segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O luto no Oriente é branco


The Beatles
"The Beatles" (a.k.a The White Album)
1968

1968. Pela definição de Zuenir Ventura, o ano que não terminou. Em maio, uma onda de protestos varria a França com uma violência sem precedentes. Àquelas alturas, Che e Luther King estavam mortos, as atrocidades da Guerra do Vietnã vinham à tona, as ditaduras na América Latina recrudesciam, a repressão à juventude ganhava ares de guerra civil, e o mundo entrava numa convulsão que não se via desde que Hitler avançara sobre a Polônia. Depois de uma década tomada por um sentimento de otimismo, a geração do pós-guerra se viu imersa num mar de confusão e incerteza, e nenhum outro disco conseguiu fotografar tão bem esse momento quanto The Beatles (1968).

Mas The Beatles, também conhecido como “White Album”, não chega a ser um disco de protesto, de fato. As mensagens estão lá, só que num subtexto quase subliminar, sutil. Críticas ao capitalismo, referências à corrida armamentista e ao clima de revolução permeiam o disco de uma forma que não chega a ser panfletária, mas que mostra que eles não estavam omissos. A capa toda branca era um sinal de que alegria das cores lisérgicas já não fazia mais sentido. Após marcarem a Psicodelia com o Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967), onde encarnaram uma banda de fanfarra fictícia, os Beatles não só abandonam as personas como também retornam ao rock mais cru que podiam fazer, numa mostra de que a realidade triunfava sobre o idealismo hippie.

Se havia tensões influenciando a banda de fora pra dentro, internamente o grupo não ia bem das pernas. Depois da desilusão com um guru de araque, da morte do empresário, da saída do produtor George Martin, e da quase saída de Ringo, os Beatles entram num ritmo de gravações onde o individualismo se tornara evidente. Cada vez mais distantes uns dos outros, trabalhando em estúdios separados, ninguém mais compunha junto, e ao final de uma briga de egos, decidem lançar 33 músicas naquele que se tornaria o único disco duplo da banda. 

Reggae, blues, folk, ragtime, baladas, concretismo, rock, teve espaço para tudo no disco. Mas ao contrário de Revolver (1966), os Beatles aqui não procuraram uma direção enquanto grupo, tateando entre a tradição e o futurismo. Em The Beatles, eles experimentavam a liberdade criativa que nunca tiveram, longe de qualquer modismo ou imposição de mercado, e ao buscarem caminhos individuais, fizeram da diversidade o conceito do álbum. Foi um disco regado à angústias e choques vindos de todos os lados, e como todos os grandes feitos artísticos, conseguiu se sintonizar às verdades do seu tempo. (aqui)