Sgt. Peppers, é um assunto que não se esgota nunca. Dark Side é um daqueles marcos da história onde a arte toca na cultura e alcança uma amplidão atemporal, que desconhece idiomas ou limites territoriais.

Conceitualmente, este disco já vinha se engendrando antes mesmo de começar a ser feito. O ponto de partida foi no disco anterior, Meddle, quando o Pink Floyd ao mesmo tempo em que experimentava uma sonoridade mais pé no chão, passava a olhar mais para o homem, seus dilemas e contradições, ao contrário dos seus contemporâneos progressivos que enfeitavam ainda mais o som e cantavam sobre universos paralelos e lendas antigas. Da janela do seu apartamento, Roger Waters observava a rua cheia de gente apressada, levando suas solidões por aí enquanto ele mesmo provava da sua, no momento em que o seu ex-parceiro e ex-companheiro de quarto, Syd Barret, se tornara um lunático afogado pelo LSD.

Empatia, loucuras modernas tidas como normalidade, pressões da urbanidade. Tentar enxergar a si mesmo no outro. Foi disso tudo que se formou o substrato de onde nasceria o disco que transcenderia não só o reduto underground como também o rótulo rock progressivo. De um hora para outra os esquisitões psicodélicos viraram estrelas mundiais tocando em estádios e atingindo vendagens impensáveis, tanto que na Alemanha tiveram que construir uma fábrica só para prensar mais e mais cópias daquele disco que se comunicou com um monte de gente de uma forma que poucos conseguem.

Da combinação perfeita do talento dos quatro integrantes saiu um trabalho sem excessos, sem adornos, sem rebuscamentos. Tecnicamente, é um feito quase sem paralelo, e mesmo 40 anos depois ele continua sendo um trabalho único por toda a sua natureza sônica e o seu equilíbrio formal, ainda mais se considerarmos que ele vem de uma época em que as gravações envolviam trucagens e cortes de fitas. É um disco bem cru, como Roger queria, mas sem abandonar a ambiência envolvente que Gilmour gostava. Com o teclado preciso de Rick Wright e as batidas no ritmo do coração que Nick Manson impunha, esse disco, que começa e termina com batimentos cardíacos reais, vai estar sempre nos lembrando o que somos por baixo de toda a loucura cotidiana, e enquanto o homem tiver capacidade de ser humano, Dark Side sempre vai fazer sentido.