segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cinco discos pra entender o Glam Rock

O Glam pode ser definido como a ponte entre o hippie esperançoso e o punk anárquico, numa boa mostra do esfacelamento das utopias que terminariam sendo enterradas nos anos 80, com a vitória das corporações. Mas voltando ao Glam, o estilo se embasava em muitas das conquistas do Verão do Amor, como a liberdade sexual, mas já insinuava uma boa dose de desencanto que culminaria com o apelo destrutivo da geração de 77. Abusando da androginia, das temáticas urbanas e do colorido (pantufas, boás, e muito glitter, heranças do Flower Power), o Glam Rock combinava brilho com uma espécie de charme decadente, frescor juvenil com o escapismo. Pra eles, fãs de Andy Warhol, o glamour era também era uma metáfora de um mundo cada vez mais superficial, cada vez mais focado na embalagem.

Mas o Glam Rock não era só imagem e polêmica. Abaixo, cinco discos que comprovam isso.

“Hunky Dory” (1971), David Bowie

Nesse disco, ainda não vemos Bowie encarnando uma das tantas personas que daria vida em sua carreira: nesse ponto ele era a própria encarnação do Glam Rock. A afetação, o visual andrógino, as referências à Era Vitoriana e à corrida espacial, são alguns dos traços mais marcantes desse disco que, se não é dos mais roqueiros, mostra um Bowie maduro, pronto para se tornar um dos maiores artistas dos anos 70. Detalhe: esse disco é o de Life On Mars?. (aqui)


“Electric Warrior” (1971), T. Rex

Marc Bolan e seu T. Rex dentro do Glam Rock representavam um lado mais místico em oposição ao apelo retro-futurista de Bowie. Herdeiro do folk-psicodélico de Donovan (o bardo inglês que surgira como uma resposta a Dylan), Marc Bolan focava o seu som numa atmosfera carregada de groove e hedonismo. Sem dramatismo e nem preocupação cênica, Marc Bolan se permitia improvisos, microfonias, funcionando como uma espécie de xamã numa postura que lembrava um pouco a de Jim Morrison, mas sem tanta poesia. (aqui)

"Sladest" (1973), Slade

John Lennon uma vez disse que o Glam Rock era "o bom e velho rock and roll apenas com batom". No caso do Slade, o lance era mais rock’n’roll do que exatamente batom. Com jeito de gangue de delinquentes, abusando de gírias nas músicas, e investindo em mais peso do que o T. Rex, o Slade era o lado mais irresponsável do Glam Rock. Primando basicamente pela diversão com um quê hooligan, o som do Slade é cru e sem floreios, quase uma explosão hormonal: celebração juvenil em estado (im)puro. (aqui)


"Mott" (1973), Mott The Hoople

Após terem a carreira salva com o single presenteado por David Bowie, a banda de Ian Hunter teve força suficiente para continuar no topo por méritos próprios, através de um dos maiores discos da década. Praticamente um hit singles pack, com baladas perfeitas, um rock'n'roll melancólico, muito piano e um pé no rock de arena, o disco de 73 foi o primeiro a trazer a palavra punk, numa mostra de que a ponte para o apocalipse de 77 já estava se formando. (aqui)


"New York Dolls" (1973), New York Dolls

Com roupas feitas por eles mesmos, postura sexualizada, muita malícia e uma certa urgência instrumental, os New York Dolls sintetizavam de forma amplificada todo o inventário Glam Rock até então. Eles só não chegaram a ser uma banda punk de fato por ainda se renderem a um certo tributo ao Rock’n’Roll clássico, e também não terem a postura destrutiva, nem a linguagem, que marcariam a geração de bandas que emergiria antes do fim daquela década. (aqui)

Menções honrosas (vale ver também): "Here Come the Warm Jets" (1974), de Brian Eno; "Country Life" (1974), do Roxy Music; "Kimono My House" (1974) do Sparks; "Desolation Boulevard" (1974) do Sweet e "Glitter" (1973), de Gary Glitter.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Sangue, tortura e mutilações: a gente vê por aqui

Depois da “perversão da realidade”, onde é mais fácil aceitar o gosto por divas inalcançáveis (tipo Panicats) do que por tipos corriqueiros como gordinhas, quarentonas, baixinhas, etc, a realidade aos poucos vem sendo tratada pela TV como se fosse um filme de Exploitation. Pra quem não está muito familiarizado com o termo, ele se refere a filmes que exploram a violência em todas as suas variantes mais sangrentas, temperados por um forte apelo sexual. Geralmente são histórias focadas na agressão contra mulheres (jovens, bonitas, transformadas em objetos de fetiche), com torturas, vinganças, massacres, etc. E o que se tem visto ultimamente na TV? O que estão levando ao sagrado seio dos nossos lares? A coisa chegou ao cúmulo recentemente com a exibição de um vídeo de um estupro (ou tentativa, sei lá) gravado com um celular. Isso que é convergência. A pornografia, não a clássica, profissional, mas a amadorística, do tipo “caiu na net”, antes restrita à sites como Redtube, Xvideos, vem agora pela TV aberta, e bem na hora do almoço, acessível pra mamãe, pro papai e pro vovô. É dupla exploração: da menina no vídeo, que parecia embriagada, e do próprio vídeo, como muleta para um denuncismo vazio a respeito de um suposto e atroz estado de coisas em que nos encontramos. Mas a própria exibição de um vídeo desse já não pode ser um sinal desse estado de coisas? Pois é, acadêmicos, morram de inveja. Isso que é Metalinguagem.

Voltando ao Exploitation, a coisa não fica restrita apenas a esses programas policialescos onde as grandes estrelas são os crimes flagrados por circuitos internos, os cadáveres nas vielas e os feridos chegando aos hospitais. Em um outro canal dá pra ver cirurgias plásticas, e não falo aqui de canais educativos, voltados para médicos. São shows, reality shows, com depoimentos reais de moças que são viradas pelo avesso em lipoaspirações, lipoesculturas e implantes de tudo o que é jeito. E tudo bem em close, você quase pode sentir o cheiro da gordura sendo cauterizada, a pele sendo repuxada pelos pontos... “Jogos Mortais” perde. Já em um outro canal, jovens bonitos e bem nascidos se submetem a um jogo em que pra ganhar é preciso passar por situações de quase afogamento, vertigem, além de terem que meter a boca em pedaços de carne crua, comer baratas, larvas, formigas, etc. Homens nem tanto, mas é com especial deleite, em câmera lenta, que são mostrados os rostos das moças maquiadas, com os cabelos impecáveis, tremendo de asco e horror ao serem cobertas por ratos e cobras em diversas provas. Nem os filmes com a nazista Ilsa eram tão requintados.

Ou seja: não nos contentamos mais com a ficção, com o Exploitation “apenas” enquanto gênero cinematográfico. Queremos a coisa real porquê não tem criança aqui, cinema é brincadeira, como diria Hitchcock. Queremos ver é estupro de verdade, nada de sangue cenográfico nem insetos de borracha. E ainda dizem que a TV é um meio em declínio, que nada. O Exploitation ficou para trás, os Snuff Movies e a sua suposta violência real ainda são uma lenda. A TV que é pura vanguarda. Fiquemos atentos ao que virá a seguir.

domingo, 16 de outubro de 2011

O que está acontecendo (III)

“Matando o amor” (2011) – Talma & Gadelha

O Talma & Gadelha é o protótipo da banda perfeita. Pra mim, pelo menos. Não que o disco deles seja perfeito (tem umas 4 músicas brilhantes e o resto fica entre ótimo e simpático). Falei que a banda era um protótipo perfeito porque reúne características que pra mim são irresistíveis: refrões ganchudos, senso pop, um pouco de peso, uma sujeirinha nas guitarras, além de terem uma garota (Simona Talma) dividindo os vocais com o baixista Luiz Gadelha. Some-se a isso uma abertura suficiente para envolver entre as referências coisas dos pop rock dos anos 90 e Jovem Guarda, indo facilmente de um roquinho mais cru até baladas pesadas. Por ter uns toques um tanto divertidos, o pessoal tem associado a banda ao Pato Fu, mas o Talma & Gadelha tem capacidade suficiente pra construir uma história própria, independente de modismos atuais. (aqui)

“The Baggios” (2011) – The Baggios

Um julgamento apressado pode colocar os sergipanos do The Baggios apenas como o “White Stripes brasileiro”, mas não é só por aí. A formação reduzida é a mesma (guitarra e bateria) e há também um gosto pelo blues mais profundo, em ambas as bandas. Mas os Baggios, em relação aos americanos, não tem as “arestas tão arredondadas”. Há entre as referências sons como as pirações do Cream, o hard do Led Zeppelin, até coisas mais recentes como Jon Spencer Blues Explosion e seu espetáculo de guitarras. O sotaque, a forma de flexionar as melodias, em meio aqueles timbres, sugere uma relação com Raul Seixas, o que ajuda a dar a coisa toda um espírito bem brasileiro, no melhor sentido da palavra. Enfim, quem gosta de uma coisa meio tarantinesca, de uma aridez poeirenta, pesada e viril (e de guitarras) vai se sentir em casa com o The Baggios. (aqui)

“Boa Parte de Mim Vai Embora (2011)” – Vanguart

Depois de anos de “retiro”, o Vanguart deixou a poeira do hype passar (e com ela suas pressões) pra voltar com um disco em que eles parecem ter encontrado o próprio som, a própria verve, onde as principais referências não parecem tão bem perceptíveis como era no começo. Ainda há um quê folk, os violões puxando tudo, uns solos a la George Harrison, mas agora as estruturas se permitem fluir mais, mais longas, ora mais pesadas, ora mais charmosas, solenes até. O novo disco deles é um trabalho para se ouvir com calma, percebendo cada mudança, cada nova camada que chega, cada acréscimo, como os arranjos do violino, novidade na banda. Praticamente falando só de despedidas, o disco não é muito recomendado para quem passou por alguma separação recente, mas ainda assim vale a tentativa. (aqui)

sábado, 3 de setembro de 2011

Impressões de um gauche em Fortaleza

Depois de quase 12 horas de viagem, Fortaleza nos recebeu com um mormaço típico de agreste. O céu sem nuvens, as poucas árvores e a brisa tímida quase fizeram com que eu me sentisse em Campina Grande. Mas as semelhanças com a Rainha da Borborema pararam por aí. Logo na entrada, Fortaleza exibe toda a sua exuberância: vários galpões de distribuição, um ao lado do outro; filial da Petrobrás e um horizonte repleto de prédios que já nos davam uma idéia do dinamismo daquela que é uma das três capitais que mais crescem no Nordeste.

Dragão do Mar. Pense num lugar massa..

Uma das coisas que mais nos chamou atenção na cidade é a forma como o centro, o litoral, e a parte histórica estão integradas num mesmo conjunto. Diferente de João Pessoa, em Fortaleza o centro é junto da praia, e entre uma coisa e outra está o Centro Cultural Dragão do Mar, um complexo muito bem equipado que compreende museus, cinemas, anfiteatro, salas de exposições e até um planetário. Ao contrário do Espaço Cultural de João Pessoa, que é um prédio fechado, o Dragão do Mar tem seus prédios espalhados por uma grande extensão que engloba a parte histórica, e a comunicação entre os ambientes se dá por escadarias, túneis suspensos e rampas. Por ali mesmo, se confundindo com o Dragão do Mar, vemos a já citada parte histórica, que hoje hospeda bares, restaurantes, pizzarias, boates e a sede do Sesc.

Pizza no jantar, cervejas "alemãs" e muita gente bonita e transada

Resumindo, em poucos quarteirões está praticamente tudo o que interessa em Fortaleza, e não é pouca coisa. São poucos passos que levam da orla imensa, ao shopping a céu aberto (uma alameda de lojas comerciais), passando pelo obelisco do Centenário da Independência, pela igreja neo-gótica, o mercado de artesanato, e a Universidade Católica. Nas ruas contíguas ao Dragão do Mar contei pelo menos umas quatro ou cinco casas de show, sendo uma exclusivamente de reggae, que vinha tendo programação desde a quarta-feira, e com casa lotada. Isso tudo sem contar os bares ao longo da Beira-Mar e outras casas de show mais afastadas da área em que estávamos.

Outro fato notável é que as casas de show que promovem, inclusive, shows de Rock (a exemplo do Órbita), também estão ali por perto do Dragão do Mar, próximas à área mais nobre de Fortaleza. Em João Pessoa e Natal, a coisa meio que fica relegada a "guetos", à parte histórica que ficou abandonada e esquecida pelo desenvolvimento. Em Fortaleza, não. Esta parte não só é muito bem cuidada como é um ponto de encontro praticamente obrigatório para quem passa pela cidade, e não só do ponto de vista decorativo, mas para ser vivenciado e experimentado com todo o vigor, sobretudo à noite.

Entre o hotel onde ficamos e o Dragão do Mar, perdemos as contas de quantos hotéis, pousadas e, principalmente, pizzarias vimos por lá - é uma verdadeira febre. Mal anoitece elas abrem, e a briga pela clientela começa. Quem também inicia sua batalha diária pelos fregueses são as prostitutas e os travestis. Só na rua do nosso hotel, praticamente não ficava uma esquina sem que houvesse alguém fazendo ponto. Esse ramo, um dos tão prósperos em Fortaleza, é só um dos sinais da quantidade de turistas que a cidade atrai em todas as épocas do ano, e agora não era diferente. Mesmo com o calor implacável, e sendo uma capital bem mais jovem do que João Pessoa, Fortaleza conseguiu se aparelhar e se tornar interessante aos olhos do Brasil e do mundo, mantendo um custo de vida razoável (bem abaixo da loucura que é Natal) e um trânsito fluído de cidade planejada. Apesar de aparentar uma qualidade de vida um pouco melhor, João Pessoa pelo visto tem muito o que aprender com a capital do Ceará.

PS.: Não vi ninguém engraçadinho por lá.

domingo, 31 de julho de 2011

Cinco discos pra entender o Britpop

O relançamento dos discos do Suede marca os 20 anos do Britpop, momento no qual diversas bandas britânicas despontaram para o mundo no vácuo que ficara após o sumiço do Grunge. Não que fosse um movimento organizado – o Britpop foi tendo seus contornos definidos basicamente pelo sucesso de um pessoal que cresceu ouvindo Beatles, Bowie e a geração do Punk, e que àquela altura dava ao mundo as melhores canções guitar rock desde os tempos dos Smiths. Abaixo, cinco discos cruciais pra saber o que rolou por lá naquela época.

“Suede” (1993) - Suede

O Suede é considerada a banda pioneira do Britpop. Juntando o Glam de Bowie com a postura dramática dos Smiths, a banda de Brett Anderson interrompia o ciclo shoegazer, e já sem nenhum resquício da onda dance, do Madchester, inaugurava uma nova década na música pop da Inglaterra. “So Young” e “Animal Nitrate” já deixavam clara toda a virulência de uma banda que difilcimente passaria despercebida. (Aqui)

“Definitely Maybe” (1994) – Oasis

O Oasis é talvez o maior nome da ilha nos anos 90. E este disco foi até pouco tempo atrás o disco de estréia que vendeu mais em menos tempo, o que não foi por acaso. O Oasis trazia uma verdadeira síntese do melhor de 3 décadas de tradição do rock inglês, sem medo de soar clichê. Entre o pop e o barulho, as baladas e o peso, lotar estádios parecia a vocação natural dos irmãos Gallagher. (Aqui)

“Parklife” (1994) – Blur

O Blur tem uma discografia meio irregular, mas ele foi por um bom tempo a pedra no sapato do Oasis na briga pelas atenções da mídia e do público. Representando um lado mais londrino da cena britpop (contrastando com a rudeza dos interioranos do Oasis), o Blur fazia uma linha menos rocker que a dos rivais. A música deles se afinava mais ao humor dos Kinks e ao rock alternativo americano, sem desprezar influências tipicamente inglesas, como o dancehall e a psicodelia dos anos 60. (Aqui)

“The Bends” (1995) – Radiohead

O Radiohead apareceu pro mundo com “Creep” e ninguém achava que eles fossem muito além daquilo. Fãs da angústia do REM e do noise pop dos Pixies, o Radiohead lança em 95 o disco no qual encontraria o seu som, o seu caminho, o caminho que a levaria ser a melhor banda da década seguinte. Como os discos já citados aqui, The Bends vai enfileirando canções poderosas num fôlego raro de se ver. A música da propaganda do “Carlinhos” é um exemplo disso, e é um bom prenúncio do que estava por vir. (Aqui)

“The Man Who” (1999) – Travis

Quando ninguém mais esperava que o Britpop ainda rendesse alguma coisa, o Travis atinge o pop perfeito em seu segundo trabalho, arrebatando multidões e a crítica por onde passava. Belas melodias, muitos violões, refrões escancarados e um vocalista carismático fizeram a fama do Travis por festivais mundo a fora, no que foi um dos melhores momentos da década. Nomes como Paul McCartney e Noel Gallagher foram alguns dos que caíram de amores pela banda. E não deu outra: para irem do “Lado B" para o “Disk MTV” foi uma questão de meses. (Aqui)

domingo, 15 de maio de 2011

Cinco discos pra entender o Power Pop

A conta é simples: pegue o pop dos Beatles e/ou Beach Boys, mais as jangly guitars dos Byrds e o peso do The Who – eis a fórmula básica do Power Pop. Dependendo do gosto, pode ser que haja mais de um elemento ou de outro, mas no geral é isso aí. Estranhamente, mesmo tratando de temas amenos, a trajetória do Power Pop parece ser marcada pelo destino trágico de alguns de seus maiores expoentes (os suicídios de Peter Ham e Tom Evans, do Badfinger, e o acidente fatal de Chris Bell do Big Star). É certo que o Power Pop nunca esteve nem perto dos holofotes, mas ainda assim ao longo do tempo ele tem conseguido conquistar muito mais do que simples fãs – são verdadeiros cultuadores.

“Straight Up” (1971) – Badfinger

O Badfinger foi forjado na Apple Records, a gravadora dos Beatles, uma das maiores usinas de música pop da história (talvez perdendo só para americana Motown). Com a produção de George Harrison, o disco trás desde canções com um punch mais rocker (Baby Blue, Sometimes) até baladas perfeitas (The Name of the Game, It’s Over), provas de que o Badfinger entendeu bem as lições dos heróis dos anos 60. (Aqui)

“#1 Record” (1972) – Big Star

Patronos do Power Pop ao lado do Badfinger, o Big Star tinha uma linha mais próxima ao folk e ao country, mas sem desprezar o que de melhor saíra da ilha da Rainha. Interpretações emocionadas marcam esse disco que se tornaria um dos mais influentes nas décadas seguintes, fundamental para o REM, Replacements, Tom Petty e pra quase todo college rock do início da década de 80. (Aqui)

“20/20” (1979) – 20/20

O nome já entrega: 20/20 é o nome de um disco dos Beach Boys. Mas aqui não há nada muito ensolarado, apesar das ótimas vocalizações e dos refrões grudentos. O 20/20 faz parte de uma leva de bandas que atualizou o Power Pop à realidade da New Wave, que já rolava por aquela época. The Shoes, The Records e The Knack também se encaixam nesse pessoal. (Aqui)

“Girlfriend” (1991) - Matthew Sweet

Matthew Sweet talvez seja um dos maiores entusiastas do legado de Chris Bell do Big Star, mas suas influências não se restringem a ele. Com um pé no rock alternativo, que emergiria com força inédita nos anos 90, e o pensamento em Neil Young (herói daquela geração, um grunge avant la lettre), Sweet se tornaria um nomes mais respeitados do Power Pop, e ao lado dos Posies e do Teenage Fanclub, seria um dos grandes representantes do estilo naquela década. (Aqui)

“The Alternative to Love” (2005) - Brendan Benson

Muita gente passou a conhecer Brendan Benson após sua parceria com Jack White nos Raconteurs, mas das suas produções o que merece destaque mesmo é seu trabalho solo. Benson não tem limites, é aberto o bastante para envolver de Paul McCartney a The Cars, de REM a The Who, se revelando um dos compositores mais inspirados da nova geração. Em sua ainda curta discografia, Brendan Benson já pode se dar ao luxo de ter alguns discos no mínimo imperdíveis. (Aqui)

sábado, 30 de abril de 2011

"Music Of Lennon & McCartney"

Este é um post diferente (mais um?). Nas minhas andanças pelo Youtube, descobri este especial chamado "Music Of Lennon & McCartney" que eu nunca tinha ouvido falar. Neste show, apresentado pelos próprios, canções da dupla são executadas por artistas mais variados (cantores pop, de jazz, até músicos clássicos/eruditos). Dentre tantas coisas impressionantes, está o fato de que este especial foi produzido em 1965, apenas dois anos depois do início oficial da carreira da banda, o que mostra o quanto eles já eram influentes àquela altura. Também são mostradas versões em outros idiomas (até em japonês!) e claro, a banda tocando alguns dos seus hits eternos (Day Tripper, We Can Work It Out). Enfim, mais do que um achado, isso é um documento. (Detalhe pra declamação de Peter Sellers no final da última parte, só isso já paga...)















domingo, 27 de março de 2011

A dor de Doralice

Doralice nunca mais esqueceria aquele olhar de Ramon no dia em que, na frente dele, deixou a toalha cair de propósito. Era a oportunidade perfeita, os dois sozinhos na casa, ela saindo do banheiro, ele passando pelo corredor. Quando se preparava para abrir a porta, Doralice sentiu as passadas das botas vindo casa a dentro e, num cálculo perfeito, já soube onde ele estaria, qual o lugar e o instante preciso, do alvo da sua nudez. Mas quando a porta se escancarou, e seus olhos se bateram com os dele, ela nem com todo o seu pessimismo poderia esperar um olhar como aquele, tão compassivo, tão sereno, quase paternal. Ainda molhada do banho, e também de suor, e também do calor dos seus frêmitos, só restou a Doralice vencer a vertigem e se abaixar para pegar a toalha, quando ele disse “opa” e passou.

E depois ela sentiu raiva. Sentada na cama, penteando o cabelo com força, Doralice perguntava-se o que houve de errado, porquê ela sabia que com ele não tinha nada de estranho. Foi pai aos 16 anos, e hoje solteiro, dificilmente passa um fim de semana sozinho. Mas pra ela não soltava nada. Nem uma olhadela sequer, nem um mínimo tremor, nem um fôlego a menos, e olhe que Doralice não precisaria de muito pra ter isso. Ainda mais quando ela forçava, recostava-se, preocupada em cobrir só o mínimo para não ser pega descomposta caso chegasse algum estranho. Seu marido, Euler, irmão de Ramon, lhe dava a cada dia a certeza de que ela era realmente como se via: perfeita. Da porta pra rua ele era uma implicância só, vigiava, enfastiado, mas em casa, entre os parentes, nem ligava, e pode ter sido essa abertura, essa proximidade toda, que a fez enxergar o homem naquele seu cunhado.

Ser por ele subjugada, provar o seu gosto, não se tratava de uma molecagem mesquinha, inconseqüente. Ela não era carente, não era frustrada, tudo tinha mais a ver com paixão mesmo, um gostar arrevesado que pulula quase como uma dor na sua carne - era uma vontade cega de se alegrar na alegria dele, daquele homem. Foi com esse sentimento que soltou a toalha, sem preparação, num repente febril, e ali, totalmente indefesa, levou um maldito coice de consideração. “Vai ver ele tem caráter, só pode”, pensava, revoltada.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O que está acontecendo? (II)

Continuando a conversa do post anterior, agora três discos nacionais.

Bárbara Eugênia - Journal de BAD (2010)

O disco de Bárbara Eugênia é a prova de que ainda dá para esperar alguma coisa da MPB. Seria tentador chamá-la de “salvação da música brasileira”, mas não vem ao caso, e mesmo que ela fosse, ela jamais seria reconhecida como tal. Primeiro porque seu disco é desencanado demais, amplo demais, para fazer parte do universo tacanho que a MPB se tornou. Sem se prender a nada, sem prestar reverência a medalhões, Bárbara envolve rock, chanson francesa, pop (porquê não) e uma brasilidade natural que lhe colocam (felizmente) fora de qualquer repertório de praça de alimentação e/ou barzinho. Em “Journal de BAD” não vemos uma candidata a diva fazendo o tipo “sou sapata, adoro o Caetano” nem muito menos uma pseudo-sambista que nem sabe pra que lado fica o morro. Bárbara é cantora e ponto. Sincera, honesta, e com aquele jeitinho de quem não está fazendo força pra agradar ninguém. Resista a tanto charme, se for capaz. (Aqui)


Lulina - Meus Dias 13 (2010)

Desapego. Essa palavra pode sintetizar bem o trabalho da pernambucana Lulina. Ouvir “Meus dias 13” é também uma experiência de desapego à tudo o que se considera “normal” na música pop. Mas não que Lulina seja experimental ou hermética, pelo contrário: sua música é de uma simplicidade que chega a ser comovente. Suas temáticas oníricas, e até um tanto lúdicas, encontram a embalagem ideal num som lo-fi-semi-caseiro que não é uma opção descolada para mascarar a falta de talento. A sonoridade pode ser pé no chão, mas Lulina usa de poucos recursos para criar universos e criaturas como uma criança que faz de uma peça de Lego um cruzador intergalático. Ao mesmo tempo que em não se preocupa com o apuro formal em favor de uma espontaneidade quase viceral, intuitiva, plena de liberdade, Lulina consegue ser desapegada o bastante com a própria arte para ir atrás de parceiros musicais na Internet. Pelo visto, Lulina tem o que a ensinar a muitos aspirantes a astros. (Aqui)


Dalva Suada - EP (2010)

O Dalva Suada faz um som sem frescura. A base é o Stoner, de guitarras pesadas, sempre em primeiro plano, e ritmos tensos, ora acelerados, ora arrastados. Mas a música deles não tem nada de derivativa - eles vão além do estilo cunhado pelo Queens Of Stone Age e agregam elementos de Acid Rock, Psicodelia, até blues. Por mais que as principais referências sejam sons de fora, dá pra sentir nas letras e no som do Dalva Suada o calor bem típico de João Pessoa, o glamour decrepto dos personagens do Varadouro, a malícia dos bares coloridos da rua da Areia. Com um vocalista carismático e contando com músicos experientes, o Dalva Suada – ao lado do Violet, Nublado e Burro Morto – é uma boa mostra de que a Paraíba está se tornando um lugar ao qual se deve ficar atento nos próximos anos. (Aqui)

domingo, 23 de janeiro de 2011

O que está acontecendo? (I)

Este é um post diferente. Ao invés de apresentar um disco, serão três, e novos, recentes, para que ninguém ache que este blog só vive passado (será que alguém pensa isso? :P).

Smith Westerns - Dye It Blonde (2011)

O Smith Westerns é uma banda que se pode chamar de indie, mas de forma nenhuma se trata de um indie covarde, que se esconde atrás de barulho e rótulos para disfarçar com “traços de estilo” a falta de competência para fazer coisas decentes. Em “Dye It Blonde” vemos a banda deixando meio mundo para trás unindo duas instâncias tidas como conflitantes (o indie e o pop), sem apelar nem forçar nada. No disco eles trazem uma irresistível mistura de vocais dream-pop, guitarras glams, melodias anos 90 e refrões altamente ganchudos. Mas o fato de a banda não ter medo de abusar dos famosos acordes certos na hora certa não implica numa adesão ao pop gratuito, simplório, como também não é simplório o frescor juvenil (foi mal o clichê) sentido em cada faixa. À primeira vista, a sonoridade frágil me lembrou um pouco o The Thrills (o que não é nada ruim). Fácil, fácil um dos melhores do ano. (aqui)

Blitzen Trapper – Destroyer of the Void (2010)

Talvez o nome mais injustiçado de 2010. Mesmo não figurando entre os melhores lugares das listas de melhores do ano, não é preciso muito esforço para notar que o Blitzen Trapper lançou um disco consistente, bem resolvido, redondo, que no final se mostra no mínimo impressionante. Com influências que se estendem principalmente pelos anos 70 (George Harrison, Electric Light Orchestra, Neil Young), “Destroyer Of The Void” consegue fazer jus aos seus heróis sem em nenhum momento parecer derivativo nem cair no pastiche. Muitas vocalizações, violões presentes, guitarras bem colocadas e uma extrema versatilidade ao envolver elementos de country-rock, hard-rock e progressivo fazem esse um disco ainda a ser descoberto. (aqui)

Tennis - Cape Dory (2011)

Vocal feminino, um tanto fofinho, palminhas, uh uh uh’s, guitarras limpas, batidinhas anos 60, aquela coisa meio Girl Group, e muito, mas muito amor... Pois é, colega. Se essa configuração lhe apraz, saiba que “Cape Dory” vai fazer seu coração de manteiga evaporar de uma vez. Mesmo fiéis a este universo que se convencionou chamar de Twee-pop (pense na banda que os passarinhos de Branca de Neve poderiam formar), o Tennis consegue variar com extrema naturalidade dentro de sua sonoridade característica. Dessa forma, temos desde baladas com jeito de bailinho, até canções com um quê mais dançante, capazes de fazer um fã do Câmera Obscura se sentir totalmente em casa. Só o vocal da moça, o jeito que ela canta, já paga o disco. (aqui)

Em breve a segunda parte.