terça-feira, 11 de agosto de 2009

Carta de Edith

A imagem da casa pegando fogo jamais sairia da minha cabeça. Os estalos das madeiras, o cheiro da fumaça, hoje esse quadro se confunde com a dor de ter visto minha mãe sair de lá correndo com o pouco que deu para pegar. Mas é a única coisa pela qual lamento todos os dias, a visão da verdadeira dignidade sendo violentada de uma forma tão ignóbil. Porque minha mãe, mesmo no auge de sua desgraça, tinha dignidade, era altiva, diferente de mim, que sou um animal covarde que se compraz na podridão.

Foi tudo muito rápido. Primeiro, meu pai pegou o filho de Cândido saindo daqui de casa. No mesmo instante foi ter com ele, não queria saber de homens visitando sua filha na sua ausência. Mas a conversa se inflamou demais e meu pai acabou colocando uma bala no peito do garoto. Três dias depois, uns trabalhadores encontraram meu pai na estrada, varado por uma estaca de imburana. E antes do fim daquela semana fomos acordadas com a fumaça e com os galopes na estrada.

Depois da destruição da casa não conseguimos vender a fazenda porque meu pai a tinha perdido no baralho, uma semana antes. Passado mais esse revés, minha mãe, que era bonita e prendada, acabou sendo aproveitada numa casa de família onde deve estar trabalhando até hoje. Ainda a encontrei algumas vezes, mas eu sempre chorava muito depois de vê-la de avental e lenço na cabeça, com a pele amorenada pelo calor do fogão. Muitas vezes eu desejei dizê-la que tudo aquilo tinha sido culpa minha, que fora eu quem contratara Jacinto Duas-Trevas para dar cabo do Velho Cândido, tudo para que acreditassem que ela amava meu pai, ao invés de ter que curar o horror de sua vida em encontros clandestinos com garotos como o filho de Cândido. Agora estou pagando pelo meu egoísmo, eu sabia que papai a mataria, mas no fim fui eu que acabei lhe empurrando para esse futuro de infelicidade. Logo eu, que sempre a amei muito mais do que qualquer marido jamais conseguiria.