domingo, 13 de junho de 2010

Do Varadouro pra Ribeira: Gauche em Natal

Depois de quatro anos, algumas mudanças de formação, e dois EPs gravados, finalmente o Gauche conseguiu se apresentar fora de terras pessoenses. Foram dois shows em dois dias, um aqui e outro em Natal, tão próxima e tão distante de nós. Próxima fisicamente, menos de três horas de viagem pela via ainda em fase de duplicação. Distante na questão da cena. Basta dizer que hoje o estado hospeda dois dos maiores festivais independentes do Brasil (o Mada e o DoSol), fato que o coloca em posição de destaque na região, ao lado de Pernambuco e Bahia.

Pela grande avenida que corta toda Natal, chegamos ao bairro da Ribeira, no extremo oposto da cidade. É lá que fica o local do show, o Galpão 29, próximo à zona portuária. Esse bairro é o equivalente ao nosso Varadouro. Outrora um lugar rico, onde a cidade nasceu na forma de casarões aristocráticos e armazéns pra todo lado. Hoje, a parte esquecida, marginal e fedorenta, onde o rock tem que se abrigar.

Na mesma ruela do Galpão 29 está o Bar DoSol, que é do pessoal que organiza o festival citado, e quando chegamos já estava rolando coisa por lá, por volta das da dez. Além do calor na cara, bem familiar, a paisagem também não era de todo estranha: vimos o povinho que só fica na frente dos bares e nunca entra, os vendedores de cerveja, e os onipresentes olhadores de carros. Mas quando entramos no tal galpão, a coisa mudou. Ficamos impressionados com o tamanho da casa, com o equipamento que eles tem lá, som, luzes, um mesário solícito, tudo bem profissional. Se aquilo fosse varrido de vez em quando, seria perfeito, e talvez não tivesse tanta barata (só no palco matamos quatro ou cinco).

O show começou meio chocho, tocamos duas músicas pra ninguém, mas devagarinho as pessoas foram entrando. A pequena platéia que se formou logo se dividiu em dois flancos: o daqueles aqueles de rostos contritos, sérios como quem analisa, e outro composto por garotas com jeito de quem faz Comunicação ou Psicologia, visual neo-hippie, tattoos, e sem vergonha de dançar. No fim do show, essas mesmas garotas puxaram um coro de “bis”, mas a organização não permitiu que tocássemos mais uma. Depois ainda vendemos uns CDs, vieram falar com a gente, no geral foram bem receptivos conosco, clima bom. Pra uma banda com pretensões nem tão modestas, uma viagem dessas é um belo teaser de como é a vida na estrada: muita risada, muita diversão, mas também muito cansaço, muito problema técnico, e claro, muita barata.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Elisa

É normal esfriar o chiclete no ar-condicionado? Pelo menos pra ela é. Aliás, ela está muito a parte de qualquer conceito de normalidade. Ela não vive num universo próprio, como se diz por aí – ela é um universo, em si mesma, muito distante do nosso dia-a-dia mesquinho. Essa distância com que se punha diante das coisas que não lhe interessa é por vezes confundida com pedantismo, coisa que talvez ela nem saiba o significado. É displicente com o mundo por talvez estar mais desperta para o que tem dentro de si. Também é verdadeira de uma forma quase patológica, e irresistivelmente transparente. Não diz “tudo bem?” se não quiser realmente saber como está a pessoa. Mas o seu sorriso, quando há, é largo, luminoso, amplo como o de uma criança brincalhona. Ela não é de se comover com tudo, com cãezinhos desamparados ou tragédias nos jornais, mas Chopin, pássaros engaiolados e asilos lhe deixam estranha, oca, e isso dói.

Ela também não é do tipo que se preocupa com coisas elevadas, como a causa feminista, o conceito de Deus ou os males que as corporações causam ao mundo - ela só sabe o que quer e do que gosta. Por exemplo, evita praça de alimentação de shopping, não pela comida, mas pelo barulho, acha invasivo demais. No meio de multidões sente-se desolada, anulada enquanto gente, e indefesa. Prefere mesmo a paz de um boteco, com um garçom prestativo com quem pode fazer amizade, e a quem chamará por nomes errados, de propósito, matando de rir todos em sua volta. Mas ela gosta de bares mais porque pode ouvir e ser ouvida, e dependendo do humor, deixar na mesa guardanapos com perguntas tipo “É possível ser infeliz?” ou “Você sonha ou espera?”.

A blusa dos Smiths, surrada, o rabo de cavalo e a ausência de cosméticos aparentam desleixo, mas sem querer ela dá uma pista: “olhe com cuidado”. E quando sua mãe encrenca com suas sandálias baixas, ela retruca, fazendo pose de diva: “não preciso levantar minha bunda, sou gostosa do meu jeito”. É isso que eu gosto em Elisa: às vezes ela pode ser boba, mas tola, jamais.