quarta-feira, 31 de março de 2010

There Is A Light That Never Goes Out

Banda: Big Star
Álbum: Big Star
Lançamento: 1972

“Quase ninguém comprou o primeiro disco do Velvet Underground quando ele foi lançado, mas todas as pessoas que compraram montaram uma banda”, disse Brian Eno sobre o primeiro álbum da banda de Lou Reed. Essa frase também se aplica a Alex Chilton, morto há duas semanas. Ele é um daqueles casos que se pode chamar de “influência de muitos, ídolos de poucos”. Mas ser um dos poucos que o tinham como ídolo não tem nada a ver com aquele pedantismo juvenil que não quer que a sua bandinha preferida vire “pop”, que ela saia dos domínios da sua turma e ganhe o mundo na voz de todo tipo de gente. Ser um dos seus poucos admiradores era um pouco amargar a injustiça de ver um enorme talento ficar nas sombras por não se encaixar em determinadas tendências. Ainda mais quando era alguém com todo o potencial para estourar, e que não escondia suas limitações atrás do muro seguro do underground.

Alex Chilton foi um dos pioneiros de um gênero que parece ter nascido pra ficar na margem: o Power Pop. No início dos anos 70, quando a extravagância cênica e instrumental estava em alta, algumas bandas fizeram uma retomada do pop sessentista (Beatles, Byrds), emoldurado em guitarras possantes (The Who). Não deu outra: viraram segundo escalão da indústria, dos gostos, e das atenções. Uma dessas bandas foi o Big Star, de Alex Chilton. A banda gravou três discos que praticamente passaram batidos nos anos 70, mas que entre a década de 80 e 90 viraram objeto de culto. REM, Replacements, Posies, e a escocesa Teenage Funclub, declararam sua devoção ao Big Star, o que ajudou a reabilitar o nome da banda no showbizz. Nos anos 90, o Big Star chegou a gravar dois discos ao vivo, e em 2005 lançou um disco de inéditas.

Felizmente, Chilton viveu o suficiente para ver a sua obra reconhecida através de relançamentos e shows lotados, como certamente seria aquele que faria no Festival South By Southwest, se não tivesse morrido três dias antes. Dessa vez, o mundo não foi tão injusto. Foi apenas cruel.

- Discaço.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O Chico é outro

Banda: Pullovers
Álbum: Tudo Que Eu Sempre Sonhei
Lançamento: 2009

Há uns posts atrás falei da influência de uma das metades dos Los Hermanos no trabalho (e na vida) da jovem Mallu Magalhães. Este fato isolado pode ser tomado como um indício de uma coisa muito maior: todo o cenário musical dos últimos 10 anos foi afetado pela verve hermânica a partir do estouro de “Anna Julia”. E isto não sou eu que está dizendo. Numa pesquisa feita com 68 críticos, músicos, jornalistas, blogueiros e mais gente ligada ao meio musical, dois dos quatro álbuns da banda ficaram respectivamente em primeiro e segundo lugar no Top 20 Nacional da década recém-encerrada.

Mas por mais tola que seja, “Anna Julia” acabou significando o retorno da melodia pop assobiável ao universo roqueiro do Brasil. Mombojó, Vanguart, Móveis Coloniais de Acaju, Volver, Ludov e vários outros devem sua parcela de tributo a retomada proposta pelos Hermanos. Tanto que é difícil falar de alguma banda nova e promissora sem tê-los como referencial. No caso dos Pullovers, mais do que referência, a banda faz quase uma reverência aos timbres e à poética de Marcelo Camelo & Cia. Mesmo longe da influência sambista, eles até se reconhecem como discípulos, mas sem deixar de confrontar os mestres, lhes cutucando, e passando na sua cara o que eles têm de pior e tacanho. “Pra que imitar Chico Buarque?”, canta o Pullovers em “Tudo que eu sempre sonhei”.

Os Pullovers não chegam a ser pros Los Hermanos o que o Moptop era pros Strokes, anos atrás, quase uma filial brasileira. Os cariocas foram importantes pra eles, como foram pra todo mundo, pro mercado, para maneira de se cantar em português hoje, não adianta negar isso. Mas os Pullovers não se contentaram em pegar o bastão: eles criaram um universo próprio, que tem muito mais a ver com a atualidade de Xico Sá do que com o parnasiano Chico Buarque. Somando-se a isso o esmero lírico e instrumental, os Pullovers se tornam a banda independente mais bem resolvida que eu vi desde os Walverdes. Não é a toa que foram presença certa em várias listas de melhores de 2009.

Num mundo perfeito, os Pullovers seriam aclamados pela juventude e já teriam recebido das mãos de Raul Gil um disco de platina duplo. O problema é que se o mundo fosse perfeito mesmo, eles não teriam sobre o que cantar em Tudo Que Eu Sempre Sonhei (2009).


- Vai que é massa.