sexta-feira, 18 de fevereiro de 2005
Desventura
Quem me cura
Quem me cura
Dessa dor que é intensa
Tanto que até se pensa
Que nunca vai acabar
Quem procura
Quem procura
O remédio da doença
É aquela tal presença
Que não pensa em voltar
Tanta jura
Tanta jura
Do meu lado nessa mesa
Mas sobrou só a tristeza
No almoço e no jantar
Nada dura
Nada dura
Ele me mostrou sorrindo
O maldito do Destino
Que só vem azucrinar
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005
Urgência atrasada
Venha logo para casa, é urgente, foi o que conseguiu ouvir na ligação tumultuada. Coisa estranha, isso nunca havia acontecido, acabou indo. Ia a pouco mais de um quarteirão de casa quando percebeu sua rua coberta por um lixo limpo. Pedaços de fotos suas quando criança, cacos de eletrodomésticos, peças de roupas femininas, que loucura é essa? Viu de longe um filete de fumaça que nascia bem de onde estava sua casa. Lá também havia uma aglomeração de carros, de gente, sirenes. "Deve ter sido o botijão de gás", ouviu de alguém quando chegou.
É um troço bastante chato você chegar em casa e ver que ela não existe mais.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005
sexta-feira, 21 de janeiro de 2005
Choque pós-traumático
A casa andava num silêncio sólido. Quase se podia ouvir o tricotar aracnídeo nos cantos do teto. As portas e as janelas mantinham-se dia e noite fechadas, e o pó, que antes repousava sobre os móveis, agora estava no ar como nas câmaras egípcias.
Era de se espantar que houvesse gente vivendo ali. Lá dentro, parecia que todos haviam perdido a fala na mesma hora. Nas vezes que um passava pelo outro nos cômodos e nos corredores, nem sequer trocavam olhares. Limitavam-se a ficar nos seus quartos, abafando com lençóis um ou outro choro mais insistente. Tamanha era a desolação que Leila perdera o apetite. O fato de ninguém ter dado a mínima para o seu fastio não lhe incomodou tanto quanto a apatia da casa.
Também já estava há dias sem dormir. Inquieta com aquela modorra caótica, por vezes amanhecia revirando tudo atrás de motivo para aquilo. Naquela manhã, Leila estava no terraço quando o jornal foi jogado no jardim abandonado. Ao folheá-lo, encontrou uma foto sua ao lado de uma cruz e de um convite para uma missa. Foi assim que entendeu tudo.
sábado, 8 de janeiro de 2005
O momento da deflagração
Estavam lá os três, estáticos. Pareciam atados entre si por cordas invisíveis. Silêncio. Mesmo um diante do outro, era como se quisessem passar despercebidos na paisagem da sala, camuflados, miméticos, decorativos. Estavam lá os três, imersos numa realidade oleosa onde não havia som nem os ponteiros se moviam. Tensos. O que estava perto do telefone não tinha por quê telefonar; a que estava perto da arma não tinha como atirar; a que estava perto da porta não tinha como correr. Tudo parado naquele espaço sem tempo. Em comum, só os olhares sobressaltados. Por mais que a filha colocasse os seus olhos nos da mãe e com eles gritasse que aquilo não poderia estar acontecendo, o visitante inesperado já estava dentro, aquele havia sido o momento da deflagração, e a partir dali um seqüestro entrava em andamento.
domingo, 2 de janeiro de 2005
Não vou mais sozinho ao cinema
Fui ao cinema ver uma tragédia
Sobre um cara e o seu dilema.
Mas tanto faz, romance, comédia:
Não vou mais sozinho ao cinema.
Na bilheteria, eu espero alguém
Que não virá, é esse o problema.
O filme até pode ser bom, porém
Não venho mais só, ao cinema.
Antes vou comprar uma pipoca
E o pipoqueiro me olha com pena
Deve achar que sou um boboca
Para vir sozinho ao cinema.
Dentro, estou guardando o lugar
E esperando aquele telefonema
De alguém que não vai me ligar
Para avisar que não vem ao cinema.
Vai ser triste quando o filme acabar
E não ter com que comentar a cena
Onde o cara diz, na mesa do bar:
"Não vou mais sozinho ao cinema!"
domingo, 26 de dezembro de 2004
O fardo
Evaristo nunca perdera sequer um par ou ímpar. Sua sorte chegava a ser irritante, causava inveja, infortúnios, desconfianças. Sempre passara por trapaceiro, enganador, mas não era, ele sabia que não era. A droga da sorte era um dom seu, inexplicável, ele não tinha culpa de sempre ganhar tudo que concorria. Numa noite, depois de uma vida cheia de sobressaltos e fugas, pegou tudo de valor que tinha e se meteu num cassino.
As fichas tilintavam nervosas nas mãos. Encostou a barriga vazia na banca e o croupier lhe olhou com seus olhos baços, era um olhar sem olhos que era o olhar do próprio Azar. "Façam suas apostas", gritou ele. Rouge, noir, passe, manque, zero, tanto fazia, ganharia de qualquer jeito. Dispôs as fichas formando uma cruz e esperou a bolinha parar. Horas depois, possuía uma quantidade de fichas tal que não se podia carregar. Pitaqueiros, prostitutas de luxo, outros jogadores, todos vinham para perto, todos queriam acompanhar os lances daquele milagre profano. Nunca se soube nada como aquilo naquele cassino. Pôquer, roleta, trent-et-quarante, estava ganhando tudo, espetacularmente. Sua sorte parecia não ter limites, quando se deu conta já era um milionário. Com os olhos inundados de luz, Evaristo nunca apertou tantas mãos, nunca foi tão paquerado, nunca foi tão querido. Ele sabia que aquela era a sua noite triunfal, sua noite gloriosa, a noite da sua desgraça.
Ainda não tinha amanhecido quando Evaristo fora encontrado num beco com três tiros no peito. Havia sido como ele previra. Fazer o que ele fez naquela noite não daria noutra coisa, mas finalmente seu tormento chegara ao fim. Sabia que com aquela sorte toda jamais teria o amor verdadeiro de alguém.
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