terça-feira, 23 de junho de 2009

Os cães

Mal amanhecera e Zaqueu já estava na frente da igreja onde fingia ser aleijado. E nem precisava carregar tanto na pantomima. Velho e esfarrapado, a muleta ao lado é o golpe de misericórdia na misericórdia alheia. Depois de anos na labuta do pedir, a velhice lhe brindava com as rugas e os tremores típicos, o que lhe dava uma boa vantagem sobre os mendigos mais jovens.

Naquela noite Zaqueu foi ao restaurante Don Giovanni garantir o seu merecido jantar. Como sempre fazia, chegou perto das onze, quando o movimento já era fraco, e foi para a porta dos fundos. Lá esperaria o senhor Giovanni, dono do restaurante, abrir a porta para jogar o lixo fora. Giovanni lhe vendia as bordas queimadas das pizzas, que eram rejeitadas pelos clientes. Como tivera um dia ruim, e Giovanni era impiedoso, Zaqueu teria que mais uma vez se bastar com pouco. “Só dois reais? Sinto muito, não vai dar pra levar tudo”, disse Giovanni, colocando as de Zaqueu num jornal. O restante ele guardou de volta pra dar aos seus cães.

Com o jantar dos cachorros embaixo do braço, Giovanni caminhava dois quarteirões até a sua casa, onde morava só com a mulher, Sofia. O casal já passava dos cinqüenta anos e não tinha filhos. Para eles nunca foi mistério que a culpa era toda de Giovanni, cujo problema, mais que interno, era físico, o que, fato bizarro, lhe impedia de consumar o casamento até então. No começo Sofia se impacientava, mas com os anos, encontrou um alento na criação dos cães. Hoje ele via com tranqüilidade que a companhia alegre dos cachorros acabou lhe ajudando a tirar certas idéias da cabeça. E realmente, depois deles, Sofia se tornara uma mulher cheia de vida, ainda mais agora que lhes ensinara a lambê-la entre as pernas.