segunda-feira, 18 de junho de 2012

A fuga de Paul


Banda: Paul McCarntey & Wings
Disco: Band On The Run
Lançamento: 1973

Band On The Run, como o título já sugere, era o Paul fazendo parte de uma banda, novamente. Após integrar a maior banda de todos os tempos, e praticamente criar o lo-fi gravando discos sozinho, o próximo passo do eterno beatle foi não ser acompanhado por uma banda, de uma forma quase impessoal, mas sim em ser parte de um grupo coeso, o mais homogêneo possível. Isso não o livrou de dar de cara com um horizonte árido nos anos 70, onde as pressões eram imensas: se de um lado havia a expectativa por sucessos pelo menos tão grandes como o que os Beatles lograram, McCartney agora tinha que lutar para se firmar como um artista de rock, ao invés de um cantor pop juvenil.

Por mais que não fosse visto da mesma forma que um Marc Bolan ou um Iggy Pop, a predestinação de Paul para o sucesso acabaria levando seus discos pro topo, e com Band On The Run não deu outra. Contando com a mão pesada dos caras do Wings, o disco mostra já na música título que Paul não estava para brincadeira. Os refrões estão lá, mas não havia a repetição de fórmulas nem a busca pelo caminho mais fácil: era quase uma desconstrução do que se esperava de um artista que havia praticamente criado o dogma da música pop, anos antes, mas que, paradoxalmente, continuava sendo pop. Mudanças de andamento, sintetizadores, vinhetas, peças acústicas e uma sonoridade bem particular marcam este disco que é um dos maiores momentos não só da carreira solo de Paul, mas de todos os anos 70.

Band On The Run faz referência à prisões e perseguições que certos artistas, como os Stones, Byrds, vinham sofrendo já havia algum tempo, e a capa retrata o flagrante de uma fuga de uma penitenciária. Assim como os outros beatles fizeram na época, Band On The Run é também o Paul fugindo de si mesmo, do que tinha sido, e da imagem que havia (se) criado. De fato, não se tratava mesmo de um disco dos Beatles: era um novo capítulo de uma trajetória de um personagem que conhecemos muito bem.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Revendo Norah

Cantora: Norah Jones 
Disco: Little Broken Hearts
Lançamento: 2012 

Numa entrevista recente, o baterista Matt Helders do Arctic Monkeys soltou essa: "Para nós, parece ser óbvio fazer algo diferente quando fazemos um novo álbum. Sei que muitas bandas podem continuar fazendo o mesmo som para sempre, podem ter uma carreira só fazendo isso". E disse mais: "Obviamente muitos fazem isso e funciona. Só que não acho que iríamos querer fazer isso. Não poderíamos fazer um disco como o nosso primeiro novamente, soaria um pouco falso".

De fato, isso tudo parece bem óbvio. Pena que é algo tão pouco compartilhado por aqueles que fazem arte hoje em dia, especialmente aqueles músicos que conseguem atingir o chamado “mainstream”. Talvez por falta de talento, de personalidade, por incompetência mesmo, ou influências mercadológicas, ultimamente tem sido cada vez mais raro vermos alguém se arriscar. Aí surge o bordão: “mas time que tá ganhando não se mexe”. Compreende-se. Mas é também por essa lógica (até um tanto tacanha), de investir na “segurança dos negócios” que vemos um cenário tão desinteressante, estagnado, enfadonho. E até o rock parece ter entrado nessa. Logo ele, que era vanguarda por excelência, que atraia as principais atenções, que era a locomotiva do pop, o "motor das revoluções", o gerador de polêmicas, virou hoje um gueto, um vagãozinho tímido lá atrás, numa época em que Adele, Beyoncé, Bieber e Lady Gaga conduzem o espetáculo.

Mas neste mesmo mundo em que falta testosterona, e quase não se vê coragem para segurar a onda de uma mudança de rumos (com tudo de bom e de ruim que ela possa ter), coube a uma garota de voz docinha mostrar como ainda é possível se reinventar se respeitando, respeitando o ofício e o público. O que Norah Jones fez em seu disco mais recente (Litte Broken Hearts, 2012) é pouco se comparado ao que David Bowie passou os anos 70 fazendo, ou ao que os Beatles fizeram ao trocar o trono do pop pelo experimentalismo que pipocava no underground. Mesmo assim, Norah mostrou que não estava tão acomodada assim naquele nicho pop-jazzistico que lhe deu alguma notoriedade.

Jovem demais para concorrer com Diana Krall, e cult demais pra ficar no mesmo saco de Adele, Norah pra mim sempre pareceu meio deslocada fazendo papel de diva. Agora, a moça parte para um ambiente mais arejado, mais solto, sem a preocupação em seguir cânones sofisticados nem em exibir sua perícia vocal. Isso não significa que a voz não esteja impecável, como sempre, a diferença é que a embalagem, o “clima”, as texturas, fogem dos timbres banais do “piano bar” e ganham uma cara própria, bem particular (a parceria com o produtor Danger Mouse pode ter sido decisiva pra isso). Enfim, se vai tocar na novela ou na Mix é difícil saber, mas me arrisco a dizer - sem nenhum medo - que já é uma das melhores coisas que aconteceram nesse 2012.


segunda-feira, 23 de abril de 2012

A descoberta de Mimito

Era Mimito, a faca e a cidade vazia. Sua esquina era o front. Àquela hora, cada estalo era um estrondo, cada sibilo era um aviso. Qualquer latido era um sinal para cuidar de sua espreita insone. Não era apenas o sono que não lhe atacava, também o medo havia tempos que ele não experimentava. Isso desde quando fora picado por uma cascavel aos 11 anos e fora salvo após engolir um pouco da saliva de Antônio Beato, um senhor que havia sido curado do mesmo jeito, de uma picada do mesmo tipo, havia mais de setenta anos. Desde então, Mimito ficara conhecido pelas suas extravagâncias, pelo seu destemor diante da vida e de quem fosse. E foi só ouvir que pela cidade andava uma burra-de-padre para que, ele mesmo, se animasse em encontrar a aberração que deixava a todos com o sono intranqüilo, atentos a ferrolhos e traves nas portas. Porque uma coisa é saber que ela existe, que pode existir, outra é saber que tem uma correndo pelas ruas logo depois que o motor da luz é desligado.

Além de todo o medo generalizado, a maledicência corria solta: quem era a mulher que provara do amor proibido do padre e que agora, amaldiçoada, corria ensandecida por dentro das noites empoeiradas transmutada numa besta daquele tipo? Só o padre era que não dava ouvidos para a perfídia, não porquê não quisesse, mas pela surdez já quase totalmente instalada em seus ouvidos de mais de 90 anos. Sem forças nem para sair da cama sozinho, com uma fragilidade latente, como teria vigor para andar metido com aventuras clandestinas com moças despudoradas? Viviam intrigados sob os véus e mantilhas, mas Mimito não queria nem saber disso: entre a suspeita e o medo, a crença e a intriga, o rapaz botou na cabeça que queria ficar frente a frente com a criatura incógnita, e sabe-se lá o que aconteceria depois.

Mimito esperou chegar a madrugada da sexta-feira da Paixão que para enfim por em prática o seu plano. Contava com a sorte que o dia poderia lhe brindar. Os amigos troçavam, a mãe lamentava, a avó alarmada só dizia que há coisas com que não se pode mexer, mas lá foi ele, armado apenas com seu desaforo usual e com a faca do seu pai. Ficou lá, postado na esquina que ficava para a rua central da cidade. Não tinha relógios, mas tinha tempo o suficiente. Quando o motor da luz fora desligado, a cidade toda ganhou um tom brilhante e azulado, como se ela própria fosse a superfície da lua, que estava ali bem baixa e luminosa. Mas foi no meio daquela bruma translúcida, por entre o silêncio oco do sereno, que Mimito começou a escutar um chiado nas pedras mal-encaixadas do calçamento, e o chiado longínquo foi crescendo, e aumentando, virando um ribombar retumbante dentro da cabeça de Mimito, e pelo jeito alguma coisa vinha correndo, e Mimito teve certeza de que aquela só poderia ser a aparição que ainda não tinha aparecido de fato mas de que todos falavam como verdade verdadeira. E na tremedeira pelo sucesso do intento, ofegante com a certeza, Mimito com a faca colada ao peito esperava o momento certo para se lançar diante do que quer que fosse para pelo menos atestar, ele próprio, a natureza do bicho sobrenatural.

Fazendo uma contagem apressada, esperou pela a pisada da coisa que fosse quase que imediatamente anterior àquela esquina, e num salto desbaratado, caiu com os calcanhares duros no meio da rua, com a ponta da faca mirada pro vazio, na direção da burra. Mas, por entre a brancura de camadas de lençóis, ao invés de um ser mitológico, o que Mimito encontrou foram dois olhos grandes e aterrorizados de uma moça morena que se revelou com um pedido trêmulo: “Não diga nada a meu marido, ele mataria o prefeito”. Assim Mimito baixou o braço, e abriu espaço para que mulher do delegado pudesse continuar sua corrida incauta até a sua casa, temendo que alguém lhe visse e que a sua ausência não fosse notada. Mimito nunca contou a ninguém o que realmente andava a trotar pela cidade naquelas noites sufocantes. Foi assim que ele compreendeu que a vida, e os amores, são como móveis com mais gavetas do que se pode imaginar.

domingo, 18 de março de 2012

Tardio



Depois de 67 anos, imaginando que já esgotara seu quinhão de emoções possíveis numa vida de parcimônia, Amadeu se viu sozinho dentro da casa, batendo cabeça com um tipo de saudade que nunca experimentara. Foi numa tarde, logo depois que Netinho fora embora com sua mãe Eunice. Num fato inédito em sua vida adulta, Amadeu ficara dois meses na companhia de alguém, o garoto Netinho, enquanto a mãe dele fazia uma viagem que de tão demorada se tornaria penosa para o menino. Quando voltou, Eunice era só gratidão para Amadeu, ainda mais porquê, ao que lhe parecia, o menino vinha sendo muito bem tratado ali. Amadeu, sem saber onde pôr as mãos, entre feliz e emocionado, dizia com uma sofreguidão que parecia timidez que Eunice poderia deixar o seu filho com ele sempre que precisasse, pois seria um favor de amigos e vizinhos, um bem pela harmonia da vizinhança.

Mas quando a porta bateu às suas costas, Amadeu deu de cara com aqueles cômodos imensos de tão vazios, de paredes altíssimas, e um silêncio sibilante, agora sem a presença de Netinho. Foi então que sentiu seu interior como se minguasse e minguasse, murchando e repuxando seus tecidos e provocando um dor que quase lhe deixava sem forças para respirar. "Que vida era aquela que eu vivia até semanas atrás?", perguntava-se em seu abandono. Como não se incomodava com uma rotina tão mesquinha e despropositada, sem compartilhar nada com ninguém? Sem viver para cuidar de ninguém? Só bastou um breve convívio com o garoto para que sentisse o sabor incomparável da humanidade.

Foi tudo tão e tão pouco, tantas refeições preparadas com todo o cuidado, tantas conversas, tantos sorrisos, tantos olhares, tantas noites, tantos abraços, e beijos, e carícias, e carinho, e o toque de mãozinhas tão frágeis, e o hálito doce e quente, e a respiração apressada de pássaro acuado, que Amadeu chegou a esquecer que um dia a mãe de Netinho retornaria para levá-lo e então não seriam mais assim inseparáveis. Mas o dia veio, e como se saísse de uma embriaguês, lembrou-se de que Netinho partiria para a sua vida de menino, enquanto ele ficaria com o horror de ter tudo, a casa e a vida, só para si, novamente. Na cama gelada, Amadeu tentava não pensar em quantas noites se passariam até que o peso da falta se dissipasse, e enfim tivesse de volta a sua velhice livre de pensamentos intranqüilos. Antes de pegar no sono, jurou para si mesmo que se aquilo fosse amor era algo que não queria sentir nunca mais.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

De Minas, gerais

Cantor: Milton Nascimento & Lô Borges
Disco: Clube da Esquina
Lançamento: 1972

Qual o contrário de guinada? Talvez essa palavra nem exista. Certo mesmo é que o que Milton Nascimento fez no começo dos anos 70 pode ser chamado de uma guinada ao contrário. Compositor reconhecido, destaque em grandes festivais, Milton retornaria ao seu reduto, pra longe da mídia, e se juntaria a um bando de moleques desconhecidos para gravarem um disco duplo.

Atente para a quantidade de absurdos numa mesma frase: longe da mídia, moleques desconhecidos, disco duplo. É loucura, se medirmos com a régua de hoje, tão pragmática, tão mesquinha. Para artistas de verdade, do naipe de Milton, trata-se apenas de mais um capítulo numa trajetória vitoriosa. No caso em questão, um dos capítulos mais grandiosos da música brasileira moderna, e que atende pelo nome de Milton Nascimento e Lô Borges – Clube da Esquina (1972).

Nem clube nem movimento: o título faz referência ao grupo de amigos que se reunia numa esquina de Belo Horizonte para tocar violão, aprender novos acordes e novas músicas. Além de Lô e Milton, Beto Guedes, Wagner Tiso e Fernando Brant integravam a turma. Após tomarem rumos distintos, todos se reuniriam naquele 1972 para um projeto que teria o melhor de cada um: o canto de Milton, a influência beatlemaníaca de Lô, as letras de Brant, a tradição mineira em Beto Guedes e o virtuosismo de Wagner Tiso. Só assim, de posse do melhor de cada um e no meio de uma enorme sintonia é que seria possível criar algumas das músicas mais emblemáticas daquela década, como “Trem Azul”, “Nada será como antes”, e “Tudo o que você podia ser”. Não por acaso, algumas dessas músicas acabariam sendo regravadas exaustivamente, inclusive por nomes de peso da MPB clássica, como Elis Regina e Quarteto em Cy. Virou um clássico instantâneo.

Como Raul Seixas, que propunha o encontro de Elvis com Gonzagão, do baião com o Mississipi, Milton e companhia fizeram uma celebração do olhar interiorano, seja do interior da América Latina, do interior de Minas com seus trenzinhos e sua religiosidade, ou do interior da Inglaterra na música de Lennon e McCartney. Como diria o também mineiro Guimarães Rosa, “o sertão é em toda parte”, e o pessoal do Clube sabia disso.

- Vento solar, estrelas do mar

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Discos conceituais dos anos 60

Por mais cabeçuda e pedante que a denominação pareça, os chamados discos conceituais foram uma das propostas mais interessantes que já surgiram dentro do rock. Claro que a noção de uma palavra ou sentimento norteando todo o álbum já existia desde quando os discos começaram a ser feitos. Mas é nos anos 60 que essa ideia é ampliada, com alguns discos trazendo verdadeiras narrativas ou reflexões sobre um tema, com as músicas claramente conectadas entre si. Na maioria das vezes, as músicas acabavam funcionando sozinhas, mas em geral elas deveriam ser tomadas como parte de um contexto maior. Abaixo, cinco dos principais discos que iniciaram esta tendência que existe até hoje:

“Days of Future Passed”, Moody Blues – 1967

Os Moody Blues são considerados pioneiros de muitas coisas: da utilização de orquestra como base das composições, e do Rock Progressivo, que ganharia força a partir dos anos 70. O Moody Blues também é considerada uma das primeiras bandas a lançar mão do artifício do disco conceitual. Em “Days Of Future Passed”, a banda reconstrói o percurso de um dia, do amanhecer à noite, com músicas que evocam cada período (Dawn is a feeling, Tuesday Afternoon, Nights in White Satin, etc). (aqui)

“Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, The Beatles – 1967

Logo que saiu o disco dos Moody Blues, os Beatles lançam aquele que é um dos discos mais aclamados de todos os tempos, tanto pelas técnicas inovadoras de gravação, as sonoridades e pelo fato de eles encarnarem uma banda fictícia (uma atitude que inspiraria Bowie anos depois). Quanto ao fato de ser um disco conceitual, até hoje não há consenso. Para alguns, Peppers não chega a ser conceitual porque apenas 3 das suas 11 músicas é que tem alguma relação clara. Outros defendem que o disco é conceitual porquê retrata uma apresentação da tal Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta, que logo no início do disco se apresenta a platéia. Controvérsias à parte, o certo é que este álbum (o primeiro a vir com as letras encartadas) foi um dos que mudaram a forma como se encaravam os discos (onde todas as músicas eram importantes) além de ter influenciado toda a cultura hippie e o Flower Power. (aqui)

“SF Sorrow”, Pretty Things – 1968

A Psicodelia, que os Beatles haviam ajudado a tirar do Underground e virara Mainstream, já estava passando quando os Pretty Things lançaram o seu melhor disco. A banda que vinha habitando o segundo escalão do rock inglês, seguindo uma linha semelhante a dos Stones, deu com “SF Sorrow” o salto estético que lhe firmou entre os maiores nomes da ilha, na época. Agora sim: o disco contava do início ao fim as desventuras SF Sorrow, do seu nascimento até a sua velhice desiludida, passando por guerras, amores e loucuras. Aproveitando a tecnologia utilizada em Sgt. Peppers e em The Piper at the Gates to the Dawn, do Pink Floyd, os Pretty Things fizeram um disco que não está entre os mais lembrados pelo público, mas certamente foi muito influente entre músicos de todas as épocas. (aqui)

“Village Green Preservation Society”, The Kinks – 1968

Os Kinks eram tidos como a quarta força dentro da British Invasion, tocando um misto de Mod (um R’n’B de branco, com mais guitarras) e Merseybeat. Mas a partir de 67, a banda começou a testar novas sonoridades próximas ao vaudeville, e a investir em letras de cunho mais crítico, numa espécie de desencanto permanente com o estilo de vida da sociedade da época. Esse desencanto chegaria ao auge com “Village Green Preservation Society”, um disco que ia na contramão de tudo o que se fazia na época. Enquanto boa parte do rock estava investindo em futurismos e no peso instrumental, os Kinks se voltam para o passado e fazem um disco sem firulas de estúdio, exaltando a vida no interior, num lugar arquetípico (a Vila Verde) que reunia todo o bucolismo de um mundo distante da selvageria das metrópoles. Depois desse, a banda ainda lançaria vários outros discos conceituais, mas este ficaria marcado entre os melhores de sua carreira, sendo considerado por Pete Towshend do The Who o “Sgt. Peppers” dos Kinks. (aqui)

“Tommy”, The Who – 1969

O The Who era a principal banda Mod dos anos 60, na Inglaterra, quando em 67 eles lançam “A Quick One, While He’s Away”, uma das primeiras músicas a romper com o formato radiofônico (tinha quase 8 minutos). Ela contava história de uma moça que era abandonada pelo marido, e tinha várias passagens e momentos distintos, trabalhados de acordo com o andamento da história. Em 68, quando o Pretty Things lançou "SF Sorrow", Pete Towshend (principal compositor do The Who), percebeu que era possível estender uma história ao logo de todo um disco e foi daí que surgiu seu “Tommy”. O disco contava a história de Tommy, um menino que ficara cego, surdo e mudo após sofrer um trauma e que depois se tornaria um campeão mundial de pinball. Uma vez curado, Tommy se tornaria algo como um guru, falando de liberdade e auto-conhecimento, o que foi uma grande sensação entre os públicos dos festivais onde The Who chegou a tocar o disco completo. (aqui)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cinco discos pra entender o Glam Rock

O Glam pode ser definido como a ponte entre o hippie esperançoso e o punk anárquico, numa boa mostra do esfacelamento das utopias que terminariam sendo enterradas nos anos 80, com a vitória das corporações. Mas voltando ao Glam, o estilo se embasava em muitas das conquistas do Verão do Amor, como a liberdade sexual, mas já insinuava uma boa dose de desencanto que culminaria com o apelo destrutivo da geração de 77. Abusando da androginia, das temáticas urbanas e do colorido (pantufas, boás, e muito glitter, heranças do Flower Power), o Glam Rock combinava brilho com uma espécie de charme decadente, frescor juvenil com o escapismo. Pra eles, fãs de Andy Warhol, o glamour era também era uma metáfora de um mundo cada vez mais superficial, cada vez mais focado na embalagem.

Mas o Glam Rock não era só imagem e polêmica. Abaixo, cinco discos que comprovam isso.

“Hunky Dory” (1971), David Bowie

Nesse disco, ainda não vemos Bowie encarnando uma das tantas personas que daria vida em sua carreira: nesse ponto ele era a própria encarnação do Glam Rock. A afetação, o visual andrógino, as referências à Era Vitoriana e à corrida espacial, são alguns dos traços mais marcantes desse disco que, se não é dos mais roqueiros, mostra um Bowie maduro, pronto para se tornar um dos maiores artistas dos anos 70. Detalhe: esse disco é o de Life On Mars?. (aqui)


“Electric Warrior” (1971), T. Rex

Marc Bolan e seu T. Rex dentro do Glam Rock representavam um lado mais místico em oposição ao apelo retro-futurista de Bowie. Herdeiro do folk-psicodélico de Donovan (o bardo inglês que surgira como uma resposta a Dylan), Marc Bolan focava o seu som numa atmosfera carregada de groove e hedonismo. Sem dramatismo e nem preocupação cênica, Marc Bolan se permitia improvisos, microfonias, funcionando como uma espécie de xamã numa postura que lembrava um pouco a de Jim Morrison, mas sem tanta poesia. (aqui)

"Sladest" (1973), Slade

John Lennon uma vez disse que o Glam Rock era "o bom e velho rock and roll apenas com batom". No caso do Slade, o lance era mais rock’n’roll do que exatamente batom. Com jeito de gangue de delinquentes, abusando de gírias nas músicas, e investindo em mais peso do que o T. Rex, o Slade era o lado mais irresponsável do Glam Rock. Primando basicamente pela diversão com um quê hooligan, o som do Slade é cru e sem floreios, quase uma explosão hormonal: celebração juvenil em estado (im)puro. (aqui)


"Mott" (1973), Mott The Hoople

Após terem a carreira salva com o single presenteado por David Bowie, a banda de Ian Hunter teve força suficiente para continuar no topo por méritos próprios, através de um dos maiores discos da década. Praticamente um hit singles pack, com baladas perfeitas, um rock'n'roll melancólico, muito piano e um pé no rock de arena, o disco de 73 foi o primeiro a trazer a palavra punk, numa mostra de que a ponte para o apocalipse de 77 já estava se formando. (aqui)


"New York Dolls" (1973), New York Dolls

Com roupas feitas por eles mesmos, postura sexualizada, muita malícia e uma certa urgência instrumental, os New York Dolls sintetizavam de forma amplificada todo o inventário Glam Rock até então. Eles só não chegaram a ser uma banda punk de fato por ainda se renderem a um certo tributo ao Rock’n’Roll clássico, e também não terem a postura destrutiva, nem a linguagem, que marcariam a geração de bandas que emergiria antes do fim daquela década. (aqui)

Menções honrosas (vale ver também): "Here Come the Warm Jets" (1974), de Brian Eno; "Country Life" (1974), do Roxy Music; "Kimono My House" (1974) do Sparks; "Desolation Boulevard" (1974) do Sweet e "Glitter" (1973), de Gary Glitter.

Morada

Quando os homens chegaram , encontraram Dona Lourdes na cozinha, sentada à mesa. A idosa olhava para o quintal, indiferente às grossas rach...