terça-feira, 22 de setembro de 2009

A verdade nua e crua

Retomando um costume quase perdido, fui ao cinema no fim de semana. A última vez que eu tinha ido não tinha sido das melhores: a perda de tempo e de dinheiro atendia por “Spirit”, cuja presença de Frank Miller nos créditos me faz esperar algo próximo a “Sin City”. Ledo engano.

Mas nesse fim-de-semana eu fui ver “A Verdade Nua e Crua”, um exemplar de um gênero que parece ganhar força a cada dia: a comédia romântica escato-sexual. Esqueça Julia Roberts ou Meg Ryan. “A Verdade Nua e Crua” é de uma geração de filmes que parece gozar (sem trocadilho) de uma maior liberdade ao tratar da relação entre sexo e amor. Essa liberdade só era até então desfrutada pelas comédias teens (tipo American Pie) e agora parece que a coisa chegou aos filmes voltados para quem já beira os 30. Em muitos momentos o apelo ao palavreado chulo soa ridículo. Na tela todos parecem um bando de garotos de 13 anos que não conseguem parar de repetir porrabucetacarai a todo instante.

Mas o filme não é só isso. Tem coisa bem pior. Do início ao fim vemos um espetáculo de clichês pra ninguém botar defeito. Parece ser uma estratégia atual: o filme com spoiler embutido. De cara você já sabe exatamente tudo o que vai acontecer sem ter se preocupar com reviravoltas, mistérios ou expectativas. E os personagens não fogem muito disso, nenhum possui um caráter mais complexo em que um traço oculto se revela naquele momento bombástico da trama. De um lado, temos a jovem executiva, bonita, bem-sucedida, workaholic, neurótica, controladora, e solitária. Detalhe: ela cria um gato. Afinal, mulheres solitárias têm que ter gatos, nunca uma iguana ou, quem sabe, um cachorro. No outro polo, temos o fanfarrão desbocado que perdeu a fé nos relacionamentos graças a traumas passados, mas que não é totalmente escroto e amoral porque ajuda a cuidar carinhosamente de um sobrinho. No filme, os dois acabam tendo que conviver e acabam se envolvendo em algumas situações "cômicas". Alguém arrisca um palpite sobre o final?

Se esse tipo de cinema não te interessa, se tudo o que você procura vai na contra-mão disso aí, saiba que você está num bom caminho. De acordo com o que saiu no blog de Ricardo Lombardi, “romances ou filmes surreais (lembre-se de Kafka e de David Lynch) podem melhorar a nossa capacidade de aprendizagem. A exposição ao surrealismo aumenta os mecanismos cognitivos que supervisionam funções de aprendizagem implícita.” Ou seja, filmes como o que eu vi, focados em sensações frívolas, que buscam a acomodação do espectador, no fim das contas, nos deixam mais burros.

Quem quiser ler mais sobre, segue o link.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Partida

Talvez semelhante ao ódio de Saturno, ao devorar os filhos que tanto temia, ou ao de Lilith, quando abandonou Adão e partiu do Éden, foi o da cigana Josefa quando João lhe falou da decisão de ir para a Serra do Cambaio sentar praça na guerra que se alardeava. Foi assim que Derda, como lhe chamavam, contrariou o espírito da sua gente pela segunda vez: chorou, de ódio e por amor, e teve vergonha do tapa na cara que sua mãe certamente lhe daria.

Depois de conhecer as alturas geladas de Bariloche, foi no calor das caatingas que Derda conheceu um outro calor, ainda mais forte, que lhe tomou o coração e lhe revirou o juízo, mudando o seu destino para sempre. Nesse momento, foi contra a índole do seu povo pela primeira vez: largou a tenda e sentou morada, tudo por este mesmo João, que agora diz assim que vai embora, como se não se lembrasse de tudo o que vivera até aqui.

Seus primos e irmãos também tiveram que abandonar a única forma de viver que conheciam. Para não terem que ficar sem a sua mãe e líder, pagaram o preço de uma paixão que não era deles, e aceitaram um lar de alvenaria que nunca precisaram. Fingindo não ver o desgosto dos parentes, Derda vivia crivada por uma dor, que era também a dor deles, ao irem contra os seus instintos de nômade, tão naturais quanto o curso de um rio ou o feitio das montanhas.

Para Derda, não poderia haver uma dor maior do que aquela, era algo inconcebível. Em sua janela, chamando quem passasse para uma leitura de mão, Derda pensava se João já havia sido ferido na guerra, e compreendia que nesse mundo cabe mais dor do que se imagina.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Carta de Edith

A imagem da casa pegando fogo jamais sairia da minha cabeça. Os estalos das madeiras, o cheiro da fumaça, hoje esse quadro se confunde com a dor de ter visto minha mãe sair de lá correndo com o pouco que deu para pegar. Mas é a única coisa pela qual lamento todos os dias, a visão da verdadeira dignidade sendo violentada de uma forma tão ignóbil. Porque minha mãe, mesmo no auge de sua desgraça, tinha dignidade, era altiva, diferente de mim, que sou um animal covarde que se compraz na podridão.

Foi tudo muito rápido. Primeiro, meu pai pegou o filho de Cândido saindo daqui de casa. No mesmo instante foi ter com ele, não queria saber de homens visitando sua filha na sua ausência. Mas a conversa se inflamou demais e meu pai acabou colocando uma bala no peito do garoto. Três dias depois, uns trabalhadores encontraram meu pai na estrada, varado por uma estaca de imburana. E antes do fim daquela semana fomos acordadas com a fumaça e com os galopes na estrada.

Depois da destruição da casa não conseguimos vender a fazenda porque meu pai a tinha perdido no baralho, uma semana antes. Passado mais esse revés, minha mãe, que era bonita e prendada, acabou sendo aproveitada numa casa de família onde deve estar trabalhando até hoje. Ainda a encontrei algumas vezes, mas eu sempre chorava muito depois de vê-la de avental e lenço na cabeça, com a pele amorenada pelo calor do fogão. Muitas vezes eu desejei dizê-la que tudo aquilo tinha sido culpa minha, que fora eu quem contratara Jacinto Duas-Trevas para dar cabo do Velho Cândido, tudo para que acreditassem que ela amava meu pai, ao invés de ter que curar o horror de sua vida em encontros clandestinos com garotos como o filho de Cândido. Agora estou pagando pelo meu egoísmo, eu sabia que papai a mataria, mas no fim fui eu que acabei lhe empurrando para esse futuro de infelicidade. Logo eu, que sempre a amei muito mais do que qualquer marido jamais conseguiria.

domingo, 19 de julho de 2009

Eny

Mais uma vez voltava para casa sendo devorado por dentro por aquela sensação de só saber o que dizer depois que o momento passa. Os alemães chamam isso de Treppenwitz... Mas enfim, era assim que ela quase sempre lhe deixava, e não era de forma ríspida, às vezes um sorriso, um comentário, um silêncio, uma mudança brusca de assunto, e ele era golpeado contra suas próprias convicções. Era por vezes encarado pelos próprios preconceitos e pelos julgamentos malfeitos. Tomar um sorvete, passear na praia ou ir ao cinema quase sempre se tornavam experiências brutais de autoconhecimento, proporcionadas por uma garota que, embora fosse reconhecidamente mimada, era de uma lucidez absurda. Ela considerava inúteis tantas cerimônias, tantos arroubos servis, tantos achismos que ele tinha quase como dogmas. Diante dela, tudo isso desmoronava, revelando um mundo cheio de vaidade e insegurança.

No começo achava engraçadas aquelas suas impaciências, aquela eterna postura de quem não se agrada com nada, depois teve raiva, e por fim compreendeu que o que lhe fazia continuar próximo a ela não era um instinto masoquista, como chegou a pensar, mas sim uma necessidade de ter sempre alguém para lhe mostrar a realidade, para lhe guiar nos caminhos, lhe tirando do conformismo que aquela sua pseudo-intelectualidade proporcionava - ainda que isso lhe travasse a garganta, ainda que fosse tão desconcertante.

Saber disso foi tranqüilizador, mas não tornou convivência diferente do que sempre fora. Chamava aquilo de amizade difusa, um tipo de amizade que se realizava mais nas diferenças do que nas concordâncias, prova do quanto a amizade pode ter formas originais de se manifestar. Também não se importavam com o que estivesse muito além deles próprios: sobrenome, onde nasceram, se tinham pretendentes, o que queriam da vida, etc. Brindavam o agora, num misto de displicência e inconseqüência adolescente.

Um dia, quando perguntou a ela o que tinha de bom em preferir a sua companhia a de outras pessoas, ela soltou sem pensar: "E tem que ter algo de bom? Tem que ter um motivo?"

terça-feira, 23 de junho de 2009

Os cães

Mal amanhecera e Zaqueu já estava na frente da igreja onde fingia ser aleijado. E nem precisava carregar tanto na pantomima. Velho e esfarrapado, a muleta ao lado é o golpe de misericórdia na misericórdia alheia. Depois de anos na labuta do pedir, a velhice lhe brindava com as rugas e os tremores típicos, o que lhe dava uma boa vantagem sobre os mendigos mais jovens.

Naquela noite Zaqueu foi ao restaurante Don Giovanni garantir o seu merecido jantar. Como sempre fazia, chegou perto das onze, quando o movimento já era fraco, e foi para a porta dos fundos. Lá esperaria o senhor Giovanni, dono do restaurante, abrir a porta para jogar o lixo fora. Giovanni lhe vendia as bordas queimadas das pizzas, que eram rejeitadas pelos clientes. Como tivera um dia ruim, e Giovanni era impiedoso, Zaqueu teria que mais uma vez se bastar com pouco. “Só dois reais? Sinto muito, não vai dar pra levar tudo”, disse Giovanni, colocando as de Zaqueu num jornal. O restante ele guardou de volta pra dar aos seus cães.

Com o jantar dos cachorros embaixo do braço, Giovanni caminhava dois quarteirões até a sua casa, onde morava só com a mulher, Sofia. O casal já passava dos cinqüenta anos e não tinha filhos. Para eles nunca foi mistério que a culpa era toda de Giovanni, cujo problema, mais que interno, era físico, o que, fato bizarro, lhe impedia de consumar o casamento até então. No começo Sofia se impacientava, mas com os anos, encontrou um alento na criação dos cães. Hoje ele via com tranqüilidade que a companhia alegre dos cachorros acabou lhe ajudando a tirar certas idéias da cabeça. E realmente, depois deles, Sofia se tornara uma mulher cheia de vida, ainda mais agora que lhes ensinara a lambê-la entre as pernas.

terça-feira, 26 de maio de 2009

O desaparecido

Não eram raras as vezes em que lhe vinham as lembranças desfiguradas do dia em que ficou completamente nu, dentro da igreja, no meio da missa, e não fora notado. “Já desapareci”, ele murmura, e apesar de lhe julgarem esclerosado, essas palavras estavam bem fundamentadas nos fatos mais insólitos que já lhe acometeram, e dos quais ele recorda pouca coisa.

O episódio da igreja fora o mais grandioso de uma seqüência que começara algumas noites antes. Seu Adenor, um contra-sogro de seu pai, homem vivido e de pouca conversa, pensando na sua proteção, lhe entregou um papel com uma oração cujo poder era de tornar invisível por um dia quem a proferisse. Poderia recorrer a ela, sempre que precisasse, ela não falharia, lhe garantiu o homem. Ele não acreditou muito, mas guardou o papel mesmo assim. Na noite em que toda a cidade procurava um ladrão nos matagais, ele resolveu testar, sem muita fé, se as palavras funcionariam. Mas deu certo. Andou por entre os homens, passou perto dos cães, zombou na cara do delegado, dos policiais, riu até não poder mais, e nada, era como se não existisse.

Intrigado, carecia de uma prova maior da eficácia do intento. Temeroso mas decidido, resolveu caprichar na ousadia e pulou o muro do convento. Logicamente, uma presença estranha e masculina naquele ambiente logo seria alardeada, o que não aconteceu. Ficou o dia por lá, passeou pelas capelas, violou o quarto das madres, espiou o banho das noviças, roubou fruta na cozinha, e mais uma vez, embasbacado, percebeu que não lhe percebiam.

Mal dormiu àquela noite de tão desvairado. Feitiço, magia, seja lá o que fosse, funcionava e muito bem. Foi naquela madrugada febril que lhe veio a idéia, a que selaria de vez a certeza, a que finalmente colocaria o artifício no limite. Foi no domingo seguinte, o sino batia para a missa das cinco, e ele saiu. Já na praça foi tirando os sapatos, soltou o cinto, largou a camisa, abandonou as calças e assomou na nave da igreja, nu, com o padre e a procissão dos coroinhas logo atrás.

Era a vitória final, o êxito pleno, a glória ali, com o corpo desnudo, em pleno altar, diante das beatas, invisível a todos, quiçá até a Deus. Estava tão embriagado com aquele poder que esqueceu o papelzinho com a oração dentro do bolso da calça, que a sua mãe colocou para lavar, apagando as frágeis palavras de grafite que ele não tinha decorado. Foi um trauma, uma tragédia, que o fez sumir para sempre, e colocou um lunático no seu lugar.

domingo, 12 de abril de 2009

O cantinho da gente

Entre sonhos bordados
Está a semente
Do que logo será
O cantinho da gente.

Lá vai ser tudo diferente.

Janelas abertas
Um cachorro boboca
E um tempo que não se sente.

Lá, no cantinho da gente.

Também não terá saudade
Nem outra cidade
Só a liberdade
De estar sempre perto.
Vai dar tudo certo
E daqui pra frente
Eu só vou pensar
No cantinho da gente.