Talvez uma farsa incompleta
E convincente
Um intervalo, um desvio
Ou uma lacuna
Talvez um tratante
Um embuste
Um nó sem arremate
Um disparate, linha tênue
Corda bamba, lá em cima
- É bem mais do que parece
E bem menos do que se imagina.
sábado, 9 de junho de 2007
segunda-feira, 28 de maio de 2007
Nota de desaparecimento
Eu queria dizer
Mas não consigo admitir
Que eu não existiria sem você.
Já imagino tudo
A mão conferindo o bolso de trás
A camisa amarrotada nas costas
A mala sendo arrastada
É você indo devagarinho, saindo
Sem olhar pra trás
Com medo de me ver desaparecer.
E antes que batesse a porta
Antes que eu olhasse em volta
Meu vestido escorreria pelo ar
E cairia, e depois os brincos
Sem entenderem o sumiço
Do corpo que lhes carregavam.
E os porta-retratos também cairiam
Sem terem mais as mãos que antes lhes
Amparavam.
Assim, volto a ser o silêncio dos livros guardados
E dos discos arranhados.
Estarei em baús que nunca se abrem.
Mas as lágrimas ainda ficariam um tempo no assoalho
Antes de secarem.
quarta-feira, 16 de maio de 2007
O fantástico método Susy
Depois da desilusão, do desalento, e da vontade de morrer, Susy emergia reconfortada. Parecia alguém que dormia durante um filme e acordava de repente: "perdi alguma coisa?". Ia tomar café com a cara meio amassada, os olhos ainda inchados, rindo até da toalha da mesa e do formato dos pãezinhos. A família nem estranhava mais aqueles comportamentos. Afinal, ela acabava alcançar uma marca notável: era a décima desilusão amorosa em dez anos.
Suas amigas eram sempre relutantes, não abriam um milímetro do coração sem que hesitassem bastante, e isso quando abriam. Susy, não, se escancarava logo. Em poucas semanas já estava cheia dos eu te amos, escolhendo o nome dos filhos, pensando o feitio da casa, essas coisas. O problema era que, com mais uns meses, o namoro, por mais firme que estivesse, acabava subitamente. Parecia maldição, praga de viúva, karma ruim, vai saber. Sempre, lá pelos nove, dez meses, quando ela enfim atingia os píncaros da paixão desenfreada, aparecia algo que causava um abalo no namoro, e tudo desmoronava logo seguida. E o que vinha depois desses finais também tinha a duração conhecida, quase cronometrada. Os dois meses após o rompimento eram uma treva só: muito choro, caixas de lenço, dores de estômago, fraqueza, desânimo, mais choro, e vários outros efeitos colaterais de uma depressão repentina.
No mês seguinte, Susy limitava-se a juntar os caquinhos de si, tentando retomar a vida, tentando não ceder às lembranças das sensações e dos sonhos que pareciam tão eternos, e como é sempre doloroso ter isso tudo arrancado depressa. Daí, no quarto mês após o término do romance, Susy estava outra, estava nova, de volta à ativa, pronta para o ataque ou para ser atacada. Antes da metade deste mês, ela já iniciava conversas com um novo pretendente, e aí o ciclo recomeçava. Suas amigas a tinham como uma verdadeira louca, sem um pingo de amor-próprio, isto porquê ninguém sabia o que ia pela sua cabeça. Desde sempre tendo problemas com a balança, Susy descobriu na sua primeira desilusão que emagrecera mais naqueles meses de tristeza do que numa vida toda de dietas. É, o raciocínio era meio suicida, mas no fim valia a pena. Quando se curava totalmente, ela estava uns quilinhos mais magra, mais linda e mais gostosa, o que tornava os recomeços cada vez mais fáceis.
domingo, 6 de maio de 2007
No ato
E se há mais estrelas no chão que no céu?
E se meus olhos ardem amargos de fel?
E se todo caminho me conduz ao léu?
E se eu sou a noiva que chora sem véu?
E se pra minha fome não há leite nem mel?
Eu abro a carteira, procuro o retrato
E aquele sorriso me salva
No ato.
sexta-feira, 20 de abril de 2007
Ordinária
Na manhã, a primeira coisa que se ouve são os passos decididos de Martinha, escada acima. Vai com uma sede que só homem pode matar.
Ela bate, e Petrônio a manda entrar com a voz de sono. A primeira visão que ele tem ao acordar faria o cético mais encarniçado balançar nas suas bases. Era Martinha no lastro da porta, e seu corpo ficava ainda mais dourado na contra-luz das seis e meia. Isso sem falar da blusa amarrada com aquele nozinho infame, deixando transparente só o bastante para imaginação trabalhar; e o short, uma tira de pano que se muito tinha quatro dedos de crueldade. Pois era ela, com todo o seu poderio de carne e vontade, pra cair em cima de Petrônio assim que ele escovasse os dentes.
É sem tomar café mesmo - e tem café da manhã melhor? Com dois pulos ela está debaixo do lençol, pronta para ser torcida, virada e revirada, arrepiada até as sobrancelhas. Petrônio nunca resiste, apesar de andar meio enjoado. Ela também já está enjoada disso, e dele, mas àquela hora, e àquela gastura, vai com o que tem a mão, e que mão, e que boca, e que tudo. Petrônio se perguntava se uma pessoa de dezoito anos já teria vivido o suficiente para aprender tanta coisa. Quase milagres. Milagres de um amor barato, num hotel barato com o parceiro barato. Martinha achava isso melhor do que ficar até a hora do almoço ouvindo história de chifre na manicure.
Nove da manhã e Martinha sai do quarto de Petrônio com o cabelo molhado, cheirando a uma lavanda esquecida ali pelo hóspede anterior. Depois de transformar o colchão num charco de suor, de se lambuzar inteira de alegria e de se sujar até a alma, ela não poderia sair daquele jeito, mesmo contente. Voltava rápido para acalentar com todo amor do mundo o filho da patroa, que jurava que ela ainda não tinha dado o primeiro beijo. Martinha era assim, batia na mãe, tirava dinheiro do avô, e trepava com o meio-irmão sem perder um segundo para hesitar.
sábado, 7 de abril de 2007
A primeira noite de Ramiro
Tempos depois, quando se lembrasse do dia que Adelaide bateu na sua porta, Ramiro teria certeza de que aquele fora o momento mais difícil da sua vida. "O senhor pode me arranjar um copo d'água?", disse a moça com a firmeza de quem não tem tempo para parecer desamparada. De fato, ela não precisaria dizer nada para que se atestasse o seu real desamparo. Mas apesar do cabelo desgrenhado, do pó do rosto, e dos andrajos, não passaram dois segundos para Ramiro reconhece-la. Durante anos desejou aquele reencontro, mas depois de um tempo, passou a querer tudo no mundo, menos revê-la. Na época que ela bateu na sua porta, após os quinze anos de sumiço, Ramiro já sentia um avesso de saudade, era uma repulsa pelo passado como um desfigurado tem pelo espelho. Mas a questão era que Adelaide estava agora diante dele, e ele não sabia o que fazer.
Não só sede, ela também tinha muita fome, nem sabia há quantos dias não comia. E Ramiro lhe serviu prontamente, lhe atendeu em tudo, sem dizer uma palavra, sem fazer nenhuma menção ao passado, nem ao que viveram, nem ao que deixaram de viver. Junto àquele silêncio perturbado, Ramiro carregava um indisfarçável estupor, semelhante ao de quando a viu pela primeira vez. "O senhor mora sozinho?", perguntou ela, e Ramiro, sentado na sua frente, com os olhos vidrados, disse que sim com a cabeça, sem atinar para as mesuras sem propósito de alguém que lhe fora tão intimo. Depois da sua vergonha pública, Ramiro se mudara para uma propriedade fora dos limites da cidade, mais para se livrar do peso daqueles malditos olhos piedosos, e de toda a compaixão coletiva que a sua desgraça lograra. E Adelaide, mesmo exausta e faminta, ainda conseguia ter lucidez para estranhar a hospitalidade de um homem que vivia sozinho numa casa tão afastada. O jeito como ele lhe olhava foi só mais um dos sinais para que, enquanto se saciasse, ficasse alerta para qualquer coisa que pudesse acontecer.
Ramiro começou a ver algo diferente nos modos dela, parecia outra pessoa, se bem que poderia ser coisa da sua cabeça, nunca confiou muito nas próprias impressões, ainda mais com toda essa vertigem. Esteve calado desde que ela entrara na casa, e já era noite quando, livre de qualquer pretensão, conseguiu perguntar, no meio de um engasgo, para onde ela estava indo. Adelaide, assustadiça, fez um gesto vago, e Ramiro apontou a rede enrolada no canto da sala. Enquanto ela se ajeitava no leito e relutava em se entregar ao sono, Ramiro, no seu quarto, percebia no meio do seu aturdimento que depois dos quatro anos de um namoro exasperado, e dos quinze, exilado de si mesmo, ele finalmente passaria uma noite sob o mesmo teto que a sua amada Adelaide, e ainda que não dividissem a cama, aquela era uma noite mágica, uma noite muitíssimo esperada, adiada desde aquele sete de maio em que ele não viu a sua noiva entrar com o pai na igreja. E nem poderia, porquê no momento em que ele lá no altar vivia os primeiros minutos de uma via-crucis que já durava quinze anos, Adelaide, longe dali, partia sem saber para onde, no lombo de um cavalo, após ser tirada de dentro da própria casa por um homem, um desconhecido de quem só se livrou quando, quinze anos depois, conseguiu pular da carroceria de um caminhão que a levava para outro cativeiro. Foi assim que ela bateu a cabeça e, desmemoriada, vagou por vários dias até encontrar uma casa, a casa de Ramiro, para quem trouxe a doce lembrança de que um dia foi vivo.
quinta-feira, 15 de março de 2007
A terra de Vitorino
Na sala, Vitorino velava, sozinho, o corpo do filho. A guerra lenta e de poucos tiros já se arrastava havia vinte e sete anos, e pelo jeito, Paulo, menino nascido e criado no meio do conflito, não seria a última baixa. Ainda havia ele, Vitorino, e a cada filho seu que morria, a cada irmão que caía, a cada mulher atraiçoada, ele aferrava-se ainda mais ao juramento que já esquecera. Após anos e anos vendo a família sendo diminuída, Vitorino nem notava mais a própria dor, era como barulho de grilo ou de relógio à noite, com o tempo você se acostuma e dorme. Aos poucos ele se tornava um poço de ódio em que não havia mais espaço para pesares. E agora, sozinho na casa, Vitorino era finalmente um animal desvinculado de quase tudo que se possa chamar humano. Era um animal em prontidão, desapegado do que fora um dia, sem amores, lembranças ou aspirações. Antes de ser dominado pela sanha cega que lhe arrancou as memórias, Vitorino sonhou muito com a sua avó e com algo que ela costumava dizer: "Nessa vida ninguém tem nada, a gente só toma conta". Ainda bem que ela não viveu para ver que ele rejeitou o ensinamento a troco de um futuro tão incerto. Pois Vitorino fincou a família ali, disposto a não entregar os pontos jamais. Jurou defender dos invasores aqueles tantos hectares que estavam com eles desde antes da chegada dos holandeses, nem que isso significasse o extermínio de toda a linhagem.
À medida que a guerra recrudescia, a terra, defendida com tanto ardor, vinha sendo descuidada, posta a parte de seus afetos em favor do desejo de esmagar o outro lado, e agora, o que no princípio era um terreno dadivoso, se tornara uma propriedade inútil e estéril. Os animais tinham sumido, só as ervas daninhas se proliferavam, e Vitorino, lá dentro da casa, com o rifle na mão, esperava os rivais virem tomar posse, para que finalmente pudesse descarregar neles a sua última cartucheira, com todo o gozo de satisfação acumulado de uma descendência inteira impedida de nascer por causa do flagelo. Mas eles não vieram, e não vieram nunca. Só muitos anos depois, quando um povoado se formava do outro lado vale, colonos encontraram dentro de um casebre um esqueleto enroscado numa espingarda. "Vamos embora daqui, essa terra deve ser ruim demais", disse o mais velho.
À medida que a guerra recrudescia, a terra, defendida com tanto ardor, vinha sendo descuidada, posta a parte de seus afetos em favor do desejo de esmagar o outro lado, e agora, o que no princípio era um terreno dadivoso, se tornara uma propriedade inútil e estéril. Os animais tinham sumido, só as ervas daninhas se proliferavam, e Vitorino, lá dentro da casa, com o rifle na mão, esperava os rivais virem tomar posse, para que finalmente pudesse descarregar neles a sua última cartucheira, com todo o gozo de satisfação acumulado de uma descendência inteira impedida de nascer por causa do flagelo. Mas eles não vieram, e não vieram nunca. Só muitos anos depois, quando um povoado se formava do outro lado vale, colonos encontraram dentro de um casebre um esqueleto enroscado numa espingarda. "Vamos embora daqui, essa terra deve ser ruim demais", disse o mais velho.
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