quarta-feira, 10 de outubro de 2007

A verdade

Era ginecologista. Até hoje, quase dez anos depois, não sabia como tinha se tornado o que era. Pouco antes de se ver com o diploma na mão, jamais sentiu que tinha vocação ou dom para cuidar de partes tão complexas e melindrosas do corpo feminino – e logo do feminino. O certo é que nunca teve nenhum tipo de atração especial ou curiosidade pelas áreas em questão. Gostava das mulheres, quase as venerava. Mas nada de virem de pernas abertas, com aquele desvão misterioso, sem fundo e sem começo, apontado em mira pronto para lhe engolir.

Vai ver foi por isso que deu certo. Antes de entrar na faculdade, a visão de um púbis desnudo lhe provocava tanta emoção quanto a de uma orelha ou um cotovelo, ou seja, nenhuma. Nem a visão, nem o cheiro, nem o gosto, nem o sexo, nada chegava a lhe empolgar. Era tudo sempre chato, cansativo e demorado. Sim, as moças eram diferentes, gordinhas, esguias, virgens, ruivas, peludas, rodadas, mas no fim dava sempre na mesma. Ouviu falar com excitação que o órgão das japonesas era na horizontal, o que infelizmente nunca pôde comprovar. Pelo menos todas as que chegou a ver na adolescência tinham feições que variavam pouco, mas era lógica de funcionamento, o metiér, idêntico e enfadonho, que mais lhe entediava nisso tudo. Era como um carro ou uma tevê, tanto faz a marca, liga do mesmo jeito.

Essa opinião não mudou muito depois dos dez anos de prática ginecológica. E a quantas já não teve acesso, dentro e fora do consultório, a trabalho ou por lazer? Não importa, achava sempre tedioso, era como um déjà vu que não acabava nunca. Por isso preferia conversar horas esquecidas com as mulheres. Sentia que ganhava mais assim, vendo elas falarem ao invés de gemerem. E conversava bastante, inclusive com as suas pacientes. Não tinha como elas se sentirem constrangidas diante de um homem que, enquanto lhes examinava, parecia estar aguando as plantas ou amarrando os sapatos. Na verdade, tudo isso nem era tão de se estranhar se comparado a sua tara mais recôndita, que tinha a ver com lenços, encharpes e pescoços de adolescentes.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

De como se faz um navio fantasma

No cais, não houve o festival de acenos avulsos, nem papel picado, nem lágrimas, nem banda tocando, nada. Apenas o vento batendo nas tábuas cheias de limo, um céu sem brilho nem cor, e um homem que via do píer o navio se afastar do continente. A despeito da chuva que já principiava, o homem permanecia estático, queria guardar a visão do navio partindo para sempre. O navio ia, mas ia numa vagareza que chegava a incomodar o homem, era uma expectativa ao contrário, o navio insistia em não sumir na paisagem, parecia que não saía do lugar, relutando contra pressão em suas velas. Mas para o alívio do homem, e depois de todos naquela cidade, o navio já estava um pouco menor, e começava a pegar as correntes robustas, tomando a sua rota de esquecimento. Ia sem mapas, bússolas ou cartas. Ia trôpego, vacilante, cortando ondas esquálidas, com os porões atulhados com todos os tuberculosos do país para uma viagem sem chegada, sem coordenada e sem destino. Através das vagas, a nau vagaria, e assim continuaria, após o último deles morrer.

sábado, 1 de setembro de 2007

Em Campina Grande

Em Campina Grande, o pessoal quer ver o Satanás e não quer ver um dos seus supostos adoradores, conhecidos por lá como "roqueiros".

Contrariando a todos os prognósticos, existe gente que curte Rock na cidade do Maior São João do Mundo. Se isso não significa lá muita coisa em lugares ditos desenvolvidos, como São Paulo e Belo Horizonte, que dirá num lugar que só possui três estações de rádio, sendo duas delas idênticas?

O Rock e seus cultuadores sempre tiveram uma vocação pra marginalidade, até encarnaram o espírito da contra-cultura numa certa época. Mas em Campina Grande, isso é elevado ao cubo. Tem algo de Ku Klux Clan, sociedade secreta, máfias, um tipo de "ocultismo". A gente sabe que isso de se colocar a parte também se deve eles, aos próprios "roqueiros", é a coisa do grupo, de se agregarem para se sentirem melhores que demais, etc, etc. Mas não é só isso.

A figura do "roqueiro" em Campina causa no cidadão médio uma mistura de medo e raiva. A simples presença de um deles, a mera visão, já gera um incomodo quase incontrolável. Uns sentem nojo, outros vontade de rir, escarnecem, como que de uma sub-raça acéfala, capaz apenas de bater cabeça e cantar coisas em línguas ininteligíveis. Mas pudera, a imagem cunhada (de novo, pelos próprios "roqueiros") é daquela figura toda de preto (a despeito do clima), cabelo grande (irresponsáveis?), e um ar meio arisco, meio abobalhado. Daí a lhes associarem a tudo o que não presta.

Não por acaso, o estilo mais popular entre o público roqueiro de Campina é o METAL, e os seus ouvintes fazem o possível para ter um visual em sintonia com este som. Pelo menos a maioria é assim, deixando por onde passa um rastro de narizes torcidos. Os caras do Kiss ou o Marylin Manson se comoveriam com forma como que a Atitude Rock'n' Roll é exercida em Campina. Lá tem que ter "colhões" pra botar a cara na rua, é um dos poucos lugares do mundo em que o conceito de true é entendido na prática. Em volta disso tudo, há uma sensação de um verdadeiro apartheid cultural, uma ditadura da monocultura. Mas deixa quieto. Se lá músicas com versos como "Vá pra porra/ Sua cachorra" ou "Vamos fazer bebê agora/ Quer beber?" são o parâmetro de gosto, então não é bom nem discutir...

domingo, 19 de agosto de 2007

A sorte de Mercedes


Depois de matar o marido por quem largara tudo, Mercedes teve a impressão de que o estampido ainda continuou ecoando, e ecoaria para sempre nas fendas daqueles maciços. Aquele eco ficaria impresso na paisagem, como lembrança de um ódio bem destilado, ou de uma vida mal resolvida, o que acabava dando no mesmo.

Corriam os anos da guerra. Numa cidade próxima ao foco da insurreição, o governo reunia suas tropas para o próximo e quem sabe último ataque. Os soldados não conheciam bem o lugar, mas se animavam com a possibilidade de virarem heróis. Todos menos o Cabo Epitácio, que agora estava mais preocupado com a menina que conhecera quando descarregava o armamento.

O ataque ocorreria em uma semana, mas antes disso Epitácio e a sua menina já tinham se entregado aos clamores do amor, decidiram fugir de tudo, do mundo se possível, para longe da guerra e para si mesmos. E assim Epitácio desertou sem uma explicação formal, sumiu dentro da noite baixa, levando apenas a sua menina pela mão. Ela também desertava. Havia sido plantada ali para se inteirar das estratégias do exército, a mando do próprio pai, um dos lideres do movimento, e agora, esquecida da missão, um homem decidia o seu destino pela segunda vez.

Naturalmente acabou não ajudando em nada. O exército do governo sufocara o movimento e a revolta acabou como o planejado. Anos depois eles souberam do fim da guerra. Para Mercedes, saber que o pai pôde ter sido fuzilado não foi nenhum consolo. Nada mais a consolaria de ter posto a própria vida nas mãos de outra pessoa, por duas vezes, e isso era de uma indignidade que lhe tirava o sono. Inquietava a idéia de ser frustrada com uma vida que ela não tinha escolhido. Acabou que numa dessas noites de vertigem, ela confundiu o marido com o pai e lhe meteu um tiro no rosto. No fim foi até bom. A nobreza e a doçura de Epitácio só aumentavam o seu asco por si mesma. Não suportava mais viver com tanto amor.

domingo, 29 de julho de 2007

A vida chega


Do alto da mesma escadaria, Dirceu se viu ínfimo diante do orgulho do homem lá embaixo. Ele não o conhecia, mas sabia que uma visita logo após o almoço não seria por um bom motivo. Ao seu lado, uma menina, esta sim, não lhe era estranha, mas estava estranha, esmorecida, mortificada. De fato, nos últimos dias ela veio tendo arrancado de si tudo que lhe fazia ser quem era. Primeiro foi o escárnio da cidade, depois o desprezo das amigas, a violência da mãe, e quando não restava muito além da própria presença, seu pai lhe tirou do convívio a troco do filho que Dirceu lhe colocara na barriga.

"Faça o que quiser com ela, mas comigo ela não volta", disse o pai dela já saindo de lado, indo rápido pela pequena alameda, lá para trás do esquecimento dos quatro grandes montes. Em tantos anos de querelas e rusgas com meio mundo, Dirceu estacou sem voz naquela encruzilhada. Nessas alturas, Jacinta, a sua esposa, que não tinha visto o início da conversa, já tinha entendido tudo quando viu a veia pulada na testa do marido, a menina cabisbaixa no patamar, e o senhor já indo longe, sem olhar para trás. Por fim, Dirceu só se aliviou quando mandou chamar um dos seus imediatos para que acomodasse a menina onde desse.

Ela que ia ficar por uns tempos foi ficando, ficando, e logo virou uma das criadas. O Imediato ficou encarregado de lhe guiar naqueles primeiros dias. Assim, isentando-a de contar-lhe o passado, o Imediato deixou de ser o seu protetor para ser o seu marido. Viveram um casamento casto, porém pacífico. Dirceu lhes deu um bônus para que arrumassem as coisas da casa, e com isso colocara uma pedra em cima da história. Já estava velho, sentindo os quebrantos dos últimos momentos, e só não era plenamente feliz porque sua esposa Jacinta não tinha lhe dado um filho. Mas pelo menos a certeza de que o Imediato seria um bom pai para aquele menino lhe servia de alento. Com a sua morte, Jacinta herdou sozinha todo o dinheiro, as sociedades, as terras e o segredo, que certamente lhe exigiria mais cuidado do que qualquer outra coisa. Ela só não sabia até quando suportaria isto.
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segunda-feira, 16 de julho de 2007

A vida parte


No dia que levaram seu filho, Lucinda teve certeza de que não viveria mais que uma semana, e exatamente sete dias depois, batendo cabeça nos afazeres, sem ter mais onde guardar tanto dilaceramento, o coração arrebentou-se no que ela, antes de morrer, julgou ser um soluço de pranto. Lucinda tinha se acostumado a ser uma coisa só com o filho, falando o que o outro já estava pensando, pensando o que o outro já ia sentindo. Na despedida calada e sem acenos, Lucinda ao entrever o seu destino compreendia o porquê daquele seqüestro.

No quarto da frente, Dona Jacinta dormia aliviada sem a presença do filho da empregada. Era algo que vinha lhe perturbando já havia algum tempo, e quando não pôde mais agüentar, lançou mão de um de seus amigos chegados para realizar a retirada. Eram muitos os que lhe deviam favores, afinal a família detinha grande influência no lugar, e além disso não havia nas redondezas viúva mais generosa de amores do que Dona Jacinta.

Dentre os tantos que provaram de suas benesses estavam vereadores, o delegado e o diretor do asilo dos leprosos, chefe dos que levaram o filho de Lucinda. E ela sabia que não adiantaria reclamar a ninguém, não havia ninguém naquela cidade que tomaria suas dores e iria contra as vontades de Dona Jacinta. "Todos comem na mesma cocheira", pensava tremendo de raiva. Daí continuou com o mesmo silêncio que lhe entalou enquanto via a ambulância partir vacilante na estrada de terra, como se não quisesse ir. E lá no alto da escadaria, Jacinta com seu séqüito de primos e agregados também assistia a partida em silêncio, queriam ver que tudo tinha dado certo. A maioria ali nem fez questão de saber para onde levavam o bastardo, o único que poderia abalar aquele império perdulário.

domingo, 24 de junho de 2007

Como uma vida muda

Por trás dos quatro grandes montes se ouviu o choro rouco e profundo do triste Bem-te-vi. A cidade, silente e confrangida, assistia ao espetáculo dantesco do homem levado à revelia por dois cavaleiros sem pressa nenhuma. Já se aproximavam dos limites da cidade, e aí era que o homem esperneava na poeira, soltando clamores que não retiniam nas faces estáticas que assistiam ao cortejo. Lá onde tudo começou, no miolo da cidade, na casinha amarela, ao lado da porta, estava a líder dos que nada faziam por aquele que ia arrastado, atado como um escravo quilombola levado de volta. Sem pensar, Soledade dera abrigo àquele homem que chegara ali em trapos, prostrado, e foi direto bater em sua porta. Vinha faminto, assustado, mas com a atenção de Soledade logo se erguera. Voltara a parecer um homem de fato, limpo, comendo na mesa, capaz de sorrir, e assobiar. Antes que voltasse a ter voz pra falar quem era, Soledade o batizou de Bem-te-vi. Os vizinhos se compadeceram, e de pronto simpatizaram com o rapaz simples e de fala pouca, com um olhar de quem não teve família, e com um assobio, firme e acertado, igualzinho ao de um bem-te-vi. Entretanto, temeram por Soledade, o marido estava viajando, se chegasse não entenderia a presença daquele homem em sua casa. Ela, com olhar baixo, lhes dizia que não se preocupassem, Firmino estava na capital, e só voltaria dali a dois meses depois de tratar dos seus negócios, e de visitar suas velhas conhecidas da noite no cais.

Passado um mês, parecia que Bem-te-vi tinha nascido e se criado ali. Virara um faz tudo na cidade, era herói dos meninos e candidato a pai postiço dos que não tinham um de verdade. Os mais velhos o viam como uma boa alma, e as mulheres, casadas e solteiras, desfraldavam suspiros sempre que o homem com jeito de diácono prosélito passava sem devolver os olhares. Só Soledade que não comungava desses pensamentos. Naquelas noites quietas, Bem-te-vi assobiava para ela canções que ninguém mais lembrava, e outras que ele inventava na hora, deixando a menina com um sorriso cheio de lágrimas nos olhos. Entre um silêncio e outro, Bem-te-vi, ainda com uma voz atravancada, chegou a lhe falar que vivera num inferno de solidão, e que por ele ficaria na cidade para sempre. Soledade, fascinada a ponto perder a fala, ia acreditando em tudo, sem perguntar nada ao homem trêmulo de gratidão.

Mas naquele dia, os dois cavaleiros sem rosto vieram e o apanharam. Soledade acudiu depressa e deu de cara na certeza que os dois traziam. Estavam há muito em busca daquele homem que fugira do asilo dos leprosos, que ficava no alto de um dos montes, e do qual só se via um pedaço da muralha cinzenta. Antes que terminasse de ouvi-los, Soledade lembrou do feito dos trapos que Bem-te-vi vestia quando chegou: parecia roupa de preso. Ligeira, a verdade foi correndo de boca a orelha e todos tinham os rostos retorcidos pela possibilidade da cidade ter sido apodrecida toda de uma vez. Quando os gritos de Bem-te-vi cessaram entre as árvores, todos entraram em sua casas aliviados com a partida do impuro. Menos Soledade, que ainda naquela tarde recebeu um beijo na testa do senhor seu marido, que voltara com as mesmas poucas palavras e a distância costumeira. Era a sua vida de volta, sem fôlego e sem vontades, a não ser por uma coisa: dali em diante, só dormiria bem se encontrasse no vento pedaços de assobio trazidos lá do asilo, para poder sonhar com aqueles dois meses em que foi verdadeiramente feliz.

Morada

Quando os homens chegaram , encontraram Dona Lourdes na cozinha, sentada à mesa. A idosa olhava para o quintal, indiferente às grossas rach...