sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O rito da Rita



Rita Lee & Tutti-Frutti
"Fruto Proibido"
1975
 
Certa vez, Rita Lee disse que ter saído dos Mutantes foi a melhor coisa que podia ter lhe acontecido. Apesar de ter passado algum tempo para se dar conta disso, na época tudo foi bastante doloroso, como é em todo rito de passagem. No caso da Rita, esse rito só se completaria alguns anos mais tarde, com o lançamento de Fruto Proibido (1975)

A passagem da escola pra universidade, daí para o emprego, casamento, tudo isso acaba implicando em desligamentos, readaptações, e alguma dose de sofrimento. Com Rita, deixar o seu grupo original foi o seu passaporte para a maturidade, da adolescência psicodélica com os Mutantes para a vida adulta ao lado do Tutti-Frutti. Foi ainda às voltas com esse clima de separação, mudança e partida, e a aceitação plena desse novo momento, que Rita Lee compôs algumas de suas melhores músicas de sempre: “Agora só falta você”, “Esse tal de Roque Enrow” (com Paulo Coelho) e “Ovelha Negra” (seu maior hit).

Mas pra chegar nesse ponto não foi assim de repente. Ainda na época dos Mutantes, vieram alguns discos solo, pra pegar confiança. Depois, com o Cilibrinas do Éden e Atrás do porto tem uma cidade, afinou o discurso, a embocadura, e chegou pronta em Fruto Proibido. Sucesso total. A pegada stoneana da banda de Luis Carlini foi a embalagem ideal para a poética de Rita Lee, que aquelas alturas andava fascinada pelo Glam Rock de Bowie e Marc Bolan. Mas ao contrário deles, Rita não propunha fantasias pop decadentes e escapismo: ela concentrava sua narrativa em torno de fortes figuras femininas (como em “Luz Del Fuego”), que parecem ser metáforas de uma mulher que ela procurou em si mesma, após o baque da sua demissão dos Mutantes.

Entre o instrumental forte do Tutti-Frutti, Rita encaixava marotamente o seu piano com o charme que era também uma das marcas do seu humor, bem feminino, desde os tempos tropicalistas. Mas nada disso parecia demandar muito esforço. Fruto Proibido não nasceria de exaustivos exercícios mentais, como o rock progressivo cabeçudo que seus ex-parceiros haviam adotado. O disco era a expressão pura e espontânea da criatividade de uma artista que não teve medo de exorcizar velhos demônios publicamente. O que acabou dando certo. De cantora promissora, Rita se tornaria uma estrela nacional, catapultada pelo êxito de Fruto Proibido, que é um dos grandes discos brasileiros de todos os tempos. (aqui)