sábado, 7 de maio de 2005
Cora Norat
Espero que goste. Com amor, da tua eterna, Cora Norat.
Só em casa Danilo foi notar a dedicatória na capa do disco que comprara. A princípio não gostou daquela inscrição na capa do seu Led Zepelin 4. Porém, com o tempo, começou a passar uns minutinhos pensando como seria aquela desconhecida de escrita objetiva e bom gosto musical.
Meses mais tarde Danilo dirigia-se para a sala onde faria o seu primeiro vestibular. Sua tranqüilidade o abandonou quando deu com o indicador no nome dela bem acima do seu na lista fixada na porta. Tomou seu lugar e ficou vendo qual daquelas garotas poderia ser a tal Cora, a sua Cora, a Cora. Corinha, porquê não? Alguma tinha de ser ela, não haveria numa cidade duas Coras Norats...
Só descobriu quem era a Cora meses depois da aprovação, durante uma chamada já na primeira semana de aulas na universidade. Danilo não lembrava de tê-la visto no dia da prova. Como aquela menina tão atraente ali do seu lado lhe passara desapercebida naquele dia? Após o espanto, afligia-se agora sem saber como se aproximaria dela, apesar da certeza de que iriam ficar amigos (ou até mais que isso). "Led Zepelin, arquitetura, All Star... É afinidade demais, não pode dar errado..."
Depois de ouvir a história, Cora ficou puta por ele ter achado num sebo o disco que dera ao ex-namorado. E com comentários frívolos sobre relacionamentos, a conversa entre eles cessou pra nunca mais ser retomada. Danilo não fez mais questão. Ela era muito chata.
segunda-feira, 25 de abril de 2005
Possibilidade
Moravam os três numa casa de dois cômodos. A casa era distante de tudo, num estado de fronteiras tão incertas quanto a época das chuvas. Os três subsistiam, viviam por si próprios, em dias que começavam ainda escuros. Ferviam água de barreiros, cavoucavam uma terra teimosa, tomavam leite de uma cabra doente, e a insalubridade daquele viver contrastava com as suas longevidades. Só sentiam os anos passarem à medida que iam perdendo dentes.
E falando em tempo, já estavam ali havia tanto tempo que nem lembravam dos graus de parentesco. Nem se lembravam mais quem era mãe de quem, ou mulher, ou irmão, ou quem viera de passagem. Conversa não havia, e mesmo que houvesse, ninguém ia se preocupar em estar evocando um passado que talvez nem tivesse existido. Nunca houve passado. Só havia um presente, e naquele presente, a presença de ódio mútuo. Parecia inacreditável que três pessoas, tendo apenas a si mesmas num raio de milhares de quilômetros, pudessem se odiar tanto.
quarta-feira, 13 de abril de 2005
O cavaleiro e a donzela na torre (II)
Meu bem, não se iluda
Já me meti nesses enganos
Uma vez fiz tantos planos...
Fiquei burra, surda, muda,
Cega, doida, de verdade,
Com a possibilidade
Uma coisa absurda...
Era pouco o encanto
E nem era para tanto
Não durou uma só chuva:
Ergui o castelo e no fim
Ele caiu em cima de mim!
domingo, 3 de abril de 2005
O cavaleiro e a donzela na torre (I)
Balança minha rede
E mata essa sede
Que não sei se tenho.
Tá bom, não se gabe
Eu sei que você sabe
Porque sempre venho.
Poxa, vê se não some
E mata essa fome
Que não sei se é minha.
Não me transtorne...
Apenas transforme
Minha vida mesquinha.
Eu quero ficar pasmo!
Vamo sair do marasmo
E dessa piscina rasa.
Olha, não tem mistério:
Não me leve a sério
Só me leve para casa.
segunda-feira, 21 de março de 2005
Enfim, a vida
Talvez só te reste uns três anos de vida. O abatimento em que caiu após ouvir e interpretar cada palavra dessa frase insalubre quase o fez crer que só lhe restavam três minutos de vida. A imagem do médico pronunciando aquelas palavras ficou se repetindo debaixo das pálpebras cada vez mais lentamente, e a cada nova repetição o traçado labial ia ganhando um contorno cada vez mais vil, debochado, insuportável. Nem era por causa da compaixão profissional do médico. Doía por já ser caso pensado, coisa decidida, inapelável.
Saiu a passos vacilantes. Seriam apenas três anos de vida. Apenas três anos. Três anos. Três. Apenas. Era possível que dali a 36 meses estivesse sendo levado às pressas a uma urgência, num último esforço ante o irremediável. Seria a última demonstração de afeto e consideração, tentativa incauta de amenizar a aspereza dos seus instantes finais. Foi só um mal passageiro, coisa boba, era o que ensaiava para dizer a mulher quando chegasse em casa e escondesse o exame.
A primeira coisa que fez foi voltar à cidade onde vivera na infância. Procurou uma antiga vizinha que, morta de rir, recebeu dele as desculpas por um certo roubo de calcinhas do seu varal quarenta e tantos anos antes. Na volta, fez pipa com o filho; reviu "Marcelino, pão e vinho" oito vezes e se permitiu chorar em todas; participou de tudo quanto é amigo secreto e foi fazer aulas de francês. Morreu 30 meses depois da infausta consulta, sem jamais ter dito eu te amo a mulher.
segunda-feira, 14 de março de 2005
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005
História de criança
Era uma vez uma criança. Era uma vez uma janela. Era uma vez uma cadeira ao lado de uma janela. Era uma vez uma criança em cima de uma cadeira. Era uma vez uma babá displicente. Era uma vez um parapeito. Era uma vez uma criança num parapeito. Era uma vez a cidade lá em baixo. Era uma vez um grito de mulher. Era uma vez um susto, um céu e um vento. Era uma vez uma criança.
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Notem que aqui ao lado há um link novo ("A novidade") de um novo blog. A idéia é nos moldes do Cítricas, de Bruno, mas o papo lá é outro...
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