domingo, 19 de dezembro de 2004
Conto de Natal
Foi assim: um menino, devia ser menino de rua, pelo jeito era mesmo, todo maltrapilho, sujo, tinha entrado na loja sem querer, na verdade queria, mas não podia, nunca pode, acabou indo junto no tumulto, tem muita gente nas lojas nessas épocas, aí ele entrou na loja, ninguém notou ele, e ele ficou lá, não roubou nada, não tocou em nada, quando foi sair, viu que caiu alguma coisa da bolsa de uma mulher, e ele correu, apanhou, era uma blusa, foi devolver, e saiu da loja, e disparou o alarme, o lacre da blusa, e a mulher sumiu, todo mundo parou, e o moleque também, o alarme gritando, todo mundo parado, o segurança veio, viu o moleque, e o moleque viu ele, e ficou com medo, e saiu correndo, e tropeçou na blusa, e caiu na calçada, e o segurança chegou, levantou o cacetete, e começou a bater, e bateu, bateu muito, na cabeça, no nariz, nas costelas, e o moleque chorando, esperneando, coitado, apanhou tanto, sagrou até, e era só um menino, uma criança, e em pleno natal, o natal das crianças, era véspera, e ninguém ajudava, ninguém nem olhava, que natal é esse, cadê o espírito natalino, cadê o Papai Noel, cadê o menino Jesus?
domingo, 12 de dezembro de 2004
Reprise
- Quanto?
- Vinte reais.
- Toma... Amanhã você pode vir um pouco mais cedo?
- Tá.
- Ei, será que lá não tem outra mais gostosa, não?
- Ué, enjoou, foi?
- Não, não... Eu tô gostando, mas eu queria variar, sabe...
- Sei...
- Bom, de qualquer jeito, te espero amanhã.
- Tá ok.
A senhora que ouvia do outro lado da parede pensou tudo, menos que o seu vizinho estivesse falando com um entregador de pizza. Infelizmente, era com uma de calabresa que iria pra cama outra vez.
::: Mais tema único em alguns dos links ao lado.
- Vinte reais.
- Toma... Amanhã você pode vir um pouco mais cedo?
- Tá.
- Ei, será que lá não tem outra mais gostosa, não?
- Ué, enjoou, foi?
- Não, não... Eu tô gostando, mas eu queria variar, sabe...
- Sei...
- Bom, de qualquer jeito, te espero amanhã.
- Tá ok.
A senhora que ouvia do outro lado da parede pensou tudo, menos que o seu vizinho estivesse falando com um entregador de pizza. Infelizmente, era com uma de calabresa que iria pra cama outra vez.
::: Mais tema único em alguns dos links ao lado.
terça-feira, 7 de dezembro de 2004
Quando a farpa se mexe
O prédio todo já sabia das duas moças que haviam alugado um dos apartamentos. O burburinho agora era a respeito do parentesco delas. Como ninguém averiguaria qual era, de fato, alguém sugeriu algo e os demais deduziram: eram lésbicas.
No apartamento bem acima do das novatas, a família jantava quando a menina se dirigiu a mãe:
- Sabe aquelas duas daqui de baixo?
- O quê que tem elas? Elas mexeram contigo? Olha, se eu souber que você andou de conversa com aquelas duas nojentas...
- Eu vi elas hoje de manhã...
- Não devia nem ter visto! Mas, e daí? O que houve?
- Elas tavam se beijando...
- É o quê? O que foi que você disse? Pelo amor de Deus! Tá vendo, Antônio? Eu sabia, eu sabia! É por isso que quando o povo fala ou é ou tá pra ser! Que horror! Amanhã mesmo eu vou falar com a síndica! Não é possível! Como podem aceitar esse tipo de gente num prédio de família? E nossas crianças? Expor nossos filhos a esse tipo de coisa! Ah, amanhã a síndica vai ouvir!
Depois da explosão da mãe, a menina fala baixinho, olhando pro fundo do prato:
- Eu nunca vi a senhora beijando o papai...
terça-feira, 23 de novembro de 2004
O último crepúsculo
Carmen não imaginava que pudesse sair da boca de alguém um ar tão quente como o que saiu da de Gustavo. Sentiu-o na sua nuca, depois do estampido e antes dele cair. Antes de também ir ao chão, Carmen viu Leopoldo envolto numa moldura embaçada, com os olhos no revólver fumegante como se perguntasse porra, Carmen, por que você foi se meter entre a bala e esse infeliz. Quando enfim caiu, Carmen estava perplexa demais para sentir dor. Ainda assim ouviu o grito de bala alojada de Gustavo espantar uma revoada, enquanto seu sangue manchava de vermelho aquele fim de tarde inevitável.
quinta-feira, 18 de novembro de 2004
terça-feira, 9 de novembro de 2004
Elevação
Vista a pele de cordeiro
Perca o meu paradeiro
Para depois me achar
Pelo cheiro.
Desamarre meus cadarços
Embaralhe meus passos
Nessa valsa, embale-me
Nos teus braços.
Seja o iceberg do meu Titanic
A formiga do meu piquenique
Seja a causa, o acaso
que nunca se explique.
Eu sou a ovelha a ser desgarrada
Eu sou a alma a ser desviada
Faça tudo para me tirar
Do nada.
quarta-feira, 3 de novembro de 2004
Cem Anos de Desilusão
Já enterrei minha última quimera
Formidavelmente
E depois de navegar precisamente
Topei com uma pedra no meio do caminho.
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