sexta-feira, 5 de março de 2010

O Chico é outro

Banda: Pullovers
Álbum: Tudo Que Eu Sempre Sonhei
Lançamento: 2009

Há uns posts atrás falei da influência de uma das metades dos Los Hermanos no trabalho (e na vida) da jovem Mallu Magalhães. Este fato isolado pode ser tomado como um indício de uma coisa muito maior: todo o cenário musical dos últimos 10 anos foi afetado pela verve hermânica a partir do estouro de “Anna Julia”. E isto não sou eu que está dizendo. Numa pesquisa feita com 68 críticos, músicos, jornalistas, blogueiros e mais gente ligada ao meio musical, dois dos quatro álbuns da banda ficaram respectivamente em primeiro e segundo lugar no Top 20 Nacional da década recém-encerrada.

Mas por mais tola que seja, “Anna Julia” acabou significando o retorno da melodia pop assobiável ao universo roqueiro do Brasil. Mombojó, Vanguart, Móveis Coloniais de Acaju, Volver, Ludov e vários outros devem sua parcela de tributo a retomada proposta pelos Hermanos. Tanto que é difícil falar de alguma banda nova e promissora sem tê-los como referencial. No caso dos Pullovers, mais do que referência, a banda faz quase uma reverência aos timbres e à poética de Marcelo Camelo & Cia. Mesmo longe da influência sambista, eles até se reconhecem como discípulos, mas sem deixar de confrontar os mestres, lhes cutucando, e passando na sua cara o que eles têm de pior e tacanho. “Pra que imitar Chico Buarque?”, canta o Pullovers em “Tudo que eu sempre sonhei”.

Os Pullovers não chegam a ser pros Los Hermanos o que o Moptop era pros Strokes, anos atrás, quase uma filial brasileira. Os cariocas foram importantes pra eles, como foram pra todo mundo, pro mercado, para maneira de se cantar em português hoje, não adianta negar isso. Mas os Pullovers não se contentaram em pegar o bastão: eles criaram um universo próprio, que tem muito mais a ver com a atualidade de Xico Sá do que com o parnasiano Chico Buarque. Somando-se a isso o esmero lírico e instrumental, os Pullovers se tornam a banda independente mais bem resolvida que eu vi desde os Walverdes. Não é a toa que foram presença certa em várias listas de melhores de 2009.

Num mundo perfeito, os Pullovers seriam aclamados pela juventude e já teriam recebido das mãos de Raul Gil um disco de platina duplo. O problema é que se o mundo fosse perfeito mesmo, eles não teriam sobre o que cantar em Tudo Que Eu Sempre Sonhei (2009).


- Vai que é massa.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ava(teca)tar

Semana passada eu fui mais um a engrossar as cifras surreais de Avatar, que já ocupa com folga o posto de maior fenômeno cinematográfico de todos os tempos. Maior fenômeno, claro, do ponto de vista econômico e talvez tecnológico. Como é a economia que dita nossos destinos e a tecnologia já virou parte da cultura, é obvio que os louros de Avatar seriam medidos por esses referenciais. Linguagem, estética, russos, isso é coisa pra cineclubista e curta-metragem.

Mas não que o chamado cinema pipoca (do qual Avatar é produto) seja totalmente despido de intenção artística. Coppola, George Lucas, Spielberg, Zemeckis e Peter Jackson já conseguiram atingir o mainstream de forma inteligente e impactante, sem apelarem pro ritmo água com açúcar dos contos de fada hi-tech do senhor James Cameron. Chega a bater um gostinho de enganação quando você se dá conta da ênfase que ele dá aos efeitos especiais, o que acaba jogando enredo, trilha, e tudo o mais pra segundo plano. No fim das contas, seus filmes acabam virando uma festa pros olhos e um anestésico pra cabeça, o que geralmente redunda em sucesso de público. Das outras vezes em que impressionou o mundo (Exterminador do Futuro II e Titanic), o estardalhaço veio mesmo através das inovações tecnológicas, que só mascaram a superficialidade da história e das atuações.

Entretanto, isso não lhe impediu de amealhar vários Oscars, e com Avatar não vai ser diferente. Tecnicamente ele é mesmo muito bom, merece todas as honras e é bastante superior a tudo o que Cameron já fez. Finalmente tipos humanóides feitos em computação gráfica me convenceram, e isso eu considero um avanço. Mas Avatar também foi além dos seus predecessores por ter gerado hype tanto na produção como na exibição, que ocorre justamente no momento em que o 3D emerge como a “salvação do cinema.” E para alinhar o filme ainda mais ao zeitgeist, Cameron coloca uma mensagem ecológica num filme que é mais um daqueles com spoiler embutido. Ou seja, dissecando Avatar (orçamento milionário + história manjada + problemática atual), dá pra chegar a uma conclusão: James Cameron é a Glória Perez de Hollywood.

Numa cultura estrangeira e exótica, o amor mostra a sua força.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O crepúsculo dos deuses

Led Zeppelin - Physical Graffiti
Banda: Led Zeppelin
Álbum: Physical Graffiti

Lançamento: 1975

Em meados de 1975, o Punk ainda não havia sido formalmente apresentado ao mundo, mas a aceitação que o Glam distorcido dos New York Dolls obtinha já denotava que os tempos estavam mudando – de novo. Numa outra ponta, a música disco tomava o lugar do Soft Rock (Carpenters, Bread) como o grande gênero popular, incentivado pela onda das danceterias alimentadas pelo som mecânico dos LPs. No meio disso tudo, o Rock Progressivo e o Hard Rock davam o seu último impulso antes da derrocada completa, anos depois. O período áureo terminava para as bandas que haviam destruído os ideais dos anos 60 e instaurado novas regras. Entre elas estava o Led Zeppelin.

Physical Graffitti (1975) é o segundo disco da fase pé no chão do Led. Naqueles anos, todo o excesso e a afetação que marcariam o Hard Rock e o Rock Progressivo já começavam a ser questionados. Foi em meio a este cenário distante do espírito woodstockiano que o Led fez um disco quase minimalista, para os seus padrões. Ainda era pesado, mas sem ser sujo, e agora tinha espaço para brincadeiras, seja com timbres mais suaves e formas mais elaboradas (influência progressiva). Physical Graffitti não era tão visceral quanto os trabalhos iniciais, mas mostrou que o Led Zeppelin não se limitava a emular riffs de blues antigos. Eles também sabiam tocar em baixo volume, e agora permitiam lacunas numa massa sonora que sempre pareceu impenetrável.

Da mesma forma de que quem não ouviu o White Album não pode dizer que conhece os Beatles, e quem não ouviu os discos de Ronnie Von a partir de 69 não pode falar muito dele, Physical Graffitti é o disco
fundamental para saber do que o Led Zeppelin era capaz, embora ele siga como um dos álbuns mais neglicenciados da banda. Em nenhum outro momento eles alargaram tanto os próprios horizontes, chegando quase a atentar contra o próprio legado que, àquelas alturas, já era visto como mítico. Physical Graffitti foi seguramente o último grande disco deles, fruto de um período menos festejado da banda, mas ainda assim, impressionante.

- Se liga.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Retrato do artista quando jovem

Artista: Mallu Magalhães
CD: Mallu Magalhães
Lançamento: 2009


Quem não esteve em coma nos últimos dois anos deve ter ouvido falar de Mallu Magalhães. Talento precoce, despontou no Myspace com umas músicas gravadas de forma quase amadora, e em pouco tempo era chamada de revelação do ano, convidada para os principais festivais do país. Pra completar, ainda começou um namoro (polêmico?) com o ex-Los Hermanos Marcelo Camelo, mas isso é outra história. Quer dizer, nem tanto.

Se no seu primeiro disco, Mallu pegava algumas inflexões vocais emprestadas de Bob Dylan, agora é o canto lânguido do namorado que influencia a garota. E não fica só nisso. Camelo também aparece assobiando, tocando, como tema em algumas canções declaratórias e deve ter sido decisivo para o recente pendor da jovem para a MPB. Mas ele não chega a ser uma sombra pairando no disco. Em Mallu Magalhães (2009) o repertório da mocinha vai além do folk e do pop sessentista que a celebrizou e ganha amplitude, incorporando elementos do reggae, guitarras nervosinhas, metais e cordas.

Em sua estréia, a produção requintada acabou atropelando o chame lo-fi que as músicas tinham quando vieram a público na net, daí elas soarem deslocadas em meio a tanto brilho e volume quando, na realidade, elas funcionavam melhor naquele esquema mais tosco, pra ouvir baixinho, no fone de ouvido. No novo disco, felizmente não houve esse conflito. Tendo em vista a realidade dos palcos e as demandas do mercado pop, as músicas parecem já ter nascido eletrificadas, com uma banda no estúdio. Isso somado a rotina de shows e gravações acabou impondo uma nova dinâmica tanto na forma de cantar e de compor de Mallu, que se mostra mais confiante e segura.

No começo havia por parte de alguns entusiastas da cantora uma certa condescendência pelo fato de ela citar Dylan e Beatles a despeito de sua tenra idade. Mas o novo disco deve sepultar essa tendência. Com ele, Mallu prova que não está de brincadeira, e não pode mais ser vista como aquela criança que sabe todas as capitais do país. Mesmo iniciante, dando os primeiros passos na vida e na carreira, ela já consegue ser mais criativa do que muito barbado por aí.


- Cai dentro.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Beth, a bonita

Banda: Elizabeth & The Catapult
CD: Taller Children
Lançamento: 2009

Em tempos em que os almanaques quase nos fazem crer que tudo já foi feito, é sempre animador dar de cara com algo que fuja do marasmo que o establishment viciado nos impõe. Não que isto implique numa revelação, numa redescoberta da roda, num culto ao original. O original é algo tão subjetivo que talvez sequer nunca tenha existido. Mesmo cientes disso, é possível não ceder a um revivalismo barato, sem cair numa ânsia “vanguadeira”. O inclassificável Elizabeth & The Catapult é a prova disso.

Inclassificável porque é jazz demais pra chamar de pop, folk demais pra chamar de jazz, e pop demais pra chamar de folk. Falando assim pode parecer confuso, mas são por esses terrenos que o Elizabeth & The Catapult transita com uma leveza que passa longe de qualquer pretensão intelectualóide de “misturar ritmos”. O vocal feminino, ora forte, ora bastante doce, nos remete tanto ao jazz de Norah Jones, como ao folk de Joni Mitchel, até o pop perfeito dos Carpenters. Estas lembranças podem ser inevitáveis, mas não se pode dizer que eles estão reproduzindo cacoetes alheios. É pura afinidade, que nem sempre rima com similaridade.

Por mais que a banda seja entendida como indie, com eles não tem isso de criar cortinas de fumaça nem truques pra despistar as platéias sobre as suas reais habilidades. Ao contrário das divas inspiradoras, Elizabeth & The Catapult desce do pedestal, e se apresenta de peito aberto com a sua música luminosa, sem o medo de quem tem algo a esconder.

- Repara.

sábado, 28 de novembro de 2009

Caninos de leite

Não deu pra esquivar: quando vimos o anúncio de que Crepúsculo estrearia no Telecine Pipoca, anotamos a hora e ficamos no aguardo, atentos a programação. Finalmente saberíamos do que o grande fenômeno mundial era (ou não era) capaz. Eu tinha que assistir isso.

De cara, fica claro que Crepúsculo é da mesma lavra de High School Music, e da série Smallville. Só que invés do musical a la Grease: Nos tempos da brilhantina e dos assuntos Arquivo X, entram os contos de Anne Rice e os seus vampiros. Tendo como cenário aquele manjadíssimo ambiente de escola americana, com seus armários, bailes e refeitórios, Crepúsculo reedita Romeu e Julieta, onde o grande entrave está na natureza vampiresca do rapaz apaixonado. Mordê-la ou não mordê-la? Eis a questão.

Assim como High School, Crepúsculo é uma história sobre tesão reprimido, um platonismo presencial. Se antigamente a musa ou o pretendente eram seres distantes e inalcançáveis, agora ele convive com você, não só sabe que você existe como para todos os efeitos é seu amigo. Mas essa tendência "comportamental" não é de hoje. Na já citada série Smallville, o jovem Superman está há cinco temporadas sem concretizar um romance com Lana Lang, mesmo ambos se mostrando totalmente disponíveis e atraídos um pelo outro. Vai ver é isso o que os pais americanos querem para os seus filhos, os jovens que consomem essas séries e filmes: namoros puros e castos, sem beijo nem malícia.

Na verdade, ele dissera "foge comigo". Foge. Com G.

Mas voltando a Crepúsculo, ele acerta em cheio na garotada por ser mais um dos tantos produtos feitos sob medida. Junte aquele papo de “laço de sangue”, com um “vampiro sedutor”, narração “querido diário”, efeitos tipo X-Men e referências ao Google (qualquer um vira doutor com uns cliques) e você tem um campeão de bilheteria nas mãos. Não que o filme não tenha coisas boas, o tratamento das imagens que deixa todo mundo meio “sem sangue” é bem interessante, algumas atuações (dos vilões) também se salvam, toca até Radiohead nos créditos finais (\o/), mas fica nisso. Pra quem tem 15 anos, está tudo lindo, e é isso o que importa. Um dia eu achei Legião Urbana a coisa mais perfeita do mundo. Coisas da idade.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Estreando: dicas musicais*

Nirvana - Bleach (Deluxe Edition 2009)

Banda: Nirvana

CD: Bleach
Lançamento: 1989


O Shocking Blue foi uma banda holandesa formada em meados dos anos 60 que fez um relativo sucesso na Europa. Liderada pela bela Mariska Veres, a banda teve um grande hit internacional (“Venus”) que hoje é presença certa em qualquer coletânea do tipo “Hits Again”. Quis o destino (?) que uma de suas músicas fosse regravada às portas dos anos 90. Mas quem, a essas alturas, cometeria a sandice de desencavar algo tão obscuro? O Nirvana foi capaz.


Muita gente deve pensar até hoje que “Love Buzz” é obra de Kurt Cobain, mas esse engano é perdoável. Ele soube imprimir nela, e em outras tantas influências também já distantes (como Black Sabbath e Led Zeppelin) o sotaque do som alternativo que rastejava nas sombras desde o início dos anos 80, ofuscado pelas palhaçadas do metal laquê. Com as bênçãos do Sonic Youth, o Nirvana logo no primeiro disco (Bleach, 1989) caiu como uma luva no gosto de uma geração cansada da postura hedonista de tipos como Sebastian Bach e Bon Jovi. À moda inglesa, o Nirvana rebatia o metal da época com a noção de que nem tudo dá certo na vida, e assim, pavimentava o caminho por onde o maior fenômeno desde “Ramones 77” viria para confundir o mainstream com o underground, anos depois.

*Não, este blog não virou um blog de downloads. Ele apenas vai passar a abrigar dicas de discos interessantes. Interessantes pra mim, é claro.

Morada

Quando os homens chegaram , encontraram Dona Lourdes na cozinha, sentada à mesa. A idosa olhava para o quintal, indiferente às grossas rach...