segunda-feira, 23 de abril de 2012

A descoberta de Mimito

Era Mimito, a faca e a cidade vazia. Sua esquina era o front. Àquela hora, cada estalo era um estrondo, cada sibilo era um aviso. Qualquer latido era um sinal para cuidar de sua espreita insone. Não era apenas o sono que não lhe atacava, também o medo havia tempos que ele não experimentava. Isso desde quando fora picado por uma cascavel aos 11 anos e fora salvo após engolir um pouco da saliva de Antônio Beato, um senhor que havia sido curado do mesmo jeito, de uma picada do mesmo tipo, havia mais de setenta anos. Desde então, Mimito ficara conhecido pelas suas extravagâncias, pelo seu destemor diante da vida e de quem fosse. E foi só ouvir que pela cidade andava uma burra-de-padre para que, ele mesmo, se animasse em encontrar a aberração que deixava a todos com o sono intranqüilo, atentos a ferrolhos e traves nas portas. Porque uma coisa é saber que ela existe, que pode existir, outra é saber que tem uma correndo pelas ruas logo depois que o motor da luz é desligado.

Além de todo o medo generalizado, a maledicência corria solta: quem era a mulher que provara do amor proibido do padre e que agora, amaldiçoada, corria ensandecida por dentro das noites empoeiradas transmutada numa besta daquele tipo? Só o padre era que não dava ouvidos para a perfídia, não porquê não quisesse, mas pela surdez já quase totalmente instalada em seus ouvidos de mais de 90 anos. Sem forças nem para sair da cama sozinho, com uma fragilidade latente, como teria vigor para andar metido com aventuras clandestinas com moças despudoradas? Viviam intrigados sob os véus e mantilhas, mas Mimito não queria nem saber disso: entre a suspeita e o medo, a crença e a intriga, o rapaz botou na cabeça que queria ficar frente a frente com a criatura incógnita, e sabe-se lá o que aconteceria depois.

Mimito esperou chegar a madrugada da sexta-feira da Paixão que para enfim por em prática o seu plano. Contava com a sorte que o dia poderia lhe brindar. Os amigos troçavam, a mãe lamentava, a avó alarmada só dizia que há coisas com que não se pode mexer, mas lá foi ele, armado apenas com seu desaforo usual e com a faca do seu pai. Ficou lá, postado na esquina que ficava para a rua central da cidade. Não tinha relógios, mas tinha tempo o suficiente. Quando o motor da luz fora desligado, a cidade toda ganhou um tom brilhante e azulado, como se ela própria fosse a superfície da lua, que estava ali bem baixa e luminosa. Mas foi no meio daquela bruma translúcida, por entre o silêncio oco do sereno, que Mimito começou a escutar um chiado nas pedras mal-encaixadas do calçamento, e o chiado longínquo foi crescendo, e aumentando, virando um ribombar retumbante dentro da cabeça de Mimito, e pelo jeito alguma coisa vinha correndo, e Mimito teve certeza de que aquela só poderia ser a aparição que ainda não tinha aparecido de fato mas de que todos falavam como verdade verdadeira. E na tremedeira pelo sucesso do intento, ofegante com a certeza, Mimito com a faca colada ao peito esperava o momento certo para se lançar diante do que quer que fosse para pelo menos atestar, ele próprio, a natureza do bicho sobrenatural.

Fazendo uma contagem apressada, esperou pela a pisada da coisa que fosse quase que imediatamente anterior àquela esquina, e num salto desbaratado, caiu com os calcanhares duros no meio da rua, com a ponta da faca mirada pro vazio, na direção da burra. Mas, por entre a brancura de camadas de lençóis, ao invés de um ser mitológico, o que Mimito encontrou foram dois olhos grandes e aterrorizados de uma moça morena que se revelou com um pedido trêmulo: “Não diga nada a meu marido, ele mataria o prefeito”. Assim Mimito baixou o braço, e abriu espaço para que mulher do delegado pudesse continuar sua corrida incauta até a sua casa, temendo que alguém lhe visse e que a sua ausência não fosse notada. Mimito nunca contou a ninguém o que realmente andava a trotar pela cidade naquelas noites sufocantes. Foi assim que ele compreendeu que a vida, e os amores, são como móveis com mais gavetas do que se pode imaginar.