domingo, 23 de janeiro de 2011

O que está acontecendo? (I)

Este é um post diferente. Ao invés de apresentar um disco, serão três, e novos, recentes, para que ninguém ache que este blog só vive passado (será que alguém pensa isso? :P).

Smith Westerns - Dye It Blonde (2011)

O Smith Westerns é uma banda que se pode chamar de indie, mas de forma nenhuma se trata de um indie covarde, que se esconde atrás de barulho e rótulos para disfarçar com “traços de estilo” a falta de competência para fazer coisas decentes. Em “Dye It Blonde” vemos a banda deixando meio mundo para trás unindo duas instâncias tidas como conflitantes (o indie e o pop), sem apelar nem forçar nada. No disco eles trazem uma irresistível mistura de vocais dream-pop, guitarras glams, melodias anos 90 e refrões altamente ganchudos. Mas o fato de a banda não ter medo de abusar dos famosos acordes certos na hora certa não implica numa adesão ao pop gratuito, simplório, como também não é simplório o frescor juvenil (foi mal o clichê) sentido em cada faixa. À primeira vista, a sonoridade frágil me lembrou um pouco o The Thrills (o que não é nada ruim). Fácil, fácil um dos melhores do ano. (aqui)

Blitzen Trapper – Destroyer of the Void (2010)

Talvez o nome mais injustiçado de 2010. Mesmo não figurando entre os melhores lugares das listas de melhores do ano, não é preciso muito esforço para notar que o Blitzen Trapper lançou um disco consistente, bem resolvido, redondo, que no final se mostra no mínimo impressionante. Com influências que se estendem principalmente pelos anos 70 (George Harrison, Electric Light Orchestra, Neil Young), “Destroyer Of The Void” consegue fazer jus aos seus heróis sem em nenhum momento parecer derivativo nem cair no pastiche. Muitas vocalizações, violões presentes, guitarras bem colocadas e uma extrema versatilidade ao envolver elementos de country-rock, hard-rock e progressivo fazem esse um disco ainda a ser descoberto. (aqui)

Tennis - Cape Dory (2011)

Vocal feminino, um tanto fofinho, palminhas, uh uh uh’s, guitarras limpas, batidinhas anos 60, aquela coisa meio Girl Group, e muito, mas muito amor... Pois é, colega. Se essa configuração lhe apraz, saiba que “Cape Dory” vai fazer seu coração de manteiga evaporar de uma vez. Mesmo fiéis a este universo que se convencionou chamar de Twee-pop (pense na banda que os passarinhos de Branca de Neve poderiam formar), o Tennis consegue variar com extrema naturalidade dentro de sua sonoridade característica. Dessa forma, temos desde baladas com jeito de bailinho, até canções com um quê mais dançante, capazes de fazer um fã do Câmera Obscura se sentir totalmente em casa. Só o vocal da moça, o jeito que ela canta, já paga o disco. (aqui)

Em breve a segunda parte.

sábado, 18 de dezembro de 2010

"O dia em que faremos contato será o primeiro do resto das nossas vidas"

Mary é uma menina tímida e solitária que mora na Austrália e vive negligenciada pelos pais. Pais, aliás, que passam longe de serem exemplos edificantes. Max é um solteirão de 40 e poucos anos que mora num apartamento no subúrbio de Nova York e tem muita dificuldade de se relacionar com quem quer que seja.

É a partir do encontro desses dois personagens que a animação Mary & Max (2009) se desenrola. Após pegar o nome dele numa lista telefônica, Mary decide escrever para o dono daquele nome engraçado (Max Horowitz), com quem passaria a se corresponder num ritmo cada vez mais intenso. Apesar de viverem a mesma solidão, de carregarem uma certa fragilidade diante do mundo, e de não serem exatamente exemplos de pessoas fortes, vencedoras e bem resolvidas, aos poucos um vai encorajando outro a confrontar os próprios traumas e medos de uma forma inédita. De repente, Mary e Max vêem suas rotinas sendo alteradas para sempre por aquela coisa que eles nunca haviam conhecido: a amizade.

Naquelas trocas de cartas, um vai percebendo que tinha muito a aprender com o dia a dia do outro, fascinados à princípio com suas realidades tão diferentes mas que aos poucos se revelam dolorosamente semelhantes. E é na revelação da intimidade que está a grande sacada do filme: espertamente ambientado em meados dos anos 70, numa época bem anterior a ICQ, mIRC, e MSN, o seu tom de “Era uma vez” o torna quase um conto de fadas moderno, sobre contatos virtuais. Assim como alguém que entra num bate-papo e se depara com uma pessoa com interesses semelhantes, e daí passa a trocar confidências num Messenger, Mary e Max atingem um nível de cumplicidade que jamais tinham alcançado com pessoas com quem conviviam. É a crônica de uma idiossincrasia do ser humano que a Internet só amplificou: muitas vezes é mais fácil se abrir com alguém que está a quilômetros de distância do que com aqueles que dormem sob o mesmo teto que você.

Virtual ou não, é sobre o contato, sobre empatia e a falta dela que Mary e Max está apoiado. Ao contrário de outras animações, o grande atrativo do filme está na história, na narração - comovente do início ao fim -, e nem tanto nas cores nem no visual, embora eles sejam elementos fundamentais para entender a falta de graça da vida dos protagonistas. Mas ao mesmo tempo em que o mundo se mostra hostil para ambos, o filme faz questão de lembrar que para quebrar a casca do isolamento é só questão de dar primeiro passo. Ou, no caso, de mandar a primeira carta.


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Nem tudo passa

Cantor: George Harrison
Disco: All Things Must Pass
Lançamento: 1970

Nesta semana foram lembrados os nove anos da morte de George Harrison, “the quiet beatle” (o beatle quieto), também conhecido como “o beatle místico”. Por mais que essas alcunhas tivessem algum fundamento, ele sabia que poderia ir muito além delas. E foi, em All Things Must Pass (1970).

O disco alterna momentos pesados (Wah-Wah, Art Of Dying, What Is Life), com baladas (I'd Have You Anytime, Isn't It a Pity, All Things Must Pass), peças acústicas (Apple Scruffs) e, claro, hinos cheios da aura místico-religiosa que virou uma característica sua (Hear Me Lord, My Sweet Lord). O disco mal chegara às lojas e logo se tornou número 1 das paradas (o primeiro de um beatle solo a atingir este posto), num sinal claro do potencial que ele sempre soube que tinha.

Sua capacidade ficara evidente no último disco da banda, - Abbey Road (1969) - que teve praticamente suas vendas puxadas pelas suas duas músicas lá presentes (Something e Here Comes The Sun). E era esse espaço reduzido nos discos (no máximo 2, 3 músicas, e às vezes um lado b num compacto) que vinha lhe deixando cada vez mais insatisfeito. Mesmo emplacando hits nos últimos discos da banda, George não via por onde quebrar a hegemonia da dupla que liderava o grupo. Quando se separaram, George tinha tanto material guardado que tudo acabou rendendo um LP triplo, que a despeito do tamanho, foi aclamado pela crítica e público. Hoje em dia é quase consenso entre os fãs que All Things Must Pass é o melhor trabalho solo de um beatle.

Este grande disco (não só no tamanho), com grandes músicas, contou também com grandes participações: Klaus Voorman (artista plástico que vez a capa do Revolver (1966), e também tocava baixo), Billy Preston (organista que participou do Let It Be (1970)), Ringo Starr, Phill Spector na produção, além de Bob Dylan como parceiro em algumas músicas. Apesar de dizer na música título “Tudo deve passar/ Nada na vida pode durar pra sempre/ Então, devo seguir meu caminho/ E encarar um novo dia” (numa referência ao fim dos Beatles, toda a histeria causada por eles, e a sua carreira solo), George fez um disco que dificilmente ficaria no passado – sua beleza, perene, é o registro do melhor período de um dos maiores músicos que a música pop já viu.

- I'd have you anytime

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

De silêncio e som

Se você se considera um fissurado em música, que cultua músicos favoritos como santinhos num altar, que acompanha lançamentos, gosta de discutir sobre o estilo de uma banda, que desbrava a internet em busca de um link impossível, coleciona álbuns (Mp3, CD, LP), gasta boa parte dos seus dias lendo, pensando ou escrevendo sobre música, então você certamente vai gostar muito de Juliet, Nua e Crua (2009), de Nick Horrnby.

Mas se não faz nada disso, a chance de gostar desse livro também é grande. Digo isto porque o livro não trata exatamente de música, não é voltado apenas para aficionados, seria até um erro achar isso. O seu ponto de partida é a adoração de Duncan por Tucker Crowe, um músico relativamente famoso nos anos 80 que decide abandonar a carreira de uma hora para outra, justo quando alcançava o seu melhor momento com um disco que acabara de lançar – Juliet.

A partir daí vamos conhecendo pouco a pouco o caráter tanto de Tucker, de Duncan, e de sua esposa Annie (quase obrigada pelo marido a embarcar no culto ao cantor), até chegarmos ao ponto em que esses três personagens acabam se envolvendo num conflito que vai além do gosto pela música. Porque a grande matéria-prima de Juliet, Nua e Crua não são os discos de Tucker nem as bobagens que um fã é capaz de fazer: é a própria vida, as decisões que se toma (e as que não se toma), e a forma como lidamos com as suas conseqüências. Como pano de fundo, está a música, a arte, e uma breve discussão sobre o que é maior: a vida, a arte ou artista. Assim como em Alta Fidelidade (romance que deu projeção a Hornby, até virou filme) essas questões surgem em meio à cisões de relacionamentos e descobertas, tudo isto carregado de referências pop e de um fino humor auto-depreciativo (bem inglês, por sinal).

Imprevisível sem ser forçado, econômico sem ser simplório, Juliet, Nua e Crua atinge em alguns momentos uma emoção intensa justamente por aquilo que não é dito, e é aí que Nick Hornby se revela um escritor altamente sagaz: por ser tão sensível à música, ele sabe que às vezes são esses silêncios que dão todo sentindo àquilo que ouvimos.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Pedras, catedrais: coração

Às vezes nem parecia, mas ela tinha defeitos. Nada muito censurável: impaciências que eram resquícios da criança mimada que fora, e que, por outro lado, denunciavam um senso prático quase sobre-humano. No meio de sua essência indômita, de força da natureza, essa era uma das coisas mais misteriosas. Enquanto ele se debruçava sobre laboriosos exames mentais em busca de alguma solução que já lhe parecia impossível, ela chegava como que num condão e com três palavras simples resumia tudo, mostrava o caminho sem tirar os olhos da novela. Era ela, com sua alegria descompromissada, com sua extrema transparência, com seu jeito de permanente bonança, e o cuidado em estar sempre entre os seus, que funcionava como um antídoto contra o amargor do seu pedantismo intelectual, dos seus questionamentos difusos que só ganhavam foco com o olhar dela – sempre radiante, encorajador.

Com o tempo, sem nem perceber, ele começou a se divertir com certas frivolidades dela, e assim se via obrigado a olhar o mundo com menos rigor e mais leveza, respirando de pulmão cheio, livre dos próprios pesos, sentindo a vida como uma brisa de mar no rosto. Olhava pra ela e via coisas que nem lembrava mais que existia: doação, generosidade, alegria com a alegria alheia. Por baixo de toda aquela sua indiferença mal fingida, daquele seu orgulho inútil, ele sabia que era alguém melhor perto dela, e que ter convivido com aquela menina que falava com cachorros talvez fosse a única coisa de que se orgulhava na vida.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Em defesa da tropa, ma non troppo

Praticamente todas as críticas de Tropa de Elite 2 que eu vi por aí fizeram questão de destacar o conteúdo do filme, a denúncia do estado de coisas, a podridão do sistema, etc, etc. Não sei se por pressa, displicência ou falta de conhecimento mesmo, o pessoal tem se prendido a tudo o que o filme tem de mais óbvio, que é o que qualquer pessoa com o mínimo senso crítico pelo menos já suspeita. Dá impressão que a maioria não entendeu que Tropa de Elite 2 não se trata de um panfleto (à moda dos que os russos faziam, com maestria). Não nego que o tema de Tropa é pungente, atual, faz pensar, mas não há pretensões heróicas ali (como na maioria dos filmes do Cinema Novo). Se o diretor José Padilha tivesse em vista qualquer motivação política, se quisesse usar o filme para dar uma sacudida na audiência, ele o teria lançado antes do primeiro turno das eleições, no calor da campanha. A projeção e a polêmica estariam garantidas.

A escolha desse momento para a sua estréia trás um recado claro: Tropa de Elite 2 é acima de tudo um filme de ficção e deve que ser visto como tal. O que faz dele imperdível não é tanto o assunto, a reflexão que ele trás (e seus produtores sabem disso). Mais do que dizer coisas, ele soube dizer as coisas, e se pegar somente às tais coisas é desprezar o filme muito bem realizado e maduro que ele é. E isso dá pra perceber no fato de ele ser um filme mais “parado” em relação a primeiro, e mesmo assim não perder ritmo, nem se tornar enfadonho. Sem uma história inteligente e uma equipe afiada, não dá pra conseguir isso nunca.

Mas nada disso implica em preciosismo técnico. Da mesma forma que o anterior, não há tentativa de reinvenção, de subversão, como também ele não cai no comodismo da fórmula das novelas transpostas pro cinema. É um filme absolutamente limpo, em relação a efeitos ou apelos mais cosméticos (trilhas emotivas, explosões, ângulos estranhos). É cinema sem frescura.

Um dos grandes méritos da franquia Tropa de Elite, reforçado agora no segundo filme, é a idéia de se procurar um formato brasileiro para filmes de ação, policiais, de conspiração. Já está constatado que o modelo de filme de ação americano muda de tempos em tempos, e ir na onda dele hoje pode dar num filme datado amanhã (lembra de “American Ninja”?). E mesmo que o Brasil mude um dia, Tropa de Elite 2 não corre esse risco.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Além dos detalhes

Cantor: Roberto Carlos
CD: S/T
Lançamento: 1971

Em 1971, a Jovem Guarda já era algo tão distante que parecia nem ter existido. A chegada dos tropicalistas havia instaurado uma verdadeira crise naquele que tinha sido o maior fenômeno musical (e jovem) que o país tinha visto. No olho do furacão, todo mundo teve que rever a própria carreira e, se preciso, corrigir a rota se não quisesse cair num implacável anacronismo. Nem Roberto Carlos, já proclamado rei da Jovem Guarda, seria poupado.

Mas Roberto estava acostumado a se reinventar. De roqueiro a bossanovista e depois novamente roqueiro, ele se tornaria o maior expoente da Jovem Guarda, quase um líder do movimento. A vitória no Festival de San Remo, em 1968, marcaria a nova transformação de Roberto Carlos, que agora investiria cada vez menos nas guitarras, dando espaço a um romantismo mais sofisticado e a uma intensa melancolia. Esse “novo” Roberto Carlos conheceria o ápice criativo e de popularidade com o disco de 1971, o que traz o seu hit-supremo: “Detalhes”.

A presença do baladão semi-brega acaba ofuscando um dos discos mais inspirados e versáteis do Rei. O blues “Como dois e dois” de Caetano Veloso (que tratava do estado de coisas pós-AI-5) e “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” (homenagem ao próprio Caetano, já exilado) foram mostras de que a Jovem Guarda, na pessoa do seu ídolo maior, não era tão alienada quanto julgava a “MPB de protesto”. O disco também traria algumas de suas bem sucedidas incursões na Black Music (“Eu só tenho um caminho” e “Todos estão surdos”). Outros destaques ficam por conta de um vaudeville irônico sobre o romantismo na sua face mais atávica (“I Love You”), e da sombria “Traumas”, na qual ele relata o acidente que lhe decepou uma das pernas, ainda na infância.

Desprezando tudo que ele fez nos últimos 30 anos e os seus primeiros discos na Jovem Guarda, dá pra acreditar que o verdadeiro Roberto Carlos é aquele que gravou os discos entre 1969 e 1973. Nesse momento, ele teve que se mexer pra procurar um novo caminho criativo quando a Jovem Guarda caducou e assim pôde dar vazão ao que sempre teve dentro de si, sua visão crítica, seu lirismo, e principalmente os seus tormentos. Obviamente nada disso tinha como aparecer em meio à histeria da Jovem Guarda, ficando bem aparente não só nas músicas, mas também nas capas dos discos do período em questão.

- De tanto amor

Morada

Quando os homens chegaram , encontraram Dona Lourdes na cozinha, sentada à mesa. A idosa olhava para o quintal, indiferente às grossas rach...