quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A invenção dos anos 80


Joy Division
"Unknown Pleasures" 
1979

Em 1974, o Tangerine Dream lançava “Phaedra”, um dos maiores “clássicos obscuros” da história. O disco consistia basicamente numa grande experimentação com sintetizadores, e na época, dado o estranhamento geral, o líder da banda, Edgar Froese, chegou a declarar que em dez anos todo mundo estaria usando sintetizadores. Em 1977, com “Low”, David Bowie dava início a sua “Fase Berlim”, trazendo para o universo pop sonoridades da cena Kraut Alemã. Uma cena que revelara o Can, Faust, Kraftwerk e o próprio Tangerine Dream. Em 1979, o Clash lançava o seu “London Calling”, a prova final de que o “do-it-yourself” do punk poderia ir além dos três acordes.

É nesse ambiente de fim de anos 70 que surge o Joy Division. Na fria e fumacenta Manchester, uma loja de discos decide investir naquela banda que tinha a urgência punk do The Clash, os climas dos sintetizadores do Kraftwerk, e as temáticas obscuras em contraposição a outra facção emergente da New Wave, o New Romatic. Daí nasceu “Unknown Pleasures”, disco que de cara obteve respeito do público e da crítica. A personalidade perturbada do líder da banda, Ian Curtis, não só foi determinante para a formação da identidade da banda como para outros que ajudaram a criar o som dos anos 80, como The Smiths, The Cure e New Order. 

Além de praticamente inaugurar o Post-Punk, uma espécie de Segunda Geração Romântica dentro do Punk, o Joy Division ajudou a fundar toda uma tradição e uma cena que mais tarde revelaria nomes como Stone Roses, Happy Mondays, Inspiral Carpets e Oasis. Isto sem contar a influência no rock alternativo no outro lado do Atlântico, no qual o REM seria um dos que logo despontaria. Mais de 30 anos depois, “Unknown Pleasures” ocupa merecidamente um lugar entre os melhores álbuns de todos os tempos, influenciando e sendo copiado até hoje. (aqui)

(O primeiro nome do Joy Division foi Warsaw, inspirado na música “Warszawa”, de David Bowie, presente no disco “Low”. Já o nome Joy Division foi inspirado nas divisões militares - divisão de cavalaria, divisão de resgate, etc. A “Divisão de divertimento” – Joy Division – era composta por prostitutas encarregadas de “alegrar” as noites dos fronts. Só isso já diz muito do caráter da banda. Um som enérgico, capaz de divertir, mas que traz em si uma carga gigantesca de traumas e tormentos.)

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Os anos 80 que (quase) ninguém conhece

Frequentemente chamada de “a década perdida”, os anos 80 parecem ser aquela década que todo mundo faz questão de esquecer, e claro que na música não seria diferente. Se de um lado o pop atingia o seu ápice industrial fazendo ídolos como carros numa linha de montagem, do outro o “roque pauleira” com cheiro de laquê chafurdava na breguice do hard metal machão. Pelo meio, ainda se ouvia o New Romantic com suas ombreiras, e mais um monte de vertentes que se apoiavam no som de tecladeiras para evocar uma pseudo-modernidade dançante (era o Synth Pop). Correndo por fora (mas bem por fora meeesmo, e por baixo), o Rock Inglês lá do seu gueto escuro já influenciava o rock alternativo americano com o Pos-Punk, e lançava as bases do que se chamaria de Indie, nos anos 90.

Não era um cenário muito animador, de fato. Muita artificialidade, muita cosmética, muita tecnologia e pouca criatividade. Mas apesar de tudo, de todo o aparente vazio criativo (vencido na década seguinte), os anos 80 ainda escondem no íntimo de suas mais recônditas sombras alguns discos que são verdadeiras pepitas perdidas sob toneladas de escombros de preconceitos. Reconsiderar é sempre um exercício que pode ter resultados surpreendentes, e isso vale também para aquela década tão desprestigiada. Sem mais conversa, abaixo cinco discos dos anos 80 que merecem atenção:


Dexys Midnight Runners - Searching For The Young Soul Rebels (1980)

Talvez um dos discos mais bem gravados da época (ao lado de outros como Ocean Rain, do Echo & The Bunnymen). Partindo por um caminho totalmente diverso do da maioria, longe do senso comum das paradas, os Dexys Midnight Runners fizeram um disco traziam para o ambiente da New Wave os metais do Soul e do Ska, tudo com toques do pop setentista. Um grande disco, pra se ouvir em alto volume. (aqui)


Violent Femmes – Violent Femmes (1983)

O Violent Femmes com sua pegada acústica parece antecipar o que depois se chamaria Twee Pop, uma vertente mais crua e acústica dentro do indie. E é essa crueza que vai dando tom ao disco inteiro, que transcorre quase como um misto do minimalismo do Velvet Underground e da raiva do The Clash. É um trabalho sem paralelo, considerando-se que os ingleses do The La's e os americanos do Beat Happening só apareceriam bem depois. (aqui)



Aztec Camera - High Land, Hard Rain (1983)

Algo como “E se os Smiths fossem escoceses?”. Sem tanto apelo roqueiro, com muitos violões, e um instrumental firme, a banda investia num certo groove, mas sem perder o alvo do pop, que era bastante envolvente. Era uma banda "do bem" para pessoas idem. (aqui)


Lloyd Cole and The Commotions - Rattlesnakes (1984)

A exemplo dos próprios Smiths e do Aztec Camera, a banda de Lloyd Cole era uma das raras que rejeitavam os aparatos eletrônicos e resgatavam a importância do violão, que aquelas alturas parecia esquecido. Mas “Rattlesnakes” passa longe de ser minimalista, tem orquestras, e um band leader com ares de um Bob Dylan new wave. (aqui)


Glorious Din - Closely Watched Trains (1987)

A década já corria para o final quando aparece esse disco que o que tem de raro, tem de pungente. Extremamente cru, ele parece ser um elo perdido entre Ian Curtis (o conturbado líder do Joy Division) e de Michel Stipe (do REM). Post-Punk do bom, obscuro. Um achado. (aqui)

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O luto no Oriente é branco


The Beatles
"The Beatles" (a.k.a The White Album)
1968

1968. Pela definição de Zuenir Ventura, o ano que não terminou. Em maio, uma onda de protestos varria a França com uma violência sem precedentes. Àquelas alturas, Che e Luther King estavam mortos, as atrocidades da Guerra do Vietnã vinham à tona, as ditaduras na América Latina recrudesciam, a repressão à juventude ganhava ares de guerra civil, e o mundo entrava numa convulsão que não se via desde que Hitler avançara sobre a Polônia. Depois de uma década tomada por um sentimento de otimismo, a geração do pós-guerra se viu imersa num mar de confusão e incerteza, e nenhum outro disco conseguiu fotografar tão bem esse momento quanto The Beatles (1968).

Mas The Beatles, também conhecido como “White Album”, não chega a ser um disco de protesto, de fato. As mensagens estão lá, só que num subtexto quase subliminar, sutil. Críticas ao capitalismo, referências à corrida armamentista e ao clima de revolução permeiam o disco de uma forma que não chega a ser panfletária, mas que mostra que eles não estavam omissos. A capa toda branca era um sinal de que alegria das cores lisérgicas já não fazia mais sentido. Após marcarem a Psicodelia com o Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967), onde encarnaram uma banda de fanfarra fictícia, os Beatles não só abandonam as personas como também retornam ao rock mais cru que podiam fazer, numa mostra de que a realidade triunfava sobre o idealismo hippie.

Se havia tensões influenciando a banda de fora pra dentro, internamente o grupo não ia bem das pernas. Depois da desilusão com um guru de araque, da morte do empresário, da saída do produtor George Martin, e da quase saída de Ringo, os Beatles entram num ritmo de gravações onde o individualismo se tornara evidente. Cada vez mais distantes uns dos outros, trabalhando em estúdios separados, ninguém mais compunha junto, e ao final de uma briga de egos, decidem lançar 33 músicas naquele que se tornaria o único disco duplo da banda. 

Reggae, blues, folk, ragtime, baladas, concretismo, rock, teve espaço para tudo no disco. Mas ao contrário de Revolver (1966), os Beatles aqui não procuraram uma direção enquanto grupo, tateando entre a tradição e o futurismo. Em The Beatles, eles experimentavam a liberdade criativa que nunca tiveram, longe de qualquer modismo ou imposição de mercado, e ao buscarem caminhos individuais, fizeram da diversidade o conceito do álbum. Foi um disco regado à angústias e choques vindos de todos os lados, e como todos os grandes feitos artísticos, conseguiu se sintonizar às verdades do seu tempo. (aqui)



quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Raul Seixas: um arquiteto de hits

Nesses 23 anos da morte de Raul Seixas, eu lembro que meses atrás, depois de ver aquele que talvez seja o documentário definitivo sobre o cara, finalmente pude confirmar uma antiga constatação: ele era um compositor. Parece óbvio, em se tratando de alguém que vivia da música e ficou reconhecido por isso. Mas ao mesmo tempo, a impressão que dá é que para o grande público Raul ficou como sendo um produto da resultante de um monte de rótulos que lhe foram imputados. Foi tão grande a carga e a dimensão que tomaram, que até o próprio achava difícil se libertar deles. Aí que entra aquele papo de “maluco beleza”, de “sociedade alternativa”, ocultismo, “profeta”, que, vá lá que tivessem algum fundamento no real, no fim eram apenas traços que não respondiam pelo todo - ele era e tinha muito mais a ser mostrado. Simplesmente, o foco que deveria estar na música era jogado no discurso e nas suas excentricidades. No mais, como ficou bem claro no filme, quem lhe impulsionava mesmo, a sua grande preocupação desde o início não era a exposição, nem a celebridade, muito menos o messianismo: Raul era um cara que vivia voltado para composição, a criação musical. Não por acaso, seu talento raro logo seria percebido por outros músicos e empresários do ramo assim que ele pôs os pés no Sul.

Foi lá que por um tempo ele trabalhou sob a alcunha de Raulzito, produzindo discos e compondo músicas que ajudaram a promover a carreira de muita gente. Nelas fica nítido o seu esmero e a sua capacidade enquanto verdadeiro artífice de canções, ora românticas, ora roqueiras, ora os dois juntos, mas sempre com comunicação direta com o popular e sem ser banal. Abaixo, canções que são de Raul e que pouca gente sabe:

"Doce doce amor"


"Playboy"


"Foi você"


"Objeto voador"


"Se ainda existe amor"


sábado, 4 de agosto de 2012

A praça de todos nós


Odair José
Praça Tiradentes
2012

Odair José está vivo. Odair José não amansou. Chamado de “Bob Dylan da Central do Brasil” nos anos 70, hoje Odair em cima do palco está mais para um Neil Young. Como Neil, o show é alto, a bola fica lá em cima a toda hora, o som não tem nada de “domesticado”. Muito bom ver que Odair não caiu na tendência geral que é, a partir de uma certa idade, assumir uma sonoridade mais “adulta”, tendendo ao easy-listening bossa-nova, focada nas mamães e nas avós da platéia. Sua matriz é a mesma – algo entre o country-rock e o pop sessentista – e seu discurso também não mudou. Não que ele tenha parado no tempo. É que ele sempre foi atemporal.

Também não é revivalista, não virou um cover de si mesmo, como Roger Waters. Nesse quesito Odair agora parece mais com Paul McCartney. Ao invés de apenas relembrar com nostalgia “antigos sucessos de um tempo que não volta mais”, de quando “estava em forma”, Odair José toca músicas que nunca morreram. E essas mesmas músicas, partes permanentes do inconsciente coletivo, servem de parâmetro não no nível da comparação negativa (“ele nunca mais vai fazer algo assim”), mas sim mostrando que as coisas atuais são tão fortes e pungentes quanto as anteriores. Pela forma como tudo se sintoniza, não dá pra saber se ele era maduro antes ou se é jovial hoje. No fim tudo é uma coisa só, o antes e o agora.

E Odair José tem música nova? Tem sim. Depois de um tempo longe das paradas, farto dos descaminhos e da picaretagem que assola a indústria da música no Brasil, Odair cedeu ao clamor popular e reapareceu, reabilitado após o veredicto do tempo. Passada a era dos preconceitos, em que uma elite cultural intelectualóide e invejosa apregoou o rótulo de “bregas” nos maiores vendedores de discos do Brasil, Odair emerge sendo o que ele sempre foi: um melodista de mão cheia. (Detalhe: pouca gente sabe que Odair José gravou um disco conceitual nos anos 70, uma opera-rock, qualquer dia eu falo disso).

O que Odair faz não é pra qualquer um. Criar uma estrutura simétrica, coesa, e fazer uma história caber ali dentro. E mais: ser perfeitamente cantarolável, isso sem apelar pros monossílabos infantis da temporada. Nele não há nada industrial, tem uma verdade ali. E tudo continua assim em “Praça Tiradentes” (2012). Talvez seja a mesma praça de "Eu, você e a Praça", de 1973, mas agora o ponto de vista transcende o do narrador: Odair José passa em revista todo o seu universo, simbolizado aqui por uma praça, com todos os seus personagens e seus encontros marcados, transitórios e fugazes. Mais do que romantismo, mais do que o “simples” falar de amor, Odair continua trazendo crônicas íntimas, relatos reflexivos sobre emoções e vivências universais, sem exageros, nem frivolidades. Ao invés de enfeitar o que já existe, Odair José parte de situações reais e do meio delas mostra o que nos move, o que nos torna humanos. O que será que será?


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Os 40 anos de Ziggy

 

Cantor: David Bowie
Disco: The Rise and Fall of Ziggy Stardust 
and the Spiders from Mars
Lançamento: 1972

“Sempre estar lá, e ver ele (sic) voltar, não era mais o mesmo, mas estava em seu lugar”. Muita gente lá nos anos 80 deve ter comprado o disco do Nenhum de Nós só por causa dessa música. “Astronauta de mármore” era boa mesmo, melodia forte, cativante ao extremo e sem apelar pros atuais monossílabos. Lembro que passava muito no rádio, a empregada daqui de casa curtia. Ela só não sabia que estava curtindo uma das imortais criações de David Bowie.

Enquanto boa parte do rock nacional se alinhava à MPB, o Nenhum de Nós ia lá nos anos 70 resgatar “Starman”, uma das melhores músicas de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, que está completando 40 anos agora em 2012. Lá naquele 1972, Bowie já não era mais o psicodélico tardio que se arrastava pelo submundo do mainstream: ele se tornara o maior representante de uma das vertentes mais prósperas que despontaram após a virada da década, e este disco não foi só um dos pontos altos de sua carreira, mas de cara se tornou um marco histórico, uma referência.

Fala-se muito das personas que Bowie deu vida durante os anos 70 (a sua melhor década, indiscutivelmente), mas o que deve ser louvado mesmo, no fim das contas, é a sua capacidade criadora. Muito inspirado na poética de Lou Reed e naquele contexto libertário que ficara após Woodstock, Bowie foi desenvolvendo um som praticamente sem fronteiras, indo de um minimalismo acústico à densas baladas ao piano e rocks dos mais ácidos. Juntou peso, dramatismo, tensão, tesão, melancolia, escapismo, ficção científica, decadência e algo de glamuroso, palavra que acabou dando origem a um rótulo –  Glam Rock –, do qual ele mesmo foi o principal representante.

Ao lado do guitarrista Mick Ronson e dos Spiders From Mars, Bowie entraria de vez para o seleto grupo de artistas cujo trabalho continua influente por décadas, e The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars só confirma disso. O disco que conta a saga suicida do roqueiro alienígena trouxe hits que ao longo do tempo teria regravações de Bauhaus, nos anos 80, dos próprios Nenhum de Nós, e depois ainda se tornaria influência básica para o Suede, banda pioneira do Britpop dos anos 90. Apesar da fase não muito inspirada a partir dos anos 80, o relançamento de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars é uma ótima chance de saber por que a obra de Bowie continua viva e celebrada.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A fuga de Paul


Banda: Paul McCarntey & Wings
Disco: Band On The Run
Lançamento: 1973

Band On The Run, como o título já sugere, era o Paul fazendo parte de uma banda, novamente. Após integrar a maior banda de todos os tempos, e praticamente criar o lo-fi gravando discos sozinho, o próximo passo do eterno beatle foi não ser acompanhado por uma banda, de uma forma quase impessoal, mas sim em ser parte de um grupo coeso, o mais homogêneo possível. Isso não o livrou de dar de cara com um horizonte árido nos anos 70, onde as pressões eram imensas: se de um lado havia a expectativa por sucessos pelo menos tão grandes como o que os Beatles lograram, McCartney agora tinha que lutar para se firmar como um artista de rock, ao invés de um cantor pop juvenil.

Por mais que não fosse visto da mesma forma que um Marc Bolan ou um Iggy Pop, a predestinação de Paul para o sucesso acabaria levando seus discos pro topo, e com Band On The Run não deu outra. Contando com a mão pesada dos caras do Wings, o disco mostra já na música título que Paul não estava para brincadeira. Os refrões estão lá, mas não havia a repetição de fórmulas nem a busca pelo caminho mais fácil: era quase uma desconstrução do que se esperava de um artista que havia praticamente criado o dogma da música pop, anos antes, mas que, paradoxalmente, continuava sendo pop. Mudanças de andamento, sintetizadores, vinhetas, peças acústicas e uma sonoridade bem particular marcam este disco que é um dos maiores momentos não só da carreira solo de Paul, mas de todos os anos 70.

Band On The Run faz referência à prisões e perseguições que certos artistas, como os Stones, Byrds, vinham sofrendo já havia algum tempo, e a capa retrata o flagrante de uma fuga de uma penitenciária. Assim como os outros beatles fizeram na época, Band On The Run é também o Paul fugindo de si mesmo, do que tinha sido, e da imagem que havia (se) criado. De fato, não se tratava mesmo de um disco dos Beatles: era um novo capítulo de uma trajetória de um personagem que conhecemos muito bem.

Morada

Quando os homens chegaram , encontraram Dona Lourdes na cozinha, sentada à mesa. A idosa olhava para o quintal, indiferente às grossas rach...