domingo, 12 de abril de 2009

O cantinho da gente

Entre sonhos bordados
Está a semente
Do que logo será
O cantinho da gente.

Lá vai ser tudo diferente.

Janelas abertas
Um cachorro boboca
E um tempo que não se sente.

Lá, no cantinho da gente.

Também não terá saudade
Nem outra cidade
Só a liberdade
De estar sempre perto.
Vai dar tudo certo
E daqui pra frente
Eu só vou pensar
No cantinho da gente.

domingo, 1 de março de 2009

Paixão, Loucura e Regresso de Cazuza, a voz do Amazonas ou Encanto de índia abandonada não falha

“Você ainda volta”, gritou Butúie, mostrando a Cazuza o vudu espetado. Nos dez anos em que ele foi a atração principal do maior vapor do Amazonas, a cabocla Butúie fora o antídoto de realidade para as suas noites desvairadas. Numa dessas noites, Cazuza conhecera a moça que o fez abandonar um contrato vantajoso e o amor da índia. Era uma jovem viúva, que corria o país em busca dos encantos que o casamento prematuro lhe privara. Só lá, no alto do Amazonas, é que finalmente a moça de fino trato e rosto fidalgo daria cabo de suas andanças. Entregou-se ao cantor e ele a ela, e daí para a fuga não passaram três dias. Combinaram tudo com todo o cuidado, mas ainda assim quase foram pegos. Mal tinha ele entrado no bote para cruzar para outra margem, onde estava o porto, quando Butúie dera com a bagunça de roupas no quarto e partira com seus primos em busca do rastro dele. Cazuza remava feito louco quando viu a índia com seu séquito sair da mata e surgir na margem de onde partira. Antes de tocar o porto, ele ainda ouviu grito e viu na mão dela o vudu com o espeto enorme. Com um estremecimento, Cazuza compreendeu que o boneco era ele e dali por diante estaria enredado pelo feitiço da cabocla. No porto, Cazuza encontrara a viúva, com quem voltaria a sua cidade natal. Sem saber, tomavam o destino mais alucinado das suas vidas.

Coisa que talvez a viúva já pressentisse. Via algo de irreal no alvoroço de cruzar o país de volta para a cidade dele, parecia capricho infundado, veneta sem futuro, e foi mesmo. Exatos dois anos depois da fuga, a população assistia ao espetáculo de Cazuza sendo jogado em cima de uma caminhonete, todo amarrado, para ser levado ao sanatório da capital. A sua cabeça já vinha saturada pelos dez anos de noitadas e bebedeiras a bordo, e o juízo cedeu de vez quando retomou com toda força a antiga vida de cabarés que tinha antes de ir para a Amazônia. Logo que chegou, derramou todo o dinheiro que trouxera em farras em prol dos velhos amigos e dos novos conquistados. Não tinha medida, dava tudo, as camisas de seda, de puro linho, os folheados; até os perfumes franceses ele deu às putas da cidade inteira.

A viúva com quem se casara tolerava tudo com uma serenidade incomum. Tinha lhe conhecido nessa vida, e não poderia exigir que fosse diferente. Entretanto, quando Cazuza começou a dar sinais do colapso, ela foi a primeira a desistir dele. “Não tenho obrigação de agüentar doido”, disse ela à mãe de Cazuza, antes de entrar no trem. Agora, era ela, a mãe, que era a última a permanecer vendo a caminhonete sumir na distância. Nunca mais veria o filho novamente. Naquele momento de abandono, lhe veio a lembrança do dia em que levou os filhos, ainda pequenos, para ver o Padre Cícero. Quando chegou a vez de abençoar Cazuza, o padre que chamavam de santo soltou um murmúrio que ela acabou ouvindo. “Cabeça dura”, disse o padre, e agora ela não sabia se aquelas palavras tinham sido o prenúncio de uma vida inteira, ou uma sina que ele carregava desde então. Mas palavra por palavra, as da cabocla filha de feiticeiros provariam ser mais fortes. Depois de diagnósticos apressados e exames incompletos, Cazuza foi considerado são e saiu do sanatório pela porta da frente. Levava a amizade dos médicos e na cabeça só a vontade insone de voltar para o Amazonas e reencontrar a sua índia de sempre.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Sinal dos tempos II

O tempo parou por exatos três segundos quando o primeiro semáforo instalado na cidade se soltou da base raquítica onde estava preso e atingiu em cheio a cabeça do Prefeito Iguaraci. Foi daquela forma bisonha que uma era chegara a termo diante dos olhos de toda uma cidade. Tão grande o alívio que a pancada causara que a população metera-se num estupor sem precedentes em suas histórias pessoais e coletivas. Enfim, não tinha mais volta, finalmente aqueles tempos de mandados e desmandos, de invencionices e decretos, havia se encerrado de uma vez por todas. E tudo graças àquela obra do próprio prefeito, que num de seus delírios febris, decidiu colocar um semáforo na praça de uma cidade que só tinha dois automóveis, fora o ônibus que fazia a linha para a capital.

Iguaraci se dizia um visionário, um amigo do progresso. De fato, ele era até bem moderno numas coisas, e totalmente atávico em outras. Suas modernices começavam nas duas mulheres que mantinha, sem contar uma terceira, de quem era desquitado. Mas em meio a tanto futurismo, seus arroubos despóticos e o prazer com o poder pleno lhe colocavam no mesmo patamar de um dono de mercearia. Pois foi na capital que os semáforos revelaram-se para Iguaraci como um sintoma cabal do progresso, mais do que um amontoado de prédios, mais do que o rádio. “O ordenamento do trânsito não é só uma questão de conforto: é uma necessidade dos novos tempos”, passou dias repetindo para si a frase como se fosse uma oração com poder de lhe tornar, quem sabe um dia, deputado. Após esvaziar os cofres da prefeitura, mandou instalar o bendito sinal numa das ruas que margeavam a praça da cidade, mais habitada por carroças de jumentos do que qualquer outra coisa no mundo.

No dia da inauguração, Iguaraci sonhou que estava preso num cubículo escuro, agouro que não deu ouvidos. Às exatas três horas da tarde, o prefeito encerrou o discurso e fez sinal para o rapaz responsável pelo motor a diesel que fornecia energia elétrica pela cidade. O moleque mexeu nas traquitanas, puxou as alavancas, ligou os interruptores e o semáforo não acendeu. Irado, Iguaraci correu lá no maquinário e, vendo que o diesel do motor acabara na noite anterior, tratou de improvisar outro discurso, um apêndice que fingiu ter esquecido, pontuado por achaques de desespero e muxoxos infantis. E corria de um lado para o outro, atarantado, gesticulando, pulando, querendo convencer mais a si mesmo do que a cidade de que a instalação do semáforo não tinha sido uma cagada total. Foi nesse momento que se ouviu um tinido em meio aos urros patéticos do prefeito e, como num filme mal montado, o semáforo que estava lá em cima estava agora cá embaixo, sobre a cabeça esmagada do homem com o dedo em riste. Os assessores, confusos com o fim prematuro da solenidade, só tiveram iniciativa suficiente para atalhar com o encerramento da inauguração previsto no cerimonial. “Viva o prefeito”, gritaram. E a cidade, numa salva de palmas, respondeu: “Viva!”.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Sinal dos tempos

O mundo está virando um balneário em dia de domingo: quente, lotado, barulhento, e com um cheiro irritante de protetor solar.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O encontro

Antes de entrar no ônibus, Camila se deteve para olhar ainda mais uma vez para Ricardo. Era um típico olhar de adeus, maciço, profundo e silente, que durou a infinidade de uns poucos segundos. Tudo só aconteceu graças àquele encontro universitário, e agora, estavam para sempre condenados a levarem o peso da lembrança daqueles três dias fugazes. Já na ansiedade da chegada, os dois se bateram enquanto cada um ia para o seu dormitório. Na manhã seguinte, na saída de um auditório, se viram novamente, meio de longe, e o sorriso mútuo foi inevitável. À noite, acabaram ficando próximos durante o show de forró que acontecia depois do dia de palestras. Sem disfarçar, ela começou a rir do jeito que ele se balançava, e assim abriu espaço para a abordagem.

“Você sabe dançar isso?”, ele abriu os braços, e ela se aproximou dizendo que ele estava quase lá. Ela tinha morado uns anos no Ceará, e aquele ritmo não lhe era totalmente estranho. No fim, riram mais que dançaram, e daí não se desgrudaram mais. Parecia que aqueles dois dias não passariam nunca, e eles não teriam mais que voltar para as suas vidas onde a ausência do outro seria, agora, quase intolerável.

Mas o dia da partida chegou, e naquelas horas inflamadas, acabaram se beijando com a relutância de quem sabe que por mais que ande, vai dar mesmo é com a cara na parede. Só que Camila tinha um pé na inconseqüência, “toma meu telefone, a gente mantém contato”, e ela anotava, apressada, atrapalhada com as lágrimas que já queriam cair. Mas Ricardo, contrariando tudo, inclusive a si mesmo, tratava apenas de colocar pelo menos os seus pés no chão, pois para ele, aquele final de semana não poderia durar para a vida toda. Era melhor achar que Camila tinha sido só um devaneio, um sonho incomum, um fôlego frenético encarnado numa morena ruiva que não tinha medo de cruzar o país dentro de um ônibus, nem muito menos de dançar com um estranho. Já próximo de casa, Ricardo fazia força para encarar tudo aquilo como apenas uma pista de uma vida perfeita. Uma vida que só teria ao lado da garota perfeita, ao invés da sua noiva, que lhe esperava no mesmo sofá em que viam sempre as mesmas novelas.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

É desespero, é desespero...

Eu tento, mas não consigo ficar imune ao frenesi que toma conta de Campina por esses dias. Isto porquê estamos na última semana da campanha para prefeito, que terá o seu desfecho no próximo domingo. Se os ânimos seguirem se inflamando na proporção que vieram até aqui, é capaz de haver morte até a data do sufrágio. As tropas federais já foram acionadas. As casas já estão enfeitadas com a cor simpatizante. Nos bares, nas praças, nas cozinhas, não se fala em outra coisa. Futuro versus passado, novidade versus tradição. É Cabeludo pra lá, é Gordinho pra cá, o filho do Doutor Vital versus o filho do Taxista Zuzu. Os candidatos batem boca na rua, se desafiam. As denúncias pululam. A TV é saturada por um festival de "imagens estarrecedoras", "notícias de arrepiar" e "episódios lamentáveis". A turba vai ao delírio, salivando. As apelações vão chegando a níveis burlescos. O governador se licencia do cargo para apoiar o candidato do seu partido. Os cabos eleitorais rodam a cidade oferecendo quantias em troca dos números dos títulos de eleitor. Os carros de som perturbam a paz dos escritórios. As crianças agitam bandeiras. Os velhos se impacientam. E eu não vejo a hora de chegar a sexta-feira para poder fugir disso tudo.

Campina Grande é diferente de João Pessoa até nisso. Aqui na serra todo mundo meio que vive ligado em 220 volts, é um constante acirramento, todo dia é dia de Treze e Campinense, independente de ter jogo, independente de ser futebol. A própria geografia inspira isso, é toda instável, tem sempre uma ladeira, uma subida forte, uma descida brusca, diferente das emoções planas e sem sobressaltos que tomam conta dos ares da capital. Que é onde eu vou estar neste domingo, mas não sem ficar de olho nos boletins da apuração depois das 17 horas.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Welcome to the jungle

A cara que o senhor Antunes fez na frente do computador foi a coisa mais engraçada que Paulo tinha visto na vida.

- Como você conseguiu isso?

- Digamos que alguém lá em cima gosta muito de mim. Ou alguém lá em baixo, vai saber.

Não dava pra saber mesmo. No dia que fora demitido, Paulo encontrara um celular no chão do elevador. Só uma semana depois, num acesso de tédio, é q foi vasculhar o celular e quase teve um enfarto quando deu de cara com várias fotos de Juliana. As fotos não teriam nada demais se não fossem da filha do seu ex-patrão fazendo um strip-tease em 32 fotos altamente lúbricas. Na hora não viu outra destinação para aquelas fotos: era o que lhe daria seu emprego de volta.

- Não sabia que tinha dom para chantagem. – Disse um amigo.

- Nada. Questão de sobrevivência, saca?

Morada

Quando os homens chegaram , encontraram Dona Lourdes na cozinha, sentada à mesa. A idosa olhava para o quintal, indiferente às grossas rach...