terça-feira, 26 de maio de 2009

O desaparecido

Não eram raras as vezes em que lhe vinham as lembranças desfiguradas do dia em que ficou completamente nu, dentro da igreja, no meio da missa, e não fora notado. “Já desapareci”, ele murmura, e apesar de lhe julgarem esclerosado, essas palavras estavam bem fundamentadas nos fatos mais insólitos que já lhe acometeram, e dos quais ele recorda pouca coisa.

O episódio da igreja fora o mais grandioso de uma seqüência que começara algumas noites antes. Seu Adenor, um contra-sogro de seu pai, homem vivido e de pouca conversa, pensando na sua proteção, lhe entregou um papel com uma oração cujo poder era de tornar invisível por um dia quem a proferisse. Poderia recorrer a ela, sempre que precisasse, ela não falharia, lhe garantiu o homem. Ele não acreditou muito, mas guardou o papel mesmo assim. Na noite em que toda a cidade procurava um ladrão nos matagais, ele resolveu testar, sem muita fé, se as palavras funcionariam. Mas deu certo. Andou por entre os homens, passou perto dos cães, zombou na cara do delegado, dos policiais, riu até não poder mais, e nada, era como se não existisse.

Intrigado, carecia de uma prova maior da eficácia do intento. Temeroso mas decidido, resolveu caprichar na ousadia e pulou o muro do convento. Logicamente, uma presença estranha e masculina naquele ambiente logo seria alardeada, o que não aconteceu. Ficou o dia por lá, passeou pelas capelas, violou o quarto das madres, espiou o banho das noviças, roubou fruta na cozinha, e mais uma vez, embasbacado, percebeu que não lhe percebiam.

Mal dormiu àquela noite de tão desvairado. Feitiço, magia, seja lá o que fosse, funcionava e muito bem. Foi naquela madrugada febril que lhe veio a idéia, a que selaria de vez a certeza, a que finalmente colocaria o artifício no limite. Foi no domingo seguinte, o sino batia para a missa das cinco, e ele saiu. Já na praça foi tirando os sapatos, soltou o cinto, largou a camisa, abandonou as calças e assomou na nave da igreja, nu, com o padre e a procissão dos coroinhas logo atrás.

Era a vitória final, o êxito pleno, a glória ali, com o corpo desnudo, em pleno altar, diante das beatas, invisível a todos, quiçá até a Deus. Estava tão embriagado com aquele poder que esqueceu o papelzinho com a oração dentro do bolso da calça, que a sua mãe colocou para lavar, apagando as frágeis palavras de grafite que ele não tinha decorado. Foi um trauma, uma tragédia, que o fez sumir para sempre, e colocou um lunático no seu lugar.