sábado, 25 de março de 2023

Morada

Quando os homens chegaram, encontraram Dona Lourdes na cozinha, sentada à mesa. A idosa olhava para o quintal, indiferente às grossas rachaduras que tomavam as paredes e estufavam o frágil reboco da sua casa. Absorta, como se despertasse de um sonho, a mulher demorou um tempo para perceber aqueles três indivíduos diante dela. A visão da mulher solitária naquela casa arruinada quase os fez esquecer do que haviam ido fazer ali, até que um deles, mais afoito, não pôde mais segurar as palavras que foram ensaiando por todo o caminho:

- Vamos, Dona Lourdes – disse o mais jovem.

A questão tivera início quando começaram a perceber rachaduras nas casas do povoado, na igreja, na delegacia, e em todas as construções de barro e alvenaria num raio de cinquenta quilômetros. Ao longo dos dias, os estalos na argamassa das construções foram se tornando um ruído persistente por onde quer que se andasse, e a população alarmada se debatia na busca por alguma explicação para o fenômeno. Quando as primeiras casas começaram a desabar em pontos diferentes da localidade, alguém supôs que o problema talvez pudesse estar relacionado à ação de uma mineradora recém-instalada na região.

Metade do povoado já estava em ruínas quando um representante do governo do estado foi até lá acompanhado de um funcionário da mineradora. Pelo o que disseram, todas as moradias teriam que ser abandonadas às pressas em razão do comprometimento irreversível do solo pelas sucessivas descargas de dinamite nas pedreiras da empresa. O funcionário fez questão de deixar claro para todos que as novas casas para os moradores do povoado já estavam sendo construídas em uma cidade próxima, mas o importante era que todos saíssem dali o quanto antes para que se evitasse algum contratempo maior.

O funcionário da mineradora havia recrutado gente dali mesmo para dar a notícia e auxiliar os moradores na realocação. De maneira mais ou menos consciente, aqueles três que foram contratados haviam deixado Dona Lourdes por último não só por ela ser a moradora mais antiga do povoado, mas principalmente porque sabiam o que ela pensava de toda aquela situação. Logo que ela percebeu que o povoado estava ficando vazio, e que os seus vizinhos estavam indo embora para sempre, ela nem tentou disfarçar o seu desespero em ter que deixar tudo para trás. A mulher de quase oitenta anos praguejou em público, vociferando contra quem quer que ousasse tirar ela dali, porquê dali ela não sairia de jeito nenhum.

No dia do prazo final para a evacuação do povoado, o funcionário da mineradora solicitou uma reunião com o presidente da empresa. O assunto do encontro era que os três contratados para auxiliarem na remoção das pessoas não haviam aparecido para receber o dinheiro que lhes seria pago após o último morador sair dali. Enquanto patrão e empregado especulavam a razão da recusa deles em receberem por todo o trabalho que foi esvaziar aquele lugar, aqueles três homens só pensavam no que Dona Lourdes havia lhes dito naquela manhã, antes de deixarem a sua casa:

- Sabia que meu marido está enterrado nesse quintal? – disse ela.

segunda-feira, 2 de março de 2020

A última farra

Passava das quatro da manhã quando ouviram as pancadas na porta. A banda parou de repente.

- Abram! Abram! Inspeção sanitária! – disseram lá de fora.

Magnólia, a velha matrona que era a proprietária do cabaré, correu para atender a porta, amarrando o xale de seda, sem ainda entender o que se passava. Das portas do corredor mal iluminado foram brotando cabeças, Corrinha, Matilde, Judite, Geralda, Vera, todas curiosas, tentando ver o que acontecia lá adiante. De longe não se ouvia nada, só viam lá fora dois homens de branco com máscaras cirúrgicas, gesticulando como se dessem informações bem detalhadas, até que Magnólia fechou a porta, passou todas as trancas, e se virou, lívida. Quando as meninas correram para saber o que houve, a cafetina falou com uma voz resignada, de catástrofe:

– Estamos em quarentena. Ninguém entra, ninguém sai – disse.

Pelo o que os homens de branco disseram, a cidade estava vivendo um surto mortal de gripe, e muitos dos diagnosticados mais recentes haviam estado no cabaré. Para as autoridades, não havia escolha: quarentena por catorze dias, e nada de contato exterior. Quem ousasse sair dali, furando o bloqueio, correria o risco de ser preso ou até morto pelos policiais que cercavam o casarão. Magnólia havia reunido todo mundo no salão, a banda, as meninas, os homens ainda de cuecas, e mal acabara de explicar o que se dava, alguns dos nobres senhores casados que aproveitavam a noite sob pretexto de estarem fazendo cerão começaram a protestar, apavorados. Seria o fim. Como iriam se explicar? E a família quando soubesse? Os filhos? A mulher? Nenhum daqueles homens sequer cogitava ser chamado de quengueiro, e caíram em um desespero sem precedentes quando se viram impossibilitados de saírem dali. Algumas das meninas trataram de consolá-los, outras riram de deboche, querendo saber o que a cidade pensaria daqueles homens bem casados que não dispensavam a companhia das meninas de Magnólia.

No meio do reboliço dos homens em pânico, Magnólia levava as mãos a cabeça, pensando em quem poderia estar passando a moléstia para os outros. E se fosse ela mesma? Se aquele calor que sentia já não era um prenúncio da febre e da morte iminente? Os homens queriam sair de qualquer jeito, forçavam as portas e as janelas, mas eram segurados com dificuldade pelo pessoal da banda e pelas meninas. Duvidavam de que estivessem cercados, mas o fato era que tentar sair dali seria suicídio, o jeito era esperar e pronto. Quando parecia que tudo não poderia piorar, Seu Juraci dos Couros puxou um revólver e deu um tiro pra cima que estremeceu o casarão e derrubou o lustre da ante-sala. Sem pensar, Cristino, o leão de chácara do cabaré, pulou na frente de Magnólia, clamando à razão daquele homem e dos demais, temendo uma desgraça ainda maior:

– Se acalmem! E se vocês estiverem com essa gripe no corpo? Vão arriscar passar isso pra mãe, pra mulher, pros meninos? – disse Cristino, quase aos prantos.

Para uma frase que surgiu de improviso, em um momento de tensão como aquele, até que ela foi bem colocada, e os homens que antes estavam indóceis, pararam, confusos, com a possibilidade de condenarem os entes queridos à morte. Pensando nisso, concordaram que o melhor era permanecer ali até que a quarentena acabasse e depois veriam como tudo ficaria. “Se tivermos que morrer, então vamos morrer aqui, juntos!”, disse Cristino, triunfante. Nessa hora, a banda voltou para o palco e Magnólia, após conferir que o estoque de bebidas e tira-gostos daria para mais de um mês, subiu numa cadeira para dar o seu veredito que tinha ares de convocação:

– Vamos fazer a maior festa que esse cabaré já viu. Vocês são meus convidados! – disse Magnólia.

Do lado de fora, ninguém entendeu quando se ouviu o som da banda, os alaridos e os urros de êxtase vindos lá de dentro do casarão: era a farra mais ruidosa de que já se tivera notícia. E para aquelas mulheres tristes, para aqueles músicos, e para aqueles homens ali confinados, ela seria eterna.


quinta-feira, 25 de julho de 2019

É a vida


Um dia ela não veio. Aquela senhora, que todos os dias vinha àquela praça, que todos os dias sentava naquele banco, que todos os dias passava uma hora ali sozinha, calada, parada, um dia ela não apareceu. Da janela do meu quarto eu a observei repetindo aquele ritual inócuo por quase cinco anos. No começo, ela parecia esperar alguém, depois julguei que estivesse vigiando alguma coisa, e então achei que ela estivesse me espiando, pois o banco em que ela sentava fica exatamente de frente à minha casa. Protegido pela cortina, eu a via sem que ela me visse, mas pela sua expressão plácida, pelo seu ar sereno e contemplativo, ela parecia querer dizer que sabia que eu estava ali, observando-a. Foi daí que passei a mudar meus hábitos por causa dela. Comecei a sair mais cedo do trabalho, fazia compras apenas à noite, não fazia nada entre as 4 e as 5, tudo para não perder o instante exato em que a senhorinha chegava e a hora em que saía, era meu compromisso diário. Eu tinha que estar em casa antes que ela chegasse na praça, sempre precisamente às 16 horas, e se eu precisasse sair, só sairia após as cinco, quando ela se levantava, e ia embora com seu passinho miúdo, pelo caminho que tinha vindo. Enquanto isso, eu cá atrás da cortina, com minha xícara de café, mordiscava uns biscoitinhos, mal piscava, à espreita de alguma atitude diferente naquela senhora que eu nunca soube quem era.

Quanto mais passava o tempo e nada diferente acontecia, fui pensando cada vez menos nos intuitos obscuros que ela pudesse ter, ao mesmo tempo em que fui sendo tomado por uma curiosidade absurda sobre sua pessoa, até que essa curiosidade foi se transformando em compaixão, e por fim eu estava totalmente afeiçoado aquela senhorinha que parecia tão solitária, tão frágil, relegada àquela sua rotina. Mas aí teve o dia que ela não veio. Eu estava à postos, eram 16 horas em ponto, mas o banco estava vazio. Pânico. Deu cinco horas e ela não apareceu. Saí para a rua. Seis horas, anoiteceu, e nada dela. Mal dormi nessa noite. O que teria havido? Será que ela tinha morrido? Sofrido um acidente doméstico? Escorregou no banheiro? Vi o dia clarear enquanto remoía essas dúvidas no travesseiro em busca de alguma razão possível para o sumiço daquela senhora. No dia seguinte, fui todo ansioso para a janela, na hora precisa, e nada. Nem sinal. E foi assim, dia após dia, depois outro, e outro, ela não voltou mais e não voltaria nunca mais. Está difícil, mas é a vida. Eu já tinha esquecido como era esse negócio de solidão.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Todo dia é isso


Foi assim: Neguinho chegou na casa de Deivison era umas quatro e meia, por aí. Dona Socorro não viu quando ele saiu, mas Dayane ouviu a porta batendo. Coisa estranha. Ir na casa dos outros uma hora dessas, de madrugada, tudo escuro ainda. No outro dia, Dona Socorro foi perguntar se Dayane sabia de Deivison, sabia nada, Dayane não sabia de nada, não sabia nem dela mesma, só via Deivison todo estranho, calado, andando pra cima e pra baixo com Neguinho, falando que iam fazer uma parada, parada isso, parada aquilo, capaz de terem ido fazer essa tal parada hoje, Dayane dizia. Olhe, só Jesus, viu, Dona Socorro ficava irada, não gostava de Deivison de amizade com Neguinho, sabia que Neguinho era errado, já pintou mizera nesse bairro, foi preso quando era de menor, agora qualquer coisinha era presídio, sem boquinha. Mas Neguinho queria um parceiro, e colocou Deivison na fita, ia dar certinho. Deivison era desenrolado, botou o ferro na cintura e meteram o pé na moto. Seis e meia, pessoal no ponto de ônibus, Neguinho passou devagar e Deivison falou “bora, bora”. Lá na frente fez a volta e voltou ligeiro. Deu nem tempo parar e fazer a limpa, dois balaços e os dois no chão, cabou-se, papai. Tinha um p2 armado no ponto de ônibus, aí já era. Dona Socorro chegou chorando, Dayane também. Aí veio a viatura, o Samu, o rabecão, a TV, veio o povo olhar, o repórter fala com uma moça, aqui todo dia é isso. Todo dia.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Japa girls

Tempos atrás eu me dei conta de que praticamente tudo que eu curto no Japão em termos de bandas era encabeçado por mulheres. Indo totalmente contra os estereótipos, coloco cinco bons exemplos para que ninguém duvide de que as mulheres mandam muito bem na terra do sol nascente. Se liga:
  
Shonen Knife Pop Tune

 

  Nelories Set Pure Ven  


 
The 5.6.7.8's Woo Hoo


Cibo Matto Sugar Water (Video)

 

Asobi Seksu Me and Mary


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Breve biografia de um inadequado


Nick Drake só gravou três discos. Morreu cedo, aos 27 anos. Como ele, outros também morreram nessa idade: Hendrix, Jim Morrison, Janis. Ao contrário desses, Nick Drake não conheceu a fama, nem o aplauso das grandes platéias. Não viu sua obra ser comentada, não chegou a ver a influência dos seus discos, nada. Viveu no lado B do estrelato, trilhando o outro caminho possível na trajetória de qualquer gênio: a ausência do reconhecimento de público, o completo fracasso, e no fim, a mágoa.

Enquanto Hendrix, Morrison e Janis inauguravam uma nova era, com novos sons e novas abordagens, Nick Drake gravava o seu primeiro disco, Five Leaves Left (1969). Era quase que estritamente folk, violão e voz, numa época em que as guitarras cada vez mais estridentes viravam protagonistas dos espetáculos (até Dylan se rendera a ela). Avesso a entrevistas e a plateias, tímido, de uma introspecção quase patológica, Nick Drake raramente aparecia, nem se apresentava, no momento em que turnês e shows em arenas já eram coisa corriqueira para qualquer aspirante a ídolo.

Esse primeiro disco até que teve uma boa aceitação, o que o fez partir com tudo o segundo trabalho. Arregimentou uma banda, incorporou elementos do jazz, coros, solos de sax, contou com ajudas de peso como Joe Boyd (Fairport Convention) e John Cale (Velvet Underground), mas o disco não emplacou. Era Bryter Later (1970), sua obra-prima, e ele sabia disso. Mas às portas dos anos 70, com Led Zepelin, Yes e Bowie fazendo da grandiloquência e da afetação escadas para o sucesso, ninguém deu a mínima ao disco daquele tímido trovador do interior da Inglaterra.

Aí Hendrix, Morrison e Janis se foram, talvez sufocados por uma brutal sede de viver tudo ao mesmo tempo agora. Nick, lá no polo oposto, após juntar os cacos de sua autoestima, partiu para um autoexílio de onde só sairia para o cemitério. Retirou-se de um convívio do qual nunca fez parte de fato e apagou-se distante das páginas das revistas e sem homenagens. Antes, gravou Pink Moon (1972), sozinho, quase de uma tacada só, num último jorro de criatividade. É a sua carta de despedida, talvez um dos discos mais contundentes da história.

Hoje Nick Drake é aclamado. De Billy Corgan a Renato Russo, passando por Belle and Sebastian, não falta quem exalte a sua genialidade. Uma vez Bráulio Tavares escreveu: “o gênio, em geral, é aquele cara cuja obra gostaríamos de ter escrito, mas cuja vida não ousaríamos jamais viver.” Não sei se Bráulio conhece Nick Drake, mas o trabalho e a trajetória daquele inglês de 1.91 de altura só confirmam sua teoria.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O lado escuro do hype


QUAL NÃO FOI a minha surpresa ao dar de cara com o Tame Impala na trilha da novela da Globo? Na verdade, nem era tanto de se espantar ver uma banda dessa em “O Rebu”, que tem buscado uma trilha mais moderninha, quase indie. Mas o fato acabou me lembrando de que, ultimamente, em meio a um pop cada vez mais coreográfico e um rock cada dia mais robótico, bandas com um viés mais psicodélico tem despontado com certa frequência e qualidade.

A cada dia eu venho tendo a impressão de que este segmento tem se fortalecido como um reduto e um meio por onde expressar um lado mais orgânico do rock’n’roll que tem sumido das paradas e das rádios. O Tame Impala talvez seja o grande exemplo disso. Com dois discos gravados, os moleques acabaram chamando atenção com um som que remetia tanto aos vocais de Lennon quanto aos riffs do Led Zeppelin, tudo isso embebido numa atmosfera etérea que vai bem tanto no disco como ao vivo. Mas não fica neles. O Foxygen, que é mais ou menos da mesma safra, trás um apelo menos viajoso e mais calcado no pop sessentista, a exemplo do que o Apples In Stereo, e outras bandas da Elephant Six faziam no começo dos anos 2000. Com eles, a experimentação, a ausência de linearidade, convive muito bem com o brilho e o senso pop dos mais aguçados.

Outro, mais recente, que tem chamado atenção inclusive de gente como Noel Gallagher e Johnny Mar é o Temples. Há quem diga que são seguidores do Tame Impala, mas pelo visual e pela sujeirinha no som, dá pra ver que eles estão procurando algo bem próprio. O terreno até que coincide em alguns momentos, mas o Temples traz um tom mais obscuro e mais roqueiro dentro dessa veia psicodélica, e claro, tudo disposto na estrutura de canção pop para não cansar a paciência do ouvinte. Syd Barret e Marc Bollan curtiriam.

Há também, entre as novidades, uma daquelas com um nome bem à moda da Costa Oeste americana, dos anos sessenta: The Ghost of a Saber Tooth Tiger, que é capitaneado por ninguém menos do que Sean Lennon, o filho do homem. Não é de hoje que o rapaz lida com essas instâncias psicodélicas, tanto que é fã declarado de Arnaldo Batista, dos Mutantes, e ainda considera os Beach Boys maiores do que os Beatles. Preferências à parte, o certo é que o rapaz sempre teve jeito para a coisa e esse novo trabalho (Midnight Sun) mostrou uma consistência comparável a dos trabalhos mais loucos dos Flaming Lips, por exemplo. No Brasil, a coisa parece também se desenvolver bem. Por muito tempo o Júpiter Maçã foi o único representante da lisergia a ter algum destaque, mas de tempos para cá, fomos apresentados a nomes competentes e inspirados como o Super Cordas, o Bonifrate e um que tem crescido bastante e tem muito potencial para impressionar: os Boogarins.

Enfim, se você, como eu, anda bem cansado com o indie rock de meia tigela, esse sonzinho plástico de boate, comedido, domesticado, está na hora de se aventurar pelo lado escuro do hype. Mas cuidado: uma vez lá, pode não ter volta.

domingo, 1 de junho de 2014

Masterplan


Oasis
Definitely Maybe
(1994)

Muito tem se falado sobre o primeiro disco do Oasis (Definetely Maybe, de 1994) nesses seus 20 anos recém-completados. E de fato há realmente muito do que se falar: das vendagens absurdas, do vácuo que ele aproveitou após o declínio do Grunge, do retorno do guitar rock com força às paradas, da atitude, da autoestima elevada (até demais) nos anos do Britpop, o que faz todo sentido. Mas anterior a tudo isso, está a mola motriz, a figura central e força criativa do grupo. Seu nome é Noel Gallagher.

Além do talento indiscutível, do gosto e do bom senso, Noel tinha uma sensibilidade e uma perspicácia que quase não era notada em meio àquela atmosfera de álcool e outras cositas. Com uma atenção sutil, Noel pôde ver de perto ali em Manchester a escalada do Post-Punk com Joy Division, New Order, Smiths, A Certain Ratio e da gravadora Factory. No início da década seguinte, acompanhou o Madchester dos também conterrâneos do Happy Mondays e os Stones Roses.

Mas Noel, após ter visto e vivido tudo isso, sabia que aquele ainda não era o caminho, faltava algo. Olhava para a sua discoteca cheia de Slade, Bowie, Mott The Hoople, Neil Young, Beatles, e percebia um descompasso enorme entre o rock que comovera milhões décadas antes e o que via rolando na época. Faltava guitarra, faltava virulência, faltava rock no rock. Além disso, trabalhando como roadie de outra banda local, os Inspiral Carpets, Noel pôde ir à festas, ensaios, viu brigas, mixagens, falou com produtores, assistiu shows, conheceu plateias, viu o madchester perdendo relevância e o shoegaze londrino patinar numa melancolia contida. Era preciso mais, e Noel viu na banda do irmão a chance de levar a público músicas que vinha escrevendo havia tempos.

Daí foi uma questão de tempo. Da sua entrada no The Rain e o rebatismo para Oasis, e depois com demos gravadas, ao show na Escócia, onde assinaram um contrato com a célebre Creation Records, foi coisa de 3, 4 anos. Vieram as badalações, as brigas, fofocas, e todos aqueles excessos que rondam uma banda que bate recordes de vendagens no Reino Unido. O que fica, por mais autoajuda que pareça, é a marca do triunfo de um cara que sofreu com um pai violento, foi mal na escola, promoveu badernas na vizinhança, cresceu próximo a traficantes e hoolingans, e se revelou um dos maiores gênios da música britânica, cuja banda comandou a cena na segunda metade dos anos 90.

Rock'n'roll Star

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Um pequeno clássico perdido



The Heavy Blinkers
The Night and I Are Still So Young
2004

Vou começar uma série que se chama Grandes discos recentes que passaram batidos. Um título bem auto-explicativo. É até compreensível que muita coisa boa se perca na enxurrada de lançamentos que se sucedem todos os meses e mal você descobre um já surgem mais uns dez que muitas vezes nem valem a atenção. O problema é que no meio desses pode ter um daqueles discos que você vai ouvir pelo resto da vida, que vai sobressair no meio de tanta coisa derivativa e sem personalidade. Foi o caso de The Night and I Are Still So Young, dos Heavy Blinkers.

O disco é do já longínquo 2004 e eu devo ter ouvido pela primeira vez lá em 2008, 2009. O primeiro pensamento é “como é que eu só vim ouvir isso agora?”, tamanha a surpresa. Na época eu pesquisava sobre Indie Pop e acabava de descobrir um tal Chamber Pop, no que pelo jeito esse disco se encaixava. Chamber Pop, como o nome já diz, é “pop de câmara”, numa referência à música de câmara, cuja a característica principal é a utilização de orquestras menores, tocando peças mais curtas, em ambientes que forneçam uma reverberação natural.

Mas o que o disco tem a ver com isso? Muita coisa. De cara surgem os arranjos orquestrais e vocais dispostos numa atmosfera que consegue ser pop e luxuosa ao mesmo tempo. Por aí já se vê nitidamente que as grandes influências do Heavy Blinkers são o Sunshine Pop do fim dos anos 60, Burt Baccharach (um dos maiores compositores de sempre) e os Beach Boys da fase Pet Sounds, que foi o disco onde a banda deixou a Surf-Music de lado e embarcou numa onda mais orquestral e sofisticada que impressionou até os Beatles, em 66.

Alguém que vai na linha desses aí, no mínimo merece alguma atenção. E no caso desse disco, os Heavy Blinkers não decepcionam. Fui com a cara de pouca coisa nesse século XXI, mas The Night and I Are Still So Young bateu forte, já desarma nos primeiros minutos e tudo o que você tem a fazer é se render àquele disco que só pode ter sido feito com muito carinho e esmero. É um disco lindo, não há muito o que dizer além disso. É um daqueles trabalhos feitos pra a gente acreditar, nem que seja por uns minutos, que o mundo pode ser um lugar melhor. O que é muita coisa.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A maior banda do mundo hoje é...


"...Like a Clockwork"
Queens of the Stone Age
2013

Dia desses eu vi uma frase de Dinho Ouro Preto que falava assim: “Falta uma banda que una todas as tribos. Como foi o Nirvana”

Não que Dinho Ouro Preto seja lá um pensador, uma referência, mas o cara vem de uma geração bem anterior, viu o Punk e veio acompanhando as coisas de um ponto de vista bastante privilegiado: de dentro da “máquina”. Vá lá que não valha pela reflexão, mas experiência também conta, e o que ele disse até que fez algum sentido, sim. O Nirvana conseguiu unir pólos muito distantes, congregou fatias generosas da juventude num nível global, atraiu desde o pessoal do underground até os públicos do mainstream mais superficial. Mulheres, rapazes, garotas, tiozinhos, todo mundo pirou no que o Nirvana trazia para um cenário mortificado que era aquele do início dos anos 90.

Olhando para hoje, quem é que tem essa capacidade de juntar gente de gerações diferentes, de “tribos” diferentes, de regiões e orientações distintas? Os Strokes conseguiram, mas por pouco tempo. Era preciso mais continuidade, mais pujança, mais identificação com o chamado público de rock. Trazendo pra hoje, uma das poucas, se não a única banda, capaz de atrair um número maior de adeptos das mais variadas vertentes roqueiras é o Queens of the Stone Age. E vou além: o Queens é a grande banda de rock da atualidade. Digo isso porque boa parte das bandas indie (Arcade Fire, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand, Strokes) estão acabando por se afundar mais e mais nesse nicho indie, abraçando o som de boate, os beats eletrônicos, como se este fosse o melhor dos caminhos criativos.

Já o Queens consegue se manter dentro do espectro do rock sem descambar para a plasticidade dos citados acima. Enquanto boa parte das bandas parece convergir para uma sonoridade meio Daft Punk, o Queens se coloca como um contraponto a isso, um refúgio para quem não tá tão interessado em danças nem em FMs. Donos de uma personalidade indiscutível, de timbres bastante particulares, o Queens segue conquistando desde o moleque que está aprendendo a tocar agora, até o pessoal que cresceu com o Grunge, e gente do metal. O último disco (...Like a Clockwork, 2013) foi a prova disso. No passado a banda chegou a ter grandes êxitos comerciais, aí mudou formação, andaram baleiando, mas em 2013 eles se aprumaram e o retorno foi magistral. Deram uma puxada no freio, mas não na criatividade. Abriram mais espaço para as vozes, investiram mais em ambiências, e fizeram um disco quase irretocável, que vai direto no ponto, sem rodeios, sem frescura. É um trabalho sombrio e ao mesmo tempo sexy, e mais denso do que pesado. Por essas e outras é que eu não tenho nenhum medo de afirmar: a maior banda do mundo hoje é o Queens of the Stone Age.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Sou mais elas

2013 vai acabando e a sensação é a de que quem mais fez pelo rock, pelo indie rock, foram as garotas. Depois de um ano cheio de derrapadas, com grandes bandas aderindo ao som plástico das boates e passarelas, foram as bandas capitaneadas pelas moças que ajudaram a manter as coisas um pouco nos trilhos, tocando como se deve tocar, com vigor, e sem inventar muito, sem frescura. E não tem nada de panfletário nisso, não estamos falando de riot grrrrls, punk feminista, mas sim de uma postura natural, onde cada uma vai na sua praia, com a sua sinceridade, sem essa de se "afirmar" ou "we can do it". Até porquê nem precisa, pois as músicas já falam por si. Abaixo, uma mostra do que elas aprontaram em 2013:
Best Coast - "This Lonely Morning"



Cobalt Cranes - "Head In The Clouds"



Speedy Ortiz - "Tiger Tank"



Tennis - "My better self"



Far From Alaska - "Thievery"


sábado, 9 de novembro de 2013

Cinco discos pra entender o Indie Pop

Muitos anos atrás, quando a finada MTV ainda servia de referência musical, conheci o Belle & Sebastian e a paulada foi forte. Era o Lado B, com o Kid Vinil, apresentando um especial com vários clipes da banda que acabava de ter os discos lançados no Brasil. Pra mim, aquilo era algo inteiramente novo, e familiar ao mesmo tempo. Era belo, melancólico, e irretocável do ponto de vista instrumental e melódico. Pouco depois, desatando um novelo de influências e antecedentes, fui descobrindo que a banda fazia parte de uma tradição que vinha já desde anos 80, nascida no meio do cenário alternativo, num estilo que se chamaria Indie Pop. Se o Indie Rock (que depois viraria um estilo à parte do rock alternativo, ambos nascidos do Pós-Punk) se tornara um vertente marcada por guitarras mais sujas e pela ausência de pretensões populares, o Indie Pop chegaria como um lado mais doce e ganchudo desse universo, focado principalmente nas melodias, com mais ou menos guitarras, como a banda preferisse.

Do meio desse mesmo cenário alternativo do começo dos anos 80 surgiram outras vertentes primas-irmãs do Indie Pop (Jangle Pop, Chamber Pop. Twee Pop), ambientes pelos quais muitas bandas transitariam com liberdade ao longo de suas carreiras, e na maior parte do tempo sem se fixar a nenhum deles. É por isso que rótulo é um negócio difícil de se lidar, muita gente não cabe em um só, quem se mete a fazer classificações geralmente acaba sendo reducionista. Mas falando em termos bastante gerais, vejamos cinco discos que podem dar uma visão do que seria esse negócio chamado Indie Pop:


The Smiths - The Queen Is Dead

Os Smiths não seriam apenas a banda indie definitiva dos anos 80: eles lançariam as bases do que se tornaria o Indie Pop no fim daquela década, início da próxima. Ainda que trouxessem muito da ideologia do Punk (a crueza do som) e do Post Punk (a ênfase no sentimento), os Smiths se aprofundaram na questão da timidez e do imaginário do “loser”, ao contrário do espírito vencedor, másculo toda vida, e agressivo que o rock vinha consagrando desde os anos 70. “The Queen Is Dead” foi o ponto alto da carreira da banda, a consagração para além do público alternativo, com um disco cheio de hits que mesclavam a urgência herdada do Joy Division com a presença de violões de Johnny Marr. “Bigmouth Strikes Again”, “The Boy With The Thorn With This Side” e a balada trágica “There’s a light that never goes out”, falam por si. (aqui)



NME - C86

A New Musical Express já tinha uma certa tradição de lançar coletâneas em fitas desde o começo da década até que em 1986 a revista lança aquela que se torna quase um manifesto indie. Mais do que uma coletânea de bandas desconhecidas e sem gravadora, a NME86 provocou um impacto tão grande que C86 passaria a designar um estilo dentro do indie (com uma sonoridade ainda mais crua mas com estruturas que não remetiam mais ao punk). A NME86 não só daria destaque àquelas bandas como também abriria espaço para uma série de bifurcações que o Indie Pop teria já a partir de meados dos anos 80 (do twee pop, passando por um lado mais noise pop, até o shoegaze). Entre os nomes que compunham a fitinha estavam The Wedding Present, Shop Assistants, além do Primal Scream e do Soup Dragons, que se tornariam estrelas da geração seguinte, já no Britpop. (aqui)



Belle & Sebastian – Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant

Se nos Smiths o ponto de partida foi o Post Punk obscuro do Joy Division, os escoceses do Belle & Sebastian recorreriam primeiramente aos recursos mínimos do Folk Rock, dos anos 60. Dessa década, a banda também se inspiraria no canto de Simon & Garfunkel e no cuidado instrumental de Burt Bacharach. Pronto. Estava assim montado o arsenal de melodias com aquela timidez contida, outonal, que por vezes remete às trilhas sonoras do Snoopy e ao intimismo de Nick Drake. “Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant” trás tudo isso e aquele que seria o maior hit da banda (“Wrong Girl”), ainda hoje presença obrigatória nos set lists dos shows. (aqui)


Camera Obscura - Let's Get Out of This Country

No momento em que o Belle & Sebastian partiria para uma incursão pelo lado mais solar dos anos 60 (materializado na música dos Beach Boys), os também escoceses do Camera Obscura se manteriam fiéis aos mandamentos trazidos pela banda de Stuart Murdoch. Mas mais do que meros seguidores do Belle, o Camera Obscura tinha diferenciais interessantes como o predomínio do vocal feminino de Tracyanne Campbell, um tanto frágil, sincero, em contraste com uma sonoridade vibrante muito inspirada na ambiência de Phil Spector e suas Girls Groups lá dos anos 60. O último disco (“Desert Lines”, 2012) parece apontar para direções mais distintas e mais sóbrias em relação àquelas que celebrizaram a banda, mas “Let's Get Out of This Country” (2004) ainda é o cartão de visitas dessa que, pelo menos pra mim, é uma das maiores descobertas desta década. (aqui)



Very Truly Yours - Things You Used to Say

Essa banda pegou todo mundo de surpresa. Parecia um apanhado geral de quase 20 anos de Indie Pop, do C86, passando pelos já citados Belle & Sebastian, Camera Obscura, os suecos do Club 8 e outros nomes mais respeitados no circuito underground (como The Softies, Heavenly, School). Mesmo com tantas referências, ninguém teve do que se queixar do som dessa banda de Illinois. Sua personalidade está lá, os vocais delicadíssimos e os refrões extremamente ganchudos desmontam qualquer argumento de que a banda seja apenas um papel carbono de expoentes anteriores do estilo. (ouça aqui)

sábado, 31 de agosto de 2013

40 anos e além


Pink Floyd
"Dark Side of the Moon"
1973

Começo com um clichê: o que falar de Dark Side of The Moon, do Pink Floyd? “Dark Side” enquanto evento, enquanto artefato mítico, enquanto amuleto da cultura de massa, o disco do prisma que é ele próprio um prisma por onde se pode se lançar os mais variados olhares, e se chegar a mais uma gama de conclusões. Um disco que é um ponto a parte até da trajetória da própria banda. Sempre vai ter algo pra se falar de Dark Side of The Moon, é como o Poderoso Chefão de Coppola, como Ulysses de James Joyce, Blade Runner, Sgt. Peppers, é um assunto que não se esgota nunca. Dark Side é um daqueles marcos da história onde a arte toca na cultura e alcança uma amplidão atemporal, que desconhece idiomas ou limites territoriais.

Conceitualmente, este disco já vinha se engendrando antes mesmo de começar a ser feito. O ponto de partida foi no disco anterior, Meddle, quando o Pink Floyd ao mesmo tempo em que experimentava uma sonoridade mais pé no chão, passava a olhar mais para o homem, seus dilemas e contradições, ao contrário dos seus contemporâneos progressivos que enfeitavam ainda mais o som e cantavam sobre universos paralelos e lendas antigas. Da janela do seu apartamento, Roger Waters observava a rua cheia de gente apressada, levando suas solidões por aí enquanto ele mesmo provava da sua, no momento em que o seu ex-parceiro e ex-companheiro de quarto, Syd Barret, se tornara um lunático afogado pelo LSD.

Empatia, loucuras modernas tidas como normalidade, pressões da urbanidade. Tentar enxergar a si mesmo no outro. Foi disso tudo que se formou o substrato de onde nasceria o disco que transcenderia não só o reduto underground como também o rótulo rock progressivo. De um hora para outra os esquisitões psicodélicos viraram estrelas mundiais tocando em estádios e atingindo vendagens impensáveis, tanto que na Alemanha tiveram que construir uma fábrica só para prensar mais e mais cópias daquele disco que se comunicou com um monte de gente de uma forma que poucos conseguem.

Da combinação perfeita do talento dos quatro integrantes saiu um trabalho sem excessos, sem adornos, sem rebuscamentos. Tecnicamente, é um feito quase sem paralelo, e mesmo 40 anos depois ele continua sendo um trabalho único por toda a sua natureza sônica e o seu equilíbrio formal, ainda mais se considerarmos que ele vem de uma época em que as gravações envolviam trucagens e cortes de fitas. É um disco bem cru, como Roger queria, mas sem abandonar a ambiência envolvente que Gilmour gostava. Com o teclado preciso de Rick Wright e as batidas no ritmo do coração que Nick Manson impunha, esse disco, que começa e termina com batimentos cardíacos reais, vai estar sempre nos lembrando o que somos por baixo de toda a loucura cotidiana, e enquanto o homem tiver capacidade de ser humano, Dark Side sempre vai fazer sentido.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Banquete de signos


 Zé Ramalho
1978

Eu gosto da expressão inglesa hit singles pack. Traduzindo grosseiramente, seria algo como pacote de hits. Geralmente é usada pra descrever discos dos quais a maioria das músicas caíram no gosto popular, massificaram naquele nível estrondoso. O primeiro de Zé Ramalho da Paraíba (era assim que ele assinava em 1978) é assim. É praticamente um best of, mas não é só isso: é um inventário geral de suas influências. Nele estão todos aqueles hits que definiriam os rumos da sua carreira, e deixa claro o caminho por onde ele transitaria nos anos seguintes.

Desprezando o fato de que algumas dessas músicas são quase que obrigatórias entre os cantores de barzinho, o certo é que seria inevitável um disco que começa com Avohai, passa por Vila do Sossego e chega em Chão de Giz passar despercebido (isso sem falar na versão instrumental de Bicho de Sete Cabeças). Pois nem o disco e nem ele passaram, e olhe que eram os anos da tal “Invasão Nordestina”, fim dos anos 70, os últimos festivais rolando, e um monte de gente do Nordeste despontando para o Brasil ao mesmo tempo.

Mas diferente do romantismo desencantado de Fagner, da placidez bucólica de Geraldo Azevedo, da adolescência tardia de Belchior, e da urgência primitiva de Alceu Valença, o universo de Zé Ramalho era bem particular. Depois de ter assimilado as influências do pop anglófono nos anos 60, e atingido as distâncias estelares com a psicodelia de Paebirú (o disco mais raro do Brasil, feito em parceria com Lula Cortes), Zé chegaria ao seu primeiro disco solo não como um novato na música, ele sabia bem onde estava pisando. Do meio de sua poética afiada, brotava uma mitologia própria, que unia o cordel ao fantástico, numa filosofia meio apocalíptica, carregada de imagens indecifráveis e épicas. Em geral, são paisagens desoladoras, sem tempo definido, misteriosas, habitadas por seres desconhecidos e por um narrador que fala como se estivesse tendo epifanias a cada instante.

Tudo isso vinha embalado numa musicalidade que tinha ao mesmo tempo ecos dos cantadores, antigos e modernos, violas, uma instrumentação bem crua, e texturas típicas do rock progressivo. O link com o rock progressivo se dava justamente com as presenças luxuosas de Patrick Moraz (ex-tecladista do Yes e ex-Vímana, banda de Ritche, Lobão e Lulu Santos) e de Sérgio Dias, um dos mitos brasileiros da guitarra, apenas um dos fundadores dos Mutantes. Não tinha como dar errado.

Ao mesmo tempo em que trazia tudo isso, Zé Ramalho manteria-se habilmente próximo às massas, unindo o popular e o sofisticado, como um Augusto dos Anjos que ainda hoje tem seus poemas recitados por muitos que sequer sabem ler. Era nordestino, brasileiro e cosmopolita. Era MPB, mas sem se render ao ideal bossanovista e sem fazer reverência aos baianos. Seja na voz de Amelinha, de Elba, ou em parceria com Alceu Valença, a cada ano que passa fica mais evidente que Zé é um dos maiores nomes da música brasileira de todos os tempos, e não só do Nordeste. Ave Zé.  


sábado, 22 de junho de 2013

“O que está acontecendo parte 3 ou 4” ou ch-ch-ch-ch-ch-changes



2013 começou louco de lançamentos e até agora o ritmo continua. É tanta coisa ao mesmo tempo que fica difícil acompanhar, a não ser que você tenha 17 anos e muito otimismo na nova música (o que não é bem o caso). Pra delimitar melhor as coisas, vamos pinçar três lançamentos recentes que acabaram coincidindo numa mesma condição, talvez uma das mais interessantes para quem se mete a fazer qualquer tipo de arte: a mudança. Mudar, mudar por mudar, mudar por necessidade, mudar naturalmente, tanto faz, raramente dá pra saber pra onde essa mudança leva. Alguns passam a vida fugindo da mudança, outros a transformam isso exatamente no mote da própria vida (tipo Bowie, citado no título).

● Pra começar, um caso recente de mudança meio mal fadada foi o do Camera Obscura. É com certo desconforto que reconheço isso porquê é uma das minhas favoritas de um tal de indie pop (ainda vou postar sobre) e lançou um disco que, se por um lado denota uma mudança saudável, por outro parece ter abdicado de tudo de bom que sempre fizeram. Por opção ou caminho natural? Difícil saber. O certo é que pra quem é afeito à ternura, aos violões, um lance mais Twee, Girl Groups, um pop mais escancarado, “Desire Lines” e suas ambiências espaçadas talvez não seja a melhor das companhias. Mas ainda assim vale a tentativa.

 ● Saindo lá da Escócia e caindo aqui na nossa vizinha Natal, quem apareceu também com um disco cheio das mudanças foi o Talma & Gadelha. A diferença é que no caso deles funcionou demais. Em “Maiô” o pessoal aumentou as guitarras, a tensão, o peso, e até as letras partiram para temas mais abrangentes do que o do universo “a dois” de “Matando o amor”, o primeiro disco. De uma tacada, ampliaram o repertório, o leque de sonoridades, deram uma sujadinha, sem abandonar o universo que já é tão próprio deles, que é o do cantar junto, do pop com vitalidade e paixão. Direto no alvo.
          
● Mas quem chocou mesmo o Queens Of The Stone Age, e de um jeito positivo. Não que a banda estivesse acabada, eles não tem mais o que provar, mas a bem da verdade fazia um tempinho que eles não lançavam um disco daqueles, digamos, embasbacantes. Mudança de formação sempre é um negócio difícil de digerir, e eles passaram por muitas desde a consagração com “Songs for the Deaf” de 2002. Agora em 2013, depois de dois discos meio incertos, a banda de Josh Homme reaparece com “...Like a Clockwork” e de cara entra pra lista dos melhores do ano. Privilegiando os vocais, os climas, tudo bem dosado com os timbres bem próprios deles, o Queens acertou a mão com um álbum com um fôlego raro nos dias de hoje. Quem veio acompanhando os clipes lançados antes do disco foi vendo uma sucessão de canções brilhantes que reforçam o nome da banda entre os grandes da atualidade. Nem precisa dizer que é recomendabilissimo.

domingo, 12 de maio de 2013

O lado escuro do Rei


Quem vê este senhor cantando, todo seguro, sobre suas artimanhas no jogo do amor, obviamente pode pensar que se trata apenas de um cantor romântico (o maior deles) e só. Essa é uma meia-verdade. Isto porquê se nos voltarmos um pouco para o seu período mais notável, fim dos 60's-começo dos 70's, vamos perceber que em boa parte das suas músicas o eu-lírico está sempre se ferrando. Não se vê tanto aquele romantismo férreo, inabalável, escancarado, feito só de beleza e maravilhas. Com Roberto é (era) melaconlia pesada, sempre tem um choro, uma despedida, uma história que teve fim, e fracasso, fracasso, fracasso afinal, como diria Núbia Lafayette. Isso sem contar músicas onde ele aborda a rotina do cotidiano, a incapacidade de comunicação, a ausência de perspectivas, até, de forma corajosa, o acidente que lhe amputou uma das pernas na infância. Até nas capas dos discos fica nítido esse tom sombrio, que nada mais tinha da postura heróica e luminosa dos tempos da Jovem Guarda. O melhor é que, apesar de envolver esses temas que beiram o melodrama rasgado, as músicas desse período são ótimas e estão entre aquilo que ele fez de melhor na carreira. Abaixo, dez exemplos desse lado corta-pulsos do Rei: 

"As flores do jardim da nossa casa"

 

"De tanto amor"



"A cigana"


"O show já terminou"


"Você me pediu"


"Sonho lindo"




"Custe o que custar"




"E eu não vou deixar mais você tão só"



"Eu daria a minha vida"


"As canções que você fez pra mim"



terça-feira, 9 de abril de 2013

Ednéia e as maçãs

Ednéia tinha vinte e sete anos, cinco meses e nenhum namorado. Chegara assim àquela idade por culpa de excessos, de cuidados de um pai melindroso, e de uma timidez doentia, da sua parte. Mas não era por ser envergonhada que Ednéia não tinha lá suas vontades. Levava seus ímpetos imaginativos a base de um truque colegial ensinado por uma amiga: abocanhar uma maçã, sorve-la firmemente, era quase como beijar o homem. Com o pudor que lhe era tão natural, testou o fruto com certo acanhamento, mas com o tempo foi tomando gosto e àquelas alturas era o que chegara mais perto de realizar os seus desejos mais lúbricos. Um dia, D. Marluce, sua mãe, conversava com uma vizinha sobre casamentos, quando percebeu que a filha estava quase beirando os trinta e nada de nenhum rapaz aparecer para visitá-la. Aterrorizada, tratou de pensar no que poderia fazer para arrumar as coisas para a filha e se lembrou que o filho mais novo de sua tia-avó, o Natércio, estava na cidade. Deu um jeito de chamá-lo e no dia seguinte o homem já estava almoçando com eles, sentado à mesa num lugar cuidadosamente arrumado para que ficasse de frente para Ednéia, e quem sabe cruzasse com ela um olhar ou outro, durante a refeição. Dali para frente, Natércio passsou a ir sempre à casa de suas primas distantes, e conversava mais com Marluce do que com Ednéia, embora sua mãe lhe obrigasse ficar ali enquanto ela só pensava no saco de maçãs novinhas que lhe esperava na cozinha.

Foi tão grande a insistência, os empurrões e a força das combinações às escondidas que Ednéia mal percebeu quando noivara com Natércio. Ou melhor, foi noivada, já que foi a mãe que intermediou tudo, das frases rituais até a entrega do anel, que Ednéia imaginava que fosse um presente dela até que se deu conta do dedo da mão em que a jóia estava. E foi assim, meio a contra-gosto, meio sem saber de nada, que Ednéia foi levando um noivado sem conversas que terminou num casamento com um homem que ainda era praticamente um estranho.

Na nova casa, Natércio só pensava em finalmente consumar o seu casamento, já que em seis meses de namoro e noivado mal tocara na moça. Mas Ednéia não queria saber de nada, lhe tratava a base de repelões e recusas, dia e noite. Numa madrugada, Natércio fora no banheiro e flagrou Ednéia sentada no vaso sanitário, só de hobby, chupando uma maçã enquanto um líquido que era uma mistura de suco e saliva descia pela sua boca e escorria por entre os seus seios. Tão extasiada, tão fora de si ela estava, que mal notou que Natércio estava parado na porta, boquiaberto. O homem até achou que aquilo se tratava de algum tipo de sonambulismo, mas descartou a idéia quando começou a flagrar Ednéia, em horas diferentes do dia, agarrada à uma maçã como um bezerro faminto no úbere na mãe.

Numa noite, depois de mais uma sessão de beijos com a maçã, Ednéia foi se deitar e nem percebeu que Natércio ainda estava acordado, com os olhos vidrados no teto. Ela mal havia se arrumado nas cobertas quando o homem virou-se de repente, arrancou seu lençol de um golpe e se colocou entre as suas pernas, enfim, pronto para o ato esperado. Mas Ednéia era forte, tentava se desvencilhar, retorcia-se indócil, não queria aquilo de jeito nenhum, e no meio daquela luta silenciosa, em pleno leito conjugal, Ednéia se viu sufocada, não pela mão de Natércio, mas por uma maçã que seu marido comprimia sobre sua boca, até que ao sentir o cheiro e o gosto tão familiares, seu corpo foi relaxando, e em meio àquele desfalecimento, diante da investida fugaz, Ednéia foi sendo perpassada por frêmitos que nunca sentira, atinando para partes suas que parecia que nem possuía. E então, depois tudo, dos uivos, da semi-inconsciência, da vista turva e do suor exasperado, Ednéia chegou ao ouvido de Natércio e soltou um sussurro doce, e ao mesmo tempo, imperioso: “Da próxima vez, deixe as maçãs para o café da manhã”.

domingo, 3 de março de 2013

Fragmento (1)

Nas frontes ardia o calor de quarenta sóis incandescentes, e pelas pernas, a dormência começava a apossar-se do corpo. Caído ali, despencava no profundo esquecimento, deixando o corpo alquebrado para trás. Ia soltando-se de si mesmo, resignado, e já quase nem percebia o gosto do sangue na boca, o cheiro do sangue nas narinas, o zumbido do vento ralo nos ouvidos, e a areia áspera onde afundava. Via na escuridão em que estava metido que o seu destino perdia as forças junto com a respiração. Mas ao longe, na distância das amplidões, o chocalho retiniu, incerto, quase como um suspiro, suficiente para lhe devolver a vida e lhe pôr de pé novamente. Os passos eram incertos, mas o caminho era a busca. Foi tateando, seguindo os arpejos longínquos que ele nem sabia se de fato ouvia ou lembrava.

A morte do pai foi a primeira. Depois da mãe, foram as cabras, as vacas e enfim estava ele, o coche, o cavalo e a rês bezerrinha. A magreza dela era a própria magreza das perspectivas, da esperança, de futuro para a sua linhagem. Ainda assim cuidava dela com todo zelo. Espevitada, rês bezerrinha deu um tranco na porteira da cerca e entrou no labirinto da catingueira. Era só um cochilo rápido, não era pra dar nisso tudo, a fuga da garrota, o resto do legado e memória do seu pai, que agora ia longe, longe. Jogou-se em cima do cavalo, chapéu, gibão, e foi-se prendendo o choro. Numa virada mal feita, topou com um cacho de chique-chique e foi a última coisa que viu. O cavalo continuou correndo, e ele ali, caído, deitado, tremendo, com a cara espetada, os olhos cegados, e o pensamento só na rês bezerrinha, onde estaria. Passou dias, ou horas, até que se levantou num repente quando o fiapo do chocalho clareou a ardência dos espinhos e da sua esperança.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O rito da Rita



Rita Lee & Tutti-Frutti
"Fruto Proibido"
1975
 
Certa vez, Rita Lee disse que ter saído dos Mutantes foi a melhor coisa que podia ter lhe acontecido. Apesar de ter passado algum tempo para se dar conta disso, na época tudo foi bastante doloroso, como é em todo rito de passagem. No caso da Rita, esse rito só se completaria alguns anos mais tarde, com o lançamento de Fruto Proibido (1975)

A passagem da escola pra universidade, daí para o emprego, casamento, tudo isso acaba implicando em desligamentos, readaptações, e alguma dose de sofrimento. Com Rita, deixar o seu grupo original foi o seu passaporte para a maturidade, da adolescência psicodélica com os Mutantes para a vida adulta ao lado do Tutti-Frutti. Foi ainda às voltas com esse clima de separação, mudança e partida, e a aceitação plena desse novo momento, que Rita Lee compôs algumas de suas melhores músicas de sempre: “Agora só falta você”, “Esse tal de Roque Enrow” (com Paulo Coelho) e “Ovelha Negra” (seu maior hit).

Mas pra chegar nesse ponto não foi assim de repente. Ainda na época dos Mutantes, vieram alguns discos solo, pra pegar confiança. Depois, com o Cilibrinas do Éden e Atrás do porto tem uma cidade, afinou o discurso, a embocadura, e chegou pronta em Fruto Proibido. Sucesso total. A pegada stoneana da banda de Luis Carlini foi a embalagem ideal para a poética de Rita Lee, que aquelas alturas andava fascinada pelo Glam Rock de Bowie e Marc Bolan. Mas ao contrário deles, Rita não propunha fantasias pop decadentes e escapismo: ela concentrava sua narrativa em torno de fortes figuras femininas (como em “Luz Del Fuego”), que parecem ser metáforas de uma mulher que ela procurou em si mesma, após o baque da sua demissão dos Mutantes.

Entre o instrumental forte do Tutti-Frutti, Rita encaixava marotamente o seu piano com o charme que era também uma das marcas do seu humor, bem feminino, desde os tempos tropicalistas. Mas nada disso parecia demandar muito esforço. Fruto Proibido não nasceria de exaustivos exercícios mentais, como o rock progressivo cabeçudo que seus ex-parceiros haviam adotado. O disco era a expressão pura e espontânea da criatividade de uma artista que não teve medo de exorcizar velhos demônios publicamente. O que acabou dando certo. De cantora promissora, Rita se tornaria uma estrela nacional, catapultada pelo êxito de Fruto Proibido, que é um dos grandes discos brasileiros de todos os tempos. (aqui)

Morada

Quando os homens chegaram , encontraram Dona Lourdes na cozinha, sentada à mesa. A idosa olhava para o quintal, indiferente às grossas rach...